The Unthanks, CC Olga Cadaval, Sintra, 10 de Maio

Em 2008, um certo projecto folk do nordeste britânico, chamado Rachel Unthank & The Winterset, actuou ao final da tarde de um dos dias do FMM Sines (palco da praia). Na altura, enquanto o trânsito no regresso da praia impedia parte da equipa do “Artesanato Sonoro” de assistir ao respectivo concerto, o nosso representante Rui Veiga teve o prazer de estar presente e caracterizou a prestação vocal que ouviu como “doce, sublime, ingénua, pacífica”. Apesar destas palavras, o projecto teria desaparecido facilmente do horizonte de muitos de nós, não fosse a bem-dita compilação de Sines, onde se encontrava uma verdadeira pérola, chamada “Sea Song”, versão do grupo para um original de Robert Wyatt. A partir deste instante, foi um pequeno passo até à audição do álbum The Bairns, seguramente um dos segredos folk da década, recheado de um sentido de classicismo delicioso e pleno de beleza e candura.

Dois anos mais tarde, o projecto voltou a Portugal, com um novo disco e um novo nome (passaram a intitular-se Unthanks). Embora não tivéssemos ouvido este novo trabalho (é de 2009, como é que nos passou ao lado??), eu e o meu bravo camarada José Bernardo Monteiro, tínhamos grande expectativa em relação a este concerto. No entanto, as coisas não começaram bem, por motivos bastante residuais, como veríamos mais tarde.

Tendo, por motivos profissionais, chegado dez minutos depois da hora do início do concerto, fomos surpreendidos (estamos mal habituados…) com o facto de este já ter começado. Em palco, encontrámos apenas dois elementos (duas vozes, uma guitarra e um violino a espaços, com a estranheza de ser um homem um frontman), com alguns elementos extra esporádicos, reconhecemos a interpretação do tema “I Wish” e, por aquilo que se ouvia, começámos a ficar com a amarga sensação de desilusão. Será que, com a mudança de nome, Rachel Unthank & The Winterset tinham perdido toda a magia e se tinham transformado naquele tipo de músicos inócuos (que há por aí em abundância) que pretensiosamente se auto-intitulam de singer-songwriters folk (começa a ser altura de separar o trigo do joio)? Puro engano…Era apenas uma fraca, mas honesta, primeira parte…

Depois sim, entraram em palco os Unthanks em palco e a música foi outra. A abertura foi logo incrível: “Sad February”, com um crescendo final impressionante (com destaque claro para o poder emotivo do piano), a que se seguiu um momento arrepiante à capela e sem amplificação, protagonizado pelas irmas Unthank e por Niopha Keegan, e “Lucky Gilchrist”, onde se destaca a importância da guitarra e um nervo e intensidade até aqui desconhecidos na sua música. Depois, veio o mais convencional, mas não menos sublime, “Annachie Gordon”, e, apesar de não conhecer até à altura nenhum dos temas interpretados, a minha rendição era já total. Aliás, passagens por The Bairns foram apenas duas, com “Felton Lonnin” e uma versão bem mais rendilhada de “Blackbird”, dedicada à Penguin Cafe Orchestra, ficando de fora temas incríveis como a tal versão de “Sea Song” (em contrapartida houve uma curiosa cover de “Sexy Sadie” dos Beatles, com um início mais easy-listening, a contrastar com a progressão negra e melancólica final), “Whitethorn” ou “Blue’s Gaen Oot O´The Fashion”. Mas isso não diminuiu em nada a opinião que tivemos do concerto…

É que no álbum mais recente, Here’s The Tender Coming, os Unthanks conseguiram a proeza de tornar o seu som mais complexo e rendilhado, acrescentando texturas sonoras, mas sem diminuir um pouquinho que seja toda a genuinidade e a emoção do registo discográfico anterior, o que o torna em mais uma inquestionável obra-prima. E a transposição para palco é incrível, com a beleza arrebatadora dos registos vocais das irmãs, a combinar na perfeição com o violoncelo, os violinos, o contrabaixo, o piano (importância fulcral), alguns toques de xilofone e o minimalismo da guitarra e da bateria (ao contrário do disco, não houve sopros, mas também não fizeram grande falta). Para além do mais, as irmãs (mais expressiva Rachel, mais tímida Becky) revelam-se simpatiquíssimas e dialogantes com o público, fazendo rasgados elogios a Sintra (pudera, é uma terra maravilhosa), contando algumas peripécias da digressão e até fazendo um comentário cómico sobre a visita do papa.

Para o fim, num encore mais do que obrigatório, ficou a versão de um tema muito alegre e quase infantil, chamado “Betsy Bell” (com direito a uma irresistível sessão de sapateado das irmãs Unthank) e a interpretação do lindíssimo tema que dá título ao novo disco. Em suma, um espectáculo com duas virtudes simultâneas: a possibilidade de ver um grande concerto e o despertar para um verdadeiro tesourinho discográfico do ano passado. Toca a ouvi-lo em repeat

(texto escrito originalmente no blog do “Artesanato Sonoro”, programa de músicas do mundo da Rádio Universidade de Coimbra)

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

2 respostas a The Unthanks, CC Olga Cadaval, Sintra, 10 de Maio

  1. If only more than 97 people could hear this!

  2. Hah am I literally the only reply to this incredible writing?!?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s