O desprezo pela formação científica nos concursos de professores

Muito se tem falado na influência da avaliação de professores no actual concurso, mas continua a ser profundamente desconhecido por muitos um pormenor fulcral neste e, ainda mais, nos concursos vindouros. Em virtude da implementação do diploma de Bolonha, as licenciaturas em ensino de 5 anos foram transformadas num modelo de 3 anos de tronco comum de natureza científica  (licenciatura) + 2 anos de formação pedagógica (mestrado). Ora, para efeitos de graduação profissional, de acesso à docência e de concursos, enquanto até agora era valorizada a média dos 5 anos da licenciatura em ensino, a partir da cosmética de Bolonha (em que, na prática, pouco ou nada muda na formação dos professores) só contam os dois anos do Mestrado. Este facto tem duas consequências muito concretas:

       1. Cria situações de desigualdade gritantes entre os que se formaram em pré-Bolonha e em Bolonha, com benefício claro para os segundos. Isto porque é bem sabido que as notas nos primeiros anos são, em média, quase sempre inferiores às dos últimos, porque a exigência e o rigor nas disciplinas de cariz científico é francamente superior em relação às disciplinas psico-pedagógicas (em algumas delas, basta cumprir as tarefas, para se ter 18 ou 19 garantido, independentemente da qualidade do trabalho que se efectua) e até em relação ao estágio pedagógico. Fui estudante numa instituição credível (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra), com um primeiro ano de mestrado que preserva alguma formação científica complementar e alguma pedagogia contextualizada no universo matemático, e mesmo assim as diferenças são inequívocas.

    2. Revela um desprezo pela formação científica de base absolutamente escandaloso. É tão claro quanto isto: é absolutamente irrelevante, para efeitos de docência, um aluno ter média de 10 ou de 18 no tronco comum do seu curso, quando não tenho dúvidas nenhumas que esta formação é incomparavelmente mais vital que a do 1º ano de mestrado, cuja importância é pontualmente bastante discutível. Pode-se dizer que um aluno que tenha média de 18 estará tendencialmente mais apto para tirar melhores notas no futuro, mas não só as diferenças se tornam bastante menos influentes nos anos de Mestrado (em particular no primeiro ano, no ano pré-estágio), como há que contar com a arbitrariedade e a desvalorização do mérito de certas disciplinas psico-pedagógicas. No fundo, está de acordo com o lobby das teorias educativas românticas e construtivistas (tão bem retratadas, por exemplo, por Nuno Crato na sua obra O Eduquês), em que os conteúdos são substituídos pelas competências e o predomínio da ciência e até da pedagogia aplicada e contextualizada aos diferentes saberes é suplantada pela pedagogia vazia, inócua e reveladora de um desconhecimento constrangedor da realidade.

Para terminar, gostava de dizer que me espanta que uma questão tão importante tenha sido tão ignorada até ao momento. Pode ter sido abordada em artigos e textos pessoais, como este que aqui escrevo, mas é lamentável que não tenha sido alvo de uma grande atenção por sindicatos, associações de professores ou até pelas últimas gerações de docentes licenciados em pré-Bolonha.

P.S. Para que se saiba, não resisto a revelar que sou dos que saio beneficiado com esta alteração que aqui contesto, por questões de princípio, que para mim se superiorizam a aspectos de natureza pessoal ou corporativista. Embora não tanto como outros colegas meus (pois tenho uma média no tronco comum relativamente alta), esta medida francamente injusta vai-me permitir subir alguns lugares neste concurso de 2010.

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15 respostas a O desprezo pela formação científica nos concursos de professores

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  2. paulo pereira diz:

    …”exigência e o rigor nas disciplinas de cariz científico é francamente superior em relaçao às disciplinas psico-pedagógicas (em algumas delas, basta cumprir as tarefas, para se ter 18 ou 19 garantido, indepentemente da qualidade do trabalho que se efectua) …” – E defendes a avaliação por professores universitários??!!?? Vai-me dando razão; avaliações também com base nos resultados dos alunos, como todos os outros…

  3. João Torgal diz:

    Claro que defendo, mas pelos professores da área científica em questão (no meu caso, Matemática), com uma ligação forte ao ensino básico e secundário. E não, naturalmente, pelos tipos das psicologias educativas e das ciências de educação, os tais que dão notas praticamente indiferenciadas (tal como muitas vezes defendem que se faça o mesmo no Básico e Secundário, sem retenções ou avaliações claras ou objectivas).

  4. Ana diz:

    Caro colega João,

    A questão que aborda também a mim me preocupa, ainda que, tal como no seu caso, venha a sair beneficiada.
    Possuo licenciatura pré-Bolonha, ramo científico e com uma média bastante confortável, e agora estou a tirar mestrado para obter a profissionalização e, no meu caso particular, ainda procuro saber como será calculada a minha classificação profissional para efeitos de graduação. Independetemente da minha situação, é procupante o desprezo que se está a atribuir à componente científica do curso, que no meu ver, é tão, ou mais importante que as cadeiras pedagógicas. De me serve o método e a pedagogia se depois não possuo o conhecimento, o rigor científico das matérias que estou a leccionar?

  5. RJ diz:

    O “Eduquês em discurso directo” mostra muito da podridão que infesta o ME- teorias pseudo-modernas e romantiquices roussianas, escola inclusiva nivelada por baixo (de inspiração marxista) e feita para “agradar”, ensino centrado no aluno e quase à la carte, desprezo pelo conhecimento em detrimento das mencionadas competências (o “saber fazer”), o problema da indisciplina. Toda a gente deve ler este livro.

    E por falar em conteúdo científico, Nuno Crato apresenta no livro um exemplo fantástico- algo como uma aluna recuar até ao tempo de Aristóteles sem que a professora desse conta…

  6. Ana diz:

    O currículo dos afectos… A educação à rédea solta.

    “Eduquês em discurso directo” – obrigada pela sugestão. Já vem a caminho!

  7. Sr. Mil diz:

    João Torgal, onde está escrito que a classificação profissional é a média do mestrado? (Escrito leia-se… decreto-lei)

  8. João Torgal diz:

    Está escrito no sítio onde diz que a classificação profissional é aquela que dá aptidão para a profissão, no caso a dos mestrados em ensino. Por experiência própria, eu próprio concorri em Junho e foi essa a nota de referência.
    Em boa hora não fiquei colocado, para me afastar (provavelmente em definitivo) do Ensino Básico e Secundário.

  9. Sr. Mil diz:

    Olá João. Antes de mais, obrigado pelo feedback 🙂

    Por curiosidade, porque tens tu um O (Outros) no Grau e não tens um M ( Mestrado) ?

    Estou a falar da lista de ordenação dos docentes de matemática. 🙂

  10. João Torgal diz:

    Porque a designação do Mestrado de Bolonha não estava adequada e disseram-me que esta era a forma de resolver o problema

    • Luana Moreira diz:

      Olá terminei agora um mestrado em Ensino, já na modalidade de Bolonha, gostaria de saber como fez (João Torgal) para a média do curso servir para efeitos de concurso.

      • Julgo que não é preciso fazer nada. No meu caso, foi simplesmente o que aconteceu, sem alternativa. Mas talvez seja diferente para quem não concorre pela primeira vez (não sei se essa a situação), não sei.

  11. Renato diz:

    “O “Eduquês em discurso directo” mostra muito da podridão que infesta o ME- teorias pseudo-modernas e romantiquices roussianas, escola inclusiva nivelada por baixo (de inspiração marxista) e feita para “agradar”, ensino centrado no aluno e quase à la carte, desprezo pelo conhecimento em detrimento das mencionadas competências (o “saber fazer”), o problema da indisciplina. Toda a gente deve ler este livro.”

    Pensei que fosse só no Brasil que a “onda” construtivista tinha se tranformado em apenas uma ideologia educacional. Parece então que o problema é “apátrida”, ou seja, enxergar no aluno apenas um número ou uma cifra que deve ser mantido em sala de aula apenas para “fazer inglês ver” a “democracia na educação” não parece ser uma demanda do MEC (Ministério da Educação no Brasil) ou da Secretaria da Educação (Idem).

    Aqui no Brasil, tanto faz você entrar com mestrado, graduação apenas ou até mesmo não licenciado (que ainda cursa a faculdade). Ninguém te dará mais valor ou te pagará mais por ter um mestrado. Interessante isso não?? Não foi à toa que aqui, se criaram várias categorias de docentes, indo do não-habilitado ao chamado licenciatura curta.

    Para o governo, o mais interessante é quem tem menos titulação, pois, aceita os baixos salários e as péssimas condições de trabalho.

    Lamentável, mas a educação de ensino básico e médio no mundo inteiro se tornou uma ferramenta de manobra político-ideológica e eleitoreira e um mercado para os produtos da educação.

    E o pior é que esse quadro é irrervível a curto e médio prazo.

    Os meus cumprimentos,

    Renato

    • Ana Martins diz:

      Em Portugal também é um pouco assim! Um professor contratado não tem um vencimento superior por ter Mestrado ou Doutoramento. Recebe exatamente o mesmo que um licenciado. O docente poderá ter algum benefício ao adquirir o grau de mestre ou doutor, mas só se o fizer quando já pertencer aos quadros, e mesmo assim será apenas uma pequena bonificação (em tempo de serviço) na possibilidade de acesso ao escalão seguinte (atualmente nem isso, porque as progressões na carreira estão congeladas devido à crise).

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