Notas Soltas

1. O que se passa no Irão deve servir como uma boa bofetada de luva branca a todos aqueles que ficaram em casa porque estava a chover, porque tinham bem melhor para fazer ou porque simplesmente não estiveram para se maçar. Sinceramente, acho o desprezo das pessoas pelo sistema eleitoral um insulto, ainda mais quando muitas delas provavelmente são as primeiras a cantar o refrão da mediocridade dos governantes eleitos, bla bla bla. Deixemo-nos de tretas: o voto serve para escolher aqueles que que queremos ou não queremos que nos representem. Se os candidatos não agradam, votem em branco, mas votem. Ficar em casa é como abrir a fresta da janela, deixar entrar a corrente de ar e culpar alguém pela gripe.

2. O Governo adiou o projecto do TGV. É óbvio que se trata de marketing político, ou seja, funda-se apenas em razões estratégicas, como tudo o que os governos fazem. Outro dia dei por mim a ler o “Correio dos Leitores” do Diário de Coimbra (só leio diários de referência); no meio de queixas sobre ervas daninhas em rotundas estava um testemunho impressionante de alguém que assistiu a um familiar a definhar nos cuidados de saúde públicos. Entre relatos absolutamente inqualificáveis de negligência e desconsideração pela dignidade humana vinha o conselho de uma enfermeira para “poupar no Tantum Verde”, já que “só tinham direito a uma tampa por doente” (qualquer coisa do género). Nós sabemos que estes projectos são concessionados, com muitos custos suportados por privados e pela UE, que se fundam no interesse público, etc. Nós sabemos. Talvez este familiar não. Só sei que este relato não me saia da cabeça enquanto assistia às imagens do espaço 10 de Junho da Presidência da República no “Second Life” (uma plataforma utilizada, pelos vistos, por toda gente – menos pela que eu conheço) e pensava nos milhares de euros que ali estão enterrados.

3. No Irão os protestos aumentam de volume, apesar de todos os esforços do govenro de Ahmadinejad para silenciar a comunicação social, principalmente a estrangeira. A desvantagem das ditaduras não isoladas (ex: Cuba, Coreia do Norte) é que as pessoas sabem. E quando as pessoas sabem é muito difícil manipular verdades e resultados. Acho fabuloso que as pessoas saiam para à rua, sem medo das consequências. Esperemos que a recontagem prossiga, e que se houver efectivamente fraude Ahmadinejad seja exemplarmente punido, acabando-se com a prepotência do líder que, a seguir a Kim Jong Il, é um dos maiores perigos para a ordem mundial.

4. Um dos programas de televisão que acompanho mais regularmente é o “Eixo do Mal”, na Sic Notícias. Acho o formato interessante e os intervenientes bem escolhidos. No entanto, no último programa fiquei com uma ligeira sensação de mal estar quando ouvi as gargalhadas um tanto ou quanto alarves de Daniel Oliveira e Clara Ferreira Alves sobre Vital Moreira. O problema é que não eram sobre o candidato, mas sim sobre o facto de “ser de Coimbra”. Aproveitaram para gracejar imediatamente sobre a Associação Académica de Coimbra e sobre “as tunas” (tudo por causa da história da “roubalheira”). Irrita-me este novo “tique” de alguns comentadores (como Vasco Puido Valente e Pacheco Pereira, por exemplo): de repente, ser-se ou ter-se estudado em Coimbra é um crime, e os estudantes/ docentes de Coimbra são todos uns alarves provincianos. E não é que uma fatia considerável não seja. O que me deixou irritado é que provavelmente desconhecem a importância que a Associação Académica de Coimbra teve em lutas políticas passadas, bem como a importância que teve e tem como pólo de cultura da região centro. Quem conhece o edifício sabe que não abundam “as tunas”, e que muito para além destas há dezenas de grupos (etnografia, teatro) com provas bem dadas. Ao contrário do que pensam, o resto do país não é paisagem. Ocupando o lugar de destaque que ocupam, deviam medir melhor o que dizem.

5. Para terminar, deixo aqui aquele que para mim é um  dos melhor spots políticos do século XXI. Simpatize-se ou não com o partido em causa, e apesar de alguma demagogia, está genial.

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3 respostas a Notas Soltas

  1. José Maria Pimentel diz:

    1. Nem mais. Uma coisa que me irrita há bastante tempo, contudo, é o facto dos brancos e nulos não serem tidos em conta por ninguém! Só nestas eleições, ascenderam, penso, aos 6%. Demasiado para serem esquecidos!

    2. LOL, curiosamente, tb n conheço ninguém!

    3. O Irão é um país muito particular. Está cheio de paradoxos. Já ouvi alguns iranianos depor e é quase unânime que o Almahdinejad não corresponde ao iraniano típico. Ainda assim, foi eleito, ainda que por uma margem reduzida, a primeira vez.

    4. Isso é típico de lisboeta. Não é culpa deles. É culpa do nosso sistema ultra-centralizado. Nada se passa, aparentemente, fora de Lx. Isso leva-me a outro assunto que já uma vez estive para abordar aqui. Tendo em conta que a grande maioria dos comentadores são, primeiro, de zonas urbanas e, segundo, de Lisboa, há inevitavelmente uma dissociação entre aquilo que os move (ou seja, aquilo que os afecta e sobre que, consequentemente, comentam) e aquilo que move o português-tipo.

    5. É verdade!

  2. O spot publicitário podia ter sido feito pelo Daniel Oliveira. Tem piada e chama a atenção, mas é altamente demagógico e, mais que a ideia do votar, passa a ideia hommersimpsonesca do “everyone’s stupid but me”.
    Quanto à falta de respeito das pessoas pelo sistema eleitoral (e com toda a razão que tens quanto ao “ficar em casa”, que ainda apodrece mais a situação), insisto na ideia de uma gigante falta de respeito o sistema eleitoral pelas pessoas…

  3. António P. Neto diz:

    1) Já tinha alertado para a “demagogia” do anúncio (sem demagogia não há publicidade, afinal).

    2) Não vejo que mal faça o sistema eleitoral às pessoas. Quanto a mim, não tenho nada contra a gente simpática que nada ganha nas mesas de voto.

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