Balanço musical de 2008

Final do ano, altura de balanços. Assim sendo, aqui fica a minha retrospectiva musical de 2008, com a escolha pessoal para álbuns, músicas, concertos, descobertas de 2007, surpresas, confirmações e decepções. É sempre uma tarefa difícil e muito subjectiva, pelo que esta, naturalmente, não foi excepção.

ÁLBUNS:

1. Calexico – Carried to Dust – combinação magnífica do mariachi mexicano, do oeste americano e de uma enorme sensibilidade pop – uma obra-prima;

 

2. Fleet Foxes – Fleet Foxes – a forma apuradíssima de pegar na influência nítida e assumida em Neil Young e fazer um extraordinário álbum folk; 

 

3. Sigur Rós – Med Sud i Eyrum Vid Spilun Endalaust – apesar da aproximação, em dois ou três temas,  a toadas pop ligeiramente mais descartáveis, é mais uma maravilha etérea da melhor banda do Mundo;

4. Vampire Weekend – Vampire Weekend – jovens de Brooklyn cheios de dinâmica, com alguma influência nos ritmos africanos, a elaborarem um álbum fabuloso e viciante, que se ouve vezes a fio sem nunca fartar;

5. Mandrágora – Escarpa – no segundo disco, o tradicional português funde-se com o progressivo e com o jazz, numa abordagem deliciosa, cheia de ritmo e musicalidade;

6. A Naifa – Uma Inocente Inclinação para o Mal – mantendo a lírica cheia de ironia e a mistura entre fado e electrónica, intensificam neste disco, de forma sublime, a sua veia intimista mais emocional;

7. Wolf Parade – At Mount Zoomer – regresso em grande da banda canadiana, num álbum com épicos rock muito marcados pela inconfundível voz de Spencer Krug e por um ritmo viciante;

8. Dodos – Visiter – percussão recheada de energia e um sentido melódico e harmonioso tremendo, numa brilhante revelação do ano;

9. Kumpania Algazarra – Kumpania Algazarra – Balcãs, reggae, ska, ritmos cubanos…; tudo misturado numa lógica festiva e absolutamente irresistível;

10. Pé na Terra – Pé na Terra – modernização do tradicional português, com arranjos sublimes a elevar os níveis de intensidade e de emoção a patamares de excelência;

        Outras escolhas:

Amadou & Mariam – Welcome to Mali – mais um excelente album deste duo de verdadeiros embaixadores da música do Mali, no contínuo processo de revitalização e renovação da música africana;

Beck – Modern Guilt -álbum complexo, mas mais polido e menos arrojado do que o esperado, num registo pop muitíssimo consistente e fiel ao estatuto de génio de Beck;

Black Mountain – In the Future – grande disco de hard rock, numa perspectiva clássica e com alguns aspectos folk incorporados, a fazer lembrar, a espaços, grandes momentos de bandas como os Led Zeppelin ou os Deep Purple;

Bon Iver – For Emma Forever Ago – combinação simples e bastante melancólica de elementos acústicos e a voz frágil de Justin Vernon, num registo muito, mas muito bonito;

Dead Combo – Lusitânia Playboys – ao terceiro disco, a banda eleva a sua capacidade de combinar, com arte, o som do oeste americano ou da América Latina com uma certa portugalidade musical;

Deolinda – Canção ao Lado – versão arrojada, alegre e subversiva do fado, onde se destacam a postura irreverente de Ana Bacalhau e as letras deliciosas – um dos fenómenos nacionais do ano;

Devotchka – The Mad & the Faithful Telling – considerados os pais dos Gogol Bordello, têm também um pé na música cigana dos balcãs, mas complementam-no com uma estrutura claramente mais pop. Um album contagiante e muito interessante;

Foge Foge Bandido – O Amor Deu-me Tesão / Não Fui Eu que o Esqueci – depois de outros projectos menos consensuais, Manuel Cruz dos Ornatos Violeta regressa em grande forma, com uma obra megalómana acompanhada de um livro;

Kills – Midnight Boom – nervo, punk e rock sujo a contrastar com um carácter mais melódico e, aqui e acolá, mais contemplativo. Irresistível.

M83 – Saturdays = Youth – música pop electrónica (não confundir com o electro-pop) com um certo ambiente retro e com alguns aspectos dream pop a abrilhantar o disco;

Mogwai – The Hawk is Hawling – sem grandes novidades sonoras em relação ao passado, mais um conjunto de pedaços de grande música, feitos à medida dos apreciadores de pos-rock;

Mu – Casa Nostra – continuando a sua viagem sonora por diversas paragens do globo e por diferentes culturas, a banda do Porto volta a demonstrar o seu ecletismo e a sua excelência;

Nick Cave & The Bad Seeds – Dig Lazarus Dig – depois do som mais cru dos Grinderman, o australiano volta com um grande disco rock, mas bastante mais melódico e complexo;

Portishead – Third – depois de quase uma década de espera, a banda de Beth Gibbons surpreende com um álbum bastante difícil e experimental, mas igualmente notável;

Stephen Malkmus & the Jicks – Real Emotional Thrash – com uma inspiração invejável, o ex-Pavement volta com grandes temas, demonstrando definitivamente que há vida para além da sua mítica banda;

 

 MÚSICAS

1. Sigur Ros – Festival;
2. Calexico – House of Valparaiso;
3. Pé na Terra – Sentir
4. Mandrágora – Candelária
5. M83 – Skin of the Night;
6. Kills – Tape Song;
7. Beck – Chemtrails;
8. Young Rapture Choir – Jed the Humanoid;
9. Deolinda – Movimento Perpétuo Associativo;
10. Dodos – Fools;

          Outras escolhas:

A Naifa – Na Página Seguinte
Black Mountain – Tyrants
Deer Tracks – Yes This is My Broken Shield
dEUS – Eternal Woman
Devoctchka – The Clockwise Witness
El Guincho – Antilhas
Elbow – The Bones of You
Fleet Foxes – Your Protector
Fol&ar – Valsas e Mazurkas Para Quê
Idol Fodder – Death and the Maiden
Joan as a Police Woman & Rufus Wainwright – To America
Kumpania Algazarra – Donde La Vida Va
Stephen Malkmus & the Jicks – Baltimore
Vampire Weekend – Cape Cod Kwassa Kwassa
Wolf Parade – Call it a Ritual

 

CONCERTOS:

1. Sigur Ros (Campo Pequeno)
2. Pé na Terra (Andanças)
3. Vampire Weekend (Alive)
4. Chemical Brothers (Sudoeste)
5. Kimmo Pohjonnen (FMM Sines)
6. Deolinda (Sudoeste)
7. Dodos (Salão Brasil)
8. Orchestra Baobab (FMM Sines)
9. GEFAC (TAGV)
10. Rokia Traore (FMM Sines)

 

FABULOSOS ÁLBUNS DE 2007 QUE SÓ DESCOBRI EM 2008

Chromatics – Night Drive
Chuchurumel – Posta Restante
M-Pex – Phado;

Orchestra Baobab – Made in Dakar;
Rachel Unthank & the Winterset – The Bairns;


ALGUMAS SURPRESAS DO ANO

Festival de Músicas do Mundo (FMM) de Sines e Andanças – a minha estreia em dois óptimos festivais de música étnica;
Kimmo Pohjonnen – a demonstração máxima da ausência de limites sonoros para um instrumento, com a sua abordagem visceral e explosiva de um acordeão;
Chemical Brothers – deram um fabuloso concerto no Sudoeste, mesmo para quem está bem longe de ser um fã de música electrónica;
– os álbuns de estreia de Deolinda, Pé na Terra, Fol&ar, Cordis, Kumpania Algazarra, Fleet Foxes, Vampire Weekend, Deer Tracks, Peixe:Avião, Bon Iver…
Young Rapture Choir – um coro de miúdos franceses que fazem versões deslumbrantes de temas dos Grandaddy e afins;

 
ALGUMAS CONFIRMAÇÕES DO ANO:

– a experiência arrebatadora e muito muito especial de ver os Sigur Ros ao vivo;
– a existência de inúmeros projectos musicais portugueses de qualidade, nomeadamente no domínio etnico;
– de Cuba ao Mali, da Índia a Portugal, dos Balcãs a Cabo-Verde, as maravilhas que se podem encontrar na chamada “world music” não têm fim (algo para descobrir muito mais em 2009);
– infelizmente, o declínio cada vez maior da rádio generalista nacional, com o desaparecimento progressivo dos programas de autor, da informação musical e da divulgação de novas bandas, novos projectos, novos músicos ou novos sons;
– grandes regressos discográficos de nomes conceituados da música como Stephen Malkmus, Nick Cave, Portishead ou Beck


ALGUMAS DECEPÇÕES DO ANO:

– mais um adiamento do 3º disco dos Realejo e do álbum de estreia dessa grande instituição de Coimbra e do país que é o GEFAC;
– a combinação da voz difícil de Antony Hegarty (ainda assim, autor do sublime disco que foi I Am a Bird Now de 2005) com o revisionismo decadente do disco sound no projecto Hercules and Love Affair, foi algo de abominável;
National no Alive e Nitin Sawhney no Sudoeste – dois grandes concertos em perspectiva, muito prejudicados por um espaço e um ambiente que não honrou o seu estilo de música;
– o extremo cansaço com que cheguei do Andanças, impediu-me de desfrutar convenientemente do concerto da Bjork no Sudoeste, no que deve ter sido mais um dos grandes momentos ao vivo em Portugal;
– concertos que não vi e que se calhar devia ter visto (o tempo e o dinheiro não dão para tudo): Massive Attack, Portishead, Young Marble Giants, Nick Cave, Kumpania Algazarra, Emir Kusturica, Cesária Évora

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5 respostas a Balanço musical de 2008

  1. Paulo Jorge Pereira diz:

    Não fazendo qualquer comentário ás escolhas apresentadas por elas serem, como referido, subjectivas, devo chamar a atenção para 2 opiniões pessoais que poderão caber num comentário a uma lista de preferências musicais:
    ROCKETTOTHESKY com o album MEDEA é incontornavel em qualquer lista;
    THIRD dos PORTISHEAD é o melhor album do ano;
    SIGUR ROS, por muito quese goste do album, não deixam de ser uma desilusão(mesmo que pequena!!!!)
    P.S.: ouçam COCOROSIE

  2. António P. Neto diz:

    Um dos 10 melhores posts do ano, seguramente!

  3. Paulo:

    1. Apesar de já me teres falado disso há muito tempo, só agora ouvi os Rockettothesky no myspace e gostei imenso: etéreo, lindíssimo e a voz dela é verdadeiramente angelical. Tenho de ouvir o disco na íntegra, porque ainda só ouvi o que está no myspace, mas o tema “Grizzly Man” é das coisas mais maravilhosas que tenho ouvido nos últimos tempos e entra garantidamente para a minha lista de melhores músicas do ano.

    2. Quanto à desilusão dos Sigur Ros, até posso nem gostar muito daquela abordagem mais pop (apesar de eu agora considerar o “Gobledigook” um tema incrível), mas só pode ser uma decepção na lógica da discografia dos Sigur Ros. Genericamente, continua a ser suficiente para ser um dos grandes grandes discos de 2008.

    3. Quanto às Cocorosie, achei alguma piada ao experimentalismo folk do primeiro disco (“La Maison de Mon Rêve”), mas depois fartei-me daquilo nos discos seguintes e deixei de ouvir completamente.

  4. António:

    É para mim uma grande honra receber esse elogio de um ilustre fundador deste blog 🙂

  5. Pingback: Balanço do Balanço Músical de 2008* « A Mesa de Café

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