Um país às esquerdas

Já repararam que os únicos partidos de direita em Portugal parecem ser o PPV e o PNR? No PSD e no CDS (não falando sequer da Nova Democracia) existe um temor profundo em ser rotulado de partido de direita. Começa pelos nomes de ambos: Partido Social Democrata e Centro Democrático Social dificilmente serão reconhecidos por algum estrangeiro como partidos de direita (já Partido Popular seria bastante mais óbvio, mas esse nome passou a ser um empecilho para Paulo Portas há muito). A isto somam-se as declarações dos dirigentes de ambos os partidos. No PSD já são clássicas essas afirmações, desde Marques Mendes, passando por Luís Filipe Menezes e tantos outros, e terminando ontem com Paula Teixeira da Cruz. No CDS a tendência foi agora reinventada, culminando na frase emblemática de Paulo Portas (“o CDS está à esquerda do PSD em questões sociais”). Um espirituoso artifício de linguagem utilizado por ambos os partidos para evitar que se conclua que são de direita é aqueleem que se referem à direita como: “o espaço não socialista”.

Nota: Embora estas manobras sejam, de facto, um exagero, é verdade que nenhum destes partidos é, em termos económicos, verdadeiramente de direita. Uma paradoxal herança do Estado Novo e do seu Estado sempre presente

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5 respostas a Um país às esquerdas

  1. Cabeza diz:

    Somos um país pobre, José. E de resto, em toda a Europa, ninguém se atreve a tentar desmontar a herança da social democracia. Mas há uma razão para a perplexidade dos Europeus sobre as denominações dos partidos à direita. A tradição partidária deles remonta ao inicio do séc. XX, quando havia eixos estruturados e claros dos princípios valorativos que dividiam os notáveis e as massas.
    Todos eles sabem que isso das siglas, hoje, é perfeitamente inútil. Aliás, todo o centrão europeu se converteu à técnica e à moderação para se tornarem partidos de eleitores (the catch-all parties). A política passou para os extremos, que têm o problema do eleitorado fixo pelos valores e ideias que nunca atingem toda a população.
    Já a direita portuguesa, para além da herança de Abril, não precisava de grandes estudos sociológicos (e nem havia sociologia porque era sinonimo de socialismo) para perceber o eleitorado que tinha. Teve, portanto, a possibilidade de criar na hora as suas bases de principio. Percebe que é um país pobre (que vota pela carteira) mas é perspicaz o suficiente para saber que também é conservador (herança do Estado Novo). E é assim que se constrói o discurso da direita, fala-se abertamente em referendo ao aborto mas no que toca a despedimentos fala-se na necessidade de “racionalizar o Estado”. É com pena que digo isto, mas creio que o cidadão comum não faz puto do que isso é. E depois são todos gatunos…

  2. Cabeza diz:

    Relativamente ao Portas, é um catch-all migalhas que decidiu arriscar na euforia dos 14% que acabou por não ter. Mas a saber de antemão a maioria absoluta da direita teria, eventualmente, dado o meu voto ao tipo. Não tem a arrogância aflitiva de PPC em questões sociais, nem sequer aquele perfume neoliberal em demasia. O seu entourage é, também, conhecido pela sua competência enquanto PPC acaba a licenciatura com 37 anos.
    Vendo bem, será que o CDS está mesmo mais à direita do PSD?

  3. José Maria Pimentel diz:

    Homem, admito a razoabilidade de tudo o que disseste. Excepto isto: entre PPC e PP, chamas arrogante ao primeiro? Rojo…

    Quanto ao restante, concordo na parte da competência da entourage.

    • Sim, foi precipitado mas também um desabafo. Objectivamente, terás toda a razão mas agora repara no estilo politico de cada um. Eu referia-me ao discurso de ambos nesta campanha que tiveram para as questões sociais.
      PP fez questão de sublinhar que tinha essas preocupações em mente, sobretudo quando se classificou mais à esquerda nesse âmbito que o PSD. Para todos os efeitos, demagogo ou não, teve tento na língua. PPC, na sua politica honesta e de verdade, não se coibiu de aconselhar uma enxadinha para uma desempregada há 10 anos, de dizer “espero que o seu curso lhe sirva para muito” a uma aluna do novas oportunidades (ao qual ela agradeceu por ter sido apelidada de ignorante); ou ainda, para relembrar Daniel Oliveira no seu programa, da arrogância com que falava do rendimento social de inserção a sugerir, se não me engano, a ideia ultrapassada de que a “esmola alimenta a preguiça”.
      Eu não costumo prestar atenção a estes deslizes, no entanto está visto que tem de aprimorar o seu sentido de comunicação política.

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