A estratégia

Paulo Portas é, já o acho há muito, o nosso melhor político. Arguto, de discurso certeiro e autor daquelas frases que resumem um momento político, sofre apenas de um ligeiro problema, de ordem biológica: não pode renascer. Ou seja, os eleitores lembram-se do que ele fez, não no Verão passado, mas quando esteve no Governo. E é isso, creio, que o impedirá de alcançar nas próximas eleições um resultado ainda mais expressivo.

Nos últimos anos, depois de um regresso à liderança do PP que muitos vaticinavam fugaz, Portas soube, ao contrário do que tinha feito anteriormente, criar verdadeiramente valor à sua volta. Os políticos do PP são um pouco à sua imagem e, diga-se, por regra, bastante irritantes. São também, todavia, provavelmente dos mais trabalhadores e competentes que temos (tínhamos) na Assembleia. Nos últimos anos habituámo-nos a verificar que a melhor oposição ao PS vinha da bancada mais à direita (tal como, anteriormente, era a bancada do BE que se destacava). Cada asneira do Governo recebia imediatamente uma resposta certeira, mais certeira do que a do PSD. E cada política errada não era apenas criticada, mas também contrariada com uma proposta alternativa.

O objectivo de Paulo Portas é claro. De um partido que alternava entre o conservadorismo e o populismo, ele quis criar um partido que fosse capaz de disputar o espaço do PSD, mais ao centro. Quis – e, em certo sentido, conseguiu – criar um partido que pudesse, ao mesmo tempo, reclamar a respeitabilidade inerente a um “partido de governo” (como o PSD e o PS) e beneficiar do menor escrutínio a que está sujeito um partido fora desse arco governativo.

Esta estratégia esteve evidente em vários momentos. Os mais importantes foram a aprovação dos quatro PECs. O PP afirmou sempre, desde o início, rejeitar os vários planos. E ninguém o incomodou. Já o PSD, sujeito a um maior escrutínio, e tendo obrigações enquanto maior partido da oposição, viu-se sempre obrigado a aprovar os planos. No PEC-4, quando se fez esquisito e rejeitou o documento, foi vítima (ingénua) da estratégia do PS, e é agora visto por muitos como um partido irresponsável. Alguns desses muitos vão votar PP nas próximas eleições, alheios ao facto de que o partido em que vão votar não aprovou um único dos PECs que o PSD, ao tentar ser responsável, deixou passar.

Outro exemplo foi a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Noutros tempos (tivesse, por exemplo, Ribeiro e Castro à frente do partido), o PP teria feito uma oposição acérrima ao diploma, sobretudo tratando-se de uma aprovação parlamentar, e não por via de um referendo. Desta vez, o PP comportou-se com a maior das discrições, com todo o cuidado, para não eliminar potenciais votantes mais moderados. Na mouche, porque ninguém parece ter reparado.

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Uma resposta a A estratégia

  1. Não hostilizar com acutilância o socratismo e procurar vexar Passos Coelho são os mais recentes erros de Portas. Até aí, eu iria votar PP pela segunda vez. Agora já não sei.

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