A Luta dá Audiências, Pá!

Eu percebo que para quem leve estas coisas a sério (sim, estou a falar para si, Dona Eugénia) a vitória dos Homens da Luta seja uma coisa escandalosa. Suspeito é que, neste momento, há algum produtor e algum director de programação que estarão a esfregar as mãos de contentes (ou a acariciar um gato felpudo sentado ao seu colo). Passo a explicar porquê (ou então não passo a explicar nada, já que muita gente deve saber aquilo que vou dizer a seguir).

Todos os programas de televisão (todos) têm um objectivo simples e claro: gerar audiências e hype. Para que se cobrem anúncios e outras maneiras engenhosas de gerar dinheiro (product placements) mais caros. Estamos todos de acordo até aqui, não estamos?

Então falemos agora da Eurovisão: o que é a Eurovisão? Um festival que de há largos anos para cá tem vindo a ficar completamente votado à indiferença. Alguém se lembra de quem venceu as últimas 5 edições? Claro que não. É um produto que ao longo dos anos tem vindo a perder importância para outros formatos como os Ídolos, as Operações Triunfo, Big Brothers, etc. etc. etc. Da mesma maneira que o Ídolos não pretende encontrar o “próximo ídolo” (no limite isso será parte do objectivo) mas sim um grupo de concorrentes que cause polémica (=drama=audiência), o Festival da Eurovisão pretende (ou pretendeu pelo menos este ano) também alguma polémica que ponha finalmente as pessoas a falar do programa (pelo menos da maneira que faziam há uns 30 anos).

E como funciona a pré-selecção, alguém sabe? Simples, dirão vocês (o regulamento, aliás): os artistas enviam as suas gravações e um júri de 3 (ouviram leram bem, três) elementos selecciona as melhores. Mas será que é o júri que decide alguma coisa? Provavelmente. Mas como em todos os programas deste género, é quase certo que o júri se reúne com a produção para “pescar” os candidatos com mais “potencial”. E não se trata de potencial musical (apenas): potencial em termos de programa, histórias que possam “vender” e comover todas as donas alziras lá em casa ou criar polémica. Assim, das 400 a 500 candidaturas o júri escolhe “20 a 24”.

Pois bem: imaginem o júri de “reconhecido mérito” sentadinho a ouvir as dezenas e dezenas de candidaturas. Parece pouco provável, não parece? E é talvez por essa mesma razão que muitas candidaturas não chegam às 24, apesar de serem francamente melhores que as seleccionadas e de algumas dessas 24 nem sequer cumprirem com o regulamento (eu próprio conheço 2 ou 3 candidaturas – não minhas, descansem – que por muitas razões deveriam estar entre as 24).

E assim se seleccionam os “Homens da Luta”, os “Nunos Nortes” e todos os candidatos que de algum modo tragam alguma coisa para o programa que se converta em €uros, para pagar a patrocinadores, produtores, técnicos e um sem fim de custos que custam (passe a redundância) estas coisas.

O que talvez esses mesmos produtores nunca esperaram foi que os “Homens da Luta” ganhassem (não que isso lhes cause algum incómodo, porque certamente não causa – a edição foi um sucesso (não de audiências, mas em jornais e blogs)). Isso acredito que não. Parecia a fórmula milagrosa: um candidato que cause polémica e outro com qualidade para ir à final. Pois bem, saiu-lhes o tiro pela colatra. A si, Dona Eugénia. E ao Nuno Norte, que ainda não foi desta que conseguiu ir a algum lado para “representar Portugal” (esta constante urgência em encontrar alguém que “represente Portugal” – Mariza, Mourinho, Cristiano Ronaldo – também pode dever-se ao facto de sermos representados “lá fora” por figuras como Cavaco ou Luís Amado). A Luta dá Audiências, Pá!

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