Académica, Parte I

Raramente falo sobre a Académica (entenda-se: AAC) aqui no blog. Se calhar faço mal, se calhar faço bem. Tenho dúvidas. A maior parte dos blogs dedicados à “causa” são espaços de troca de ódios de estimação, perspectivas completamente parciais, magistérios de influências e cobranças de favores.

A AAC tem, quanto a mim, um grande problema, que não é de hoje; refiro-me à sua total incapacidade de comunicar com a academia de forma global. E quando falo em academia refiro-me à massa estudantil que chega hoje a Coimbra para estudar nos intervalos das “festividades”.

Trata-se de uma massa estudantil de 18 anos, nascida já nos anos 90, criada em frente à Playstation e aos Morangos com Açúcar que não entende o conceito de “causa” (há excepções, que acabam por ser, no fundo, os novos estudantes que chegam à AAC). O conceito de “causa” defendido pela Académica de Zeca Afonso ou de Adriano Correia de Oliveira. Os tempos são outros, as “causas” são outras. Não vale a pena tentar nenhuma análise sociológica da coisa; impõe-se apenas uma conclusão: as gerações actuais não se revêem, grosso modo, no modelo tradicionalista vigente na maior parte dos Organismos Autónomos e Secções da AAC. E quando digo tradicionalista não digo praxista: mesmo os organismos autónomos anti-praxe, virados mais à esquerda (não digo isto de forma pejorativa, é um facto) parecem não conseguir apelar a estas novas massas. O trabalho da maior parte das Secções/ O.A.’s é hoje visto por estas gerações – e repito, grosso modo – como tradicionalista, desactualizado, antiquado. Fora de moda. Sem interesse e pouco apelativo.

Mas não são apenas as Secções e Organismos Autónomos da AAC (deixo o desporto de fora porque não o conheço tão bem como a actividade sediada no edifício da Padre António Vieira) que se desenvolvem paralelamente às massas. A própria direcção geral parece-me cada vez mais distanciada das reais ambições e preocupações dos estudantes. Hoje, totalmente instrumentalizada, é um espaço de aprendizagem política. Longe vão os tempos em que Alberto Martins “pedia a palavra”. Longe vão os tempos em que a academia seguia comandada pelo presidente da DG rumo a Lisboa para marchar contra o aumento das propinas. Longe vão os tempos em que a Direcção Geral da AAC era vista na cidade e no país como importante catalisador de opiniões políticas.

A consequência é por demais óbvia. Sem uma massa estudantil jovem que ingresse nas secções e se ocupe das suas actividades (e, mais importante, das suas direcções), acumulam-se dinossauros nos “poleiros” que apesar do discurso “da vida dedicada às causas da Académica” são apenas, e no geral, pessoas que falharam a  vida no seu ramo profissional. Não terão culpa de uma coisa: em Portugal não se investe na cultura; Lisboa é uma bolha que absorve bem mais de metade do que se produz a nível nacional. Só que fotógrafos, radialistas e cineastas existem no resto do país. E sem condições para desenvolverem a sua actividade refugiam-se, em Coimbra, no confortável e seguro manto da AAC, que subvertem a seu favor sem qualquer tipo de pudor. Fazem-no  numa lógica de direitos adquiridos, tendo sempre a seu favor o facto de já conhecerem o mecanismo – o sistema (distribuições de verbas, por exemplo) – muito melhor do que qualquer novato idealista que chegue a cargos de relevo na Académica. Fazem-no beneficiando o seu “feudo”, numa relação que surge nas suas cabeças como “win/ win”: ganha a Académica e ganho eu.

Ora, portanto, já não é apenas a Académica “cultural” que não apela às massas estudantis. São os próprios meandros, feitos de conversas de corredor e tacticismos tão mal intencionados quanto ingénuos que repelem as novas massas estudantis, porque temem perder a sua condição, o seu status quo construído com interpretações dúbias de regulamentos, cobranças de favores e muita chico-espertice. Apoios que mais tarde se cobram. Elogios que duram enquanto a torneira “pinga”.

Isto não é de hoje. A própria Académica está estruturada de forma a favorecer o mais “ancião”: veja-se o caso do Conselho de Veteranos, que recebe verbas bem chorudas para desenvolver as suas… “actividades”.

Inverter a forma como as coisas estão organizadas há cerca de 30 anos é uma tarefa ciclópica e praticamente irrealizável nos tempos que correm. A solução passa por aquilo que não se faz: aproximar a academia dos novos estudantes. Só quando estes acorrerem em massa às Secções e aos Organismos, se entregarem e tentarem moldá-las aos “novos tempos” teremos uma Académica verdadeiramente construída e mantida por estudantes. Actualmente temos aquilo que defendi neste texto: uma coexistência entre meia dúzia de novatos utópicos e idealistas e dinossauros conservadores (sobretudo no que toca à manutenção dos seus “direitos”). A coexistência não é pacífica nem frutifica o trabalho da Académica. E gravita quase sempre em torno de questões económicas, como é óbvio.

Não me passa pela cabeça defender, com este texto, que os antigos estudantes (ou aqueles que nunca o foram, o que commumente se denomina como “população futrica”) não tenham lugar nas actividades da AAC. Claro que o têm: são importantíssimos para trazerem a sua experiência para as Secções: mas a sua função é, entenda-se, colaborar, e não dirigir. O que os “dinossauros” parecem não perceber é que se fizessem o que fazem de forma transparente e assumida (ex: prestação de serviços) poderiam ser remunerados e evitar todos as dúvidas que se levantam no que toca à gestão dos seus “feudos”.

De um ponto de vista mais pessoal, devo dizer que tudo isto me causa um grande repúdio. Essa é a razão pela qual nunca pretendi levar mais da Secção a que pertenço do que aquilo que me é legítimo cobrar: as amizades que fiz, a aprendizagem musical que consegui retirar (se é que é alguma), a experiência organizacional, a capacidade de lidar hoje muito melhor com pessoas e conflitos. A formação, entenda-se.

Sem querer qualquer tipo de auto-promoção, arrisco afirmar que se toda a gente se limitasse a retirar este tipo de benefícios estaria a Académica hoje muito mais jovem e saudável. Porque eu só a compreendo desta forma: vale a pena manter o que nela existe enquanto se tratarem de manifestações espontâneas da vontade e do trabalho dos estudantes, e não de guerrilhas perpetuadas por pessoas com idade para seguir em frente e largar o que já não lhes pertence (se é que algum dia lhes pertenceu).

Não pretendo exaltar ânimos nem criar ódios de estimação. Mas senti esta análise, feita da minha experiência de 4 anos na Associação Académica de Coimbra, como necessária. As pessoas não se calam com ameaças físicas e ofensas verbais, calam-se com razão (calma, não fui alvo de nenhuma das duas) . Porque se assim não for, a Capa Negra que ainda usamos, bastião do animus por que se rege – ou deveria reger – a Académica não será mais uma bandeira de liberdade, mas apenas um pano sujo, anacrónico e inútil. Um dinossauro, portanto.

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