A educação no país do faz de conta…

1. O governo decidiu, em cima do início do novo ano lectivo, terminar com o ensino recorrente. Fê-lo supostamente com base na diminuição do número de alunos neste sistema de ensino que, nos últimos dois anos, passou de 31.319 para 16.701 alunos . A razão é simples, muitos perceberam que inscrevendo-se nos sistemas EFA (educação e formação de adultos) e RVCC (reconhecimento, validação e certificação de competências) poderiam obter os ansiados diplomas do 9º ou do 12º ano com muito menor esforço e dedicação (num país em que cada vez mais vigora a máxima ridícula que quem não tem canudo é necessariamente inferior, independentemente da sua maior ou menor aptidão profissional). Ao terminar com o ensino recorrente, o governo não só direcciona alunos para essas relativas fantochadas, como impede todos aqueles que têm vontade real de aprender de o fazer em condições dignas e prejudica bastante quem, estando impedido de aprender no regime diurno, pretende prosseguir estudos para o Ensino Superior, dado que a formação obtida será naturalmente escassa. Em condições normais, seria um escândalo, mas já não é. É apenas a continuidade de uma política de promoção de  mediocridade e ignorância, seguida tanto no regime diurno (como denunciei no post “O Aluno esperto”), como no nocturno. A isto juntamos a má-fé e a incompetência, em que temos como exemplo recente (um de muitos) o fecho das escolas anunciado (com a alegria cínica de quem apresenta uma medida positiva incontestável) a poucos meses do início do ano lectivo (e não ter sido em pleno Verão, como o fim dos estágios remunerados em 2005, já foi uma sorte), com a instabilidade de, a poucos dias do início das aulas, muitas situações ainda estarem por definir.

2. Ainda no terreno da educação, muito se tem falado do concurso de professores e do número elevado de docentes que ficaram sem colocação. Não faltaram opinion makers a referir que há muito menos oferta do que procura e que, portanto, cabe aos professores não colocados encontrarem alternativas. MENTIRA. Por um lado, porque só assim é porque a preocupação com a qualidade de ensino é quase nula e, como tal, não há nenhuma vontade de, por exemplo, diminuir o número de alunos por turma, na linha do que sucede na Finlândia, esse autentico paraíso educativo dos governos socratinos, mas que só o é no plano teórico. Ridícula e despudorada é a justificação da ministra do sorriso, Isabel Alçada, para nao o fazer, referindo que as experiências portuguesas mostram que turmas pequenas até causam maior insucesso (!!), “esquecendo-se” de acrescentar que isso sucede em currículos alternativos ou em situações com muitos alunos com necessidades educativas especiais, em que as dificuldades são naturalmente muito mais acentuadas. Por outro lado, analisar a questão da oferta e da procura com base no concurso, sem ter em atenção as especificidades dos diversos grupos de recrutamento (a situação em Filosofia não é a mesma que em Biologia, por exemplo), é fazer uma péssima análise da situação. Muitos dos professores vão ainda ser colocados, nomeadamente nas escolas TEIP (Territórios educativos de intervenção prioritária), escolas mais problemáticas onde quase ninguém quer ficar e onde acabam por se instalar muitos professores com pouca ou nenhuma experiência (!!), e a situação é de tal forma diferente do que se pinta que há por vezes a meio do ano carências de professores em determinadas áreas que obrigam à contratação de pessoas não profissionalizadas, com qualificação para a função bastante discutível. Claro que tudo isto é do interesse da tutela, em nome de um ideal que implicitamente preconiza, o da precariedade, e em nome de uma aposta inequívoca, o corte da despesa neste autêntico encargo financeiro (é assim que o consideram) chamado Sistema Educativo Público Português.

Posto isto e tudo o que tem sucedido nos últimos 5 anos (e não só, naturalmente), reforço a pergunta do Tiago:

O QUE RESTARÁ DO ENSINO PÚBLICO QUANDO A COMISSÃO LIQUIDATÁRIA INSTALADA NA 5 DE OUTUBRO ACABAR A SUA MISSÃO?

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