“O Escritor Fantasma” – a importância dos detalhes

Vi recentemente duas das mais badaladas produções americanas dos últimos tempos: A Origem e O Escritor Fantasma. Da primeira já falei aqui. Este post servirá para falar da segunda, mas, embora os dois filmes sejam completamente diferentes, acabarei inevitavelmente por traçar breves comparações.

O Escritor Fantasma narra a história de um escritor (para reforçar a ideia de obscuridade nunca chegamos a saber o seu nome – interpretado por Ewan McGregor) contratado para finalizar as memórias pessoais de um ex-primeiro ministro britânico (Adam Lang, interpretado pelo ex-007 Pierce Brosnan) após a morte do seu antecessor, vítima de um trágico e estranho acidente. Só que nem tudo o que parece é e as referências mediáticas à ligação de Lang à C.I.A. e à violação dos direitos humanos na Guerra do Iraque pelas forças da coligação parecem esconder uma realidade bem mais perversa e enigmática…

Através da sinopse, não é difícil perceber que a temática abordada está longe de ser inovadora. O que não faltam por aí são, uns melhores que outros, thrillers sobre os podres da política, a sua vertente de autêntica espionagem, a verdade escondida,  os perigos e as barreiras para quem investiga profundamente para a obter e a informação falaciosa. Então o que é que distancia o filme  de Roman Polanskida mediania? Também não é a referência implícita, mas mais que óbvia, a Tony Blair, à sua enorme preponderância na Guerra do Iraque e a uma verdadeira realidade paralela em torno desse vergonhoso processo armado (também já há óptimos filmes do género, como referi aqui).

A principal virtude da película está nos pormenores, na riqueza dos diálogos, no suspense inequívoco que consegue cativar no espectador, na subtileza fundamental do papel da secretária de Lang, na forma como consegue arrastar a lógica do filme noir até aos limites da contenção. Tudo, mas tudo, em absoluto contraste com a estrutura entediantemente complexa e o mero espectáculo de efeitos especiais do medíocre e sobrevalorizado A Origem.

Para culminar este O Escritor Fantasma, surge um seco e brusco final, algures entre o previsível e o non-sense (paradoxo que fica a consideração de cada um), que chega a parecer gozo (não é naturalmente, pois não há nenhuma relação entre os dois filmes – esta é apenas a reacção de quem viu ambos num curto espaço de tempo) em relação ao epílogo pseudo-emotivamente surpreendente de Nolan (para mim, é apenas ridículo).

Em suma, um óptimo filme de Polanski, não só pelo conteúdo, mas principalmente pela forma, algo fundamental quando se fala de expressões artísticas (ao contrário do que provavelmente deveria suceder na política…).

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