Flash Sudoeste 2010

Num festival que se previa à partida dividido entre dois dias de interesse musical e outros dois marcados por uma qualidade bem duvidosa (num deles, apenas com algum interesse em Scuba, Anaquim e Bajofondo, afastei-me da selva e não estive nem perto do recinto), eis que surpreendentemente o panorama se inverte um pouco em dois dos dias do festival. Para o bem e para o mal, mas já lá vamos. Ficam os comentários aos concertos que vi:

2 Many DJ’s – Coube ao alter-ego dançável dos Soulwax as honras de cabeça de cartaz no dia de recepção ao campista. Reconhecidos por efectuarem mesclas peculiares e extravagantes de temas bem conhecidos, o duo de DJ’s belga deu um espectáculo perfeitamente à medida da ocasião. Queen, Guns ‘n’ Roses, Sepultura, Gossip, Kraftwerk, LCD Soundsystem… tudo misturado e tudo desconstruído. It’s only rock’n’roll (e pop e electro e… metal e…) but we like it. ****

The Very Best -Tendo chamado particular atenção pelo dueto com Ezra Koenig dos Vampire Weekend, o projecto The Very Best estreou-se no ano passado com The Warm Heart of Africa, mais um trabalho afro-pop com uma forte componente dançável. Não sendo particular apreciador do disco, por o considerar muito frio e pouco orgânico, tinha esperanças que ao vivo a música crescesse e fosse muito marcada pela imponência dos ritmos africanos. Puro engano. Com apenas construções electrónicas e vozes, o resultado é, ao vivo, ainda mais artificial. **

Flaming Lips – Ficava a curiosidade de perceber se a banda de Wayne Coyne iria dar um ênfase mais forte ao seu último trabalho, The Embryonic, um disco tão bom como neurologicamente corrosivo, ou se iria estender-se muito para o psicadelismo mais alegre e menos claustrofóbico do passado. O resultado esteve algures entre os dois, pois houve uma alternância entre temas de The Embryonic. como o fabuloso e muito negro “The Sparrow looks up the Machine” ou uma versão  caricata e deliciosa de “I can be a frog” (com o público a ser incentivado pelos músicos a imitar o som de animais), e o regresso ao passado atrevés de “Yoshimi…”, “Do you realize” ou o mais velhinho “She Don’t Use Jelly”. Se ao incrível lado musical juntarmos um sentido performativo notável, com Coyne a começar o concerto dentro de um balão em cima do público e mais tarde a ser içado por um “urso” ou com a presença em palco de uns dançarinos deliciosamente descontextualizados (podiam estar num concerto dos D’ZRT), tivemos “apenas”, para um público que não o mereceu (apático, desinteressado e pouco numeroso), um dos grandes concertos do ano em Portugal. *****

Kruder & Dorfmeister – Figuras emblemáticas da electrónica austríaca, na sua versão mais downtempo e com pontes de contacto com o trip-hop de Bristol, a dupla alternou entre momentos mais ambientais e outros mais próximos do hip-hop, com a presença de dois MC’s. Neste contexto e com a importância evidente do jogo de luzes, foi um belíssimo concerto, muito marcado por uma electrónica mais cerebral, que ultrapassa muito o conceito de “música de dança”. Pelo menos na pequena parte que foi possível ver, dada a vontade de ver M.I.A. Se o arrependimento matasse… ****

M.I.A – Com uma adaptação urbana e pulsante da linguagem tradicional de rua, com semelhanças estéticas com Buraka Som Sistema ou Makossa & Megablast, a presença no Sudoeste da britânica M.I.A. foi surpreendentemente bem mais monocórdica e até chatinha do que explosiva. Claro que, mesmo para quem não é apreciador do género, haveria sempre grandes pérolas mais ecléticas, como “Jimmy” (mas não houve) ou “Paper Planes” (com o caos em palco e com tantos graves, foi uma sombra do grande tema original). Uma verdadeira decepção **

Groove Armada – Sendo uma espécie de segunda linha da electrónica britânica e estando algo próximos do estatuto sempre incómodo de “one hit wonder” (com o inevitável “I See You Baby”), os Groove Armada estão, ainda para mais, já bem longe dos seus tempos áureos. Cometendo a proeza de não tocar o seu maior clássico (apenas presente na intro), só com “Superstylin’” (a fechar) e pouco mais a banda conseguiu elevar ligeiramente um concerto bem morno e previsível, sem grande chama, a fechar um dia bem pior do que esperava. **

Lykke Li – O concerto da sueca Lykke Li foi uma agradável surpresa… muito pouco por causa da própria, diga-se de passagem. É que com os seus devaneios despropositados e as inúmeras falhas vocais (tal como a versão sem grande chama de “Ready or Not” dos Fugees), podia ter deitado tudo a perder. Mas isso não aconteceu porque, em vez da pop electrónica algo duvidosa que eu esperava, se encontra uma secção instrumental constituída por óptimos músicos, com destaque para o sentido rítmico dos notáveis percussionistas   Sensação estranha esta de valorizar um concerto em que a frontman esteve mal… ***

DJ Shadow – Figura de grande destaque da produção, do scratch e de uma vertente electrónica mais próxima do hip-hop ou do funk, pertenceu ao britânico DJ Shadow um dos melhores momentos do festival. Não só pela música, particularmente forte ao vivo e que incluiu um vibrante tema original, mas por tudo o que o rodeia.  Com uma projecção de imagens dupla e absolutamente hipnótica (no fundo e num balão) e com um jogo cénico absorvente, com o músico a tocar dentro de um balão, surgindo perante o público esporadicamente, a performance de Shadow foi uma verdadeira experiência sensorial ****

Jamiroquai – Dividindo as honras de atenção a meias com DJ Shadow (com predomínio para este último), seria fácil para a banda de Jay Kay ficar a perder, até porque os tempos mediáticos e gloriosos dos Jamiroquai já se esgotaram há quase uma década. No entanto, surpresa das surpresas, eis que J.K. e seus pares ainda mandam a postura comodista às malvas e são capazes de nos dar momentos dançáveis verdadeiramente inebriantes. Se a isto juntarmos uma catadupa de êxitos, como “Cosmic Girl”, “Canned Heat” ou “Deeper Underground”, temos uma agradável nostalgia adolescente garantida. ***

Orelha Negra – Honras nacionais para o fecho da segunda noite de Sudoeste, com um autêntico super-grupo, constituído por Sam The Kid, DJ Cruzfader ou membros dos Cool Hipnoise. Com aproximações ao hip-hop, mas com um lado funk predominante,  a  sua actuação alterna entre construções originais e uma mistura improvável de sons, desde Beyoncé a MC Hammer. Uma agradável surpresa, a fechar uma noite bem melhor do que se esperava… ***

Martina Topley Bird – No final de 2009, a habitual companheira musical de Tricky tinha feito uma interessante primeira parte de Massive Attack. No final de tarde do Sudoeste, a abrir o palco secundário, a sua sonoridade resultou ainda melhor. Novamente a meias com um muito místico homem-ninja, Martina passa por estilos diversos (mas sempre com muito requinte) e, acima de tudo, revela-se brilhante na exploração e experimentação sonora,  que inclui samplagens vocais, sintetizadores melodiosos e alternância entre instrumentos  mais convencionais e outros improvisados. Um conjunto riquíssimo de detalhes, num óptimo concerto. ****

Peixe Avião – Não os considerando na altura uma surpresa retumbante, era no início apreciador do seu disco de estreia, “40:02″, muito marcado por uma linhagem rock emocional, cantado em português, mas com pontes de contacto claras com os Radiohead dos primórdios. Contudo, com o suceder das audições, o disco começou a saturar-me, muito por causa da voz de Ronaldo Fonseca, demasiado estilizada em redor do timbre de… Thom Yorke, mas numa espécie de falsete permanente. Situação essa que se comprova ao vivo, não só pela voz, mas pela clara falta de versatilidade sonora nos temas **

Mike Patton: Mondo Cane – Depois de, segundo parece, ter estado verdadeiramente endiabrado no Alive, eis que Mike Pattton regressou a Portugal com mais um dos seus inúmeros projectos. Vestido todo de branco, qual galã romântico de terceira categoria,  e acompanhado de mais de 20 músicos, incluindo, pasme-se, a Orquestra do Algarve, o projecto prestou homenagem à música ligeira italiana de meados do século XX. Desde momentos mais “Festival da Canção”, até outros a fazer lembrar uns Gogol Bordello ou… o Farwest Americano, é tudo uma grande tanga, mas isso, no caso, só pode ser nota de… elogio ***

Beirut – Quem pensava que poderia ser uma experiência algo depressiva e introspectiva ver a abordagem mais melancólica da música dos Balcãs protagonizada por Beirut, está redondamente enganado. É que está bem mais perto da apoteose, com o público (imenso, algum dele de propósito para ver este concerto) a entoar entusiasticamente grande parte das letras. Com passagem por temas maravilhosos, como “Postcards from Italy”, “A Sunday Smile” ou o inevitável “Elephant Gun” (a que se acrescentou um mais leve e “popzinho” tema novo), seria fácil ter-se assistido a um grande concerto… não fossem as deploráveis condições de som, com pouca intensidade, que praticamente tornaram inaudível a voz de Zach e alguns instrumentos (praticamente só se ouvia os sopros) e com feedbacks constantes. Imagina-se um concerto de Beirut no Castelo de Sines e acredita-se facilmente que poderia ser um dos concertos do ano. Assim, nestas condições, foi no máximo razoável. ***

Air – Com a agenda de concertos a colocar duas das bandas que mais desejava ver com alguma sobreposição (Air e Beirut), houve necessidade de perder um pouco de ambas . A fabulosa banda francesa mostrou em palco a fibra de que é feito o seu som, com uma pop electrónica que alterna entre o psicadelismo e o ambientalismo mais etéreo. Depois de uma forte passagem pelo seu mais recente disco, o agradável Love 2 (não vi essa parte do concerto e que pena tenho de não ter visto pelo menos esse fabuloso tema chamado “Tropical Disease), veio a passagem eufórica pelos grandes temas do passado, nomeadamente a tripla final do emblemático Moon Safari (“Kelly Watch the Stars”, com um OBRIGADO vocoderizado, “Sexy Boy” e o perfeito “La Femme d’Argent”). Pode ter sido morno a espaços, mas com música desta qualidade, capaz de nos transportar para espaços estratosféricos, só podia ser muito bom. Assim sendo, fica a pergunta: como é que uma banda de terceira linha como os Groove Armada é cabeça de cartaz e os míticos Air só tocam uma hora? ****

Massive Attack – Não consegui deixar de sentir uma certa desilusão quando vi os Massive Attack em Novembro. Na altura referi que haveria atenuantes para explicar a falta de impacto do concerto, nomeadamente o local em que me encontrava (na bancada, lateralmente) e o pouco interesse das pessoas que me rodeavam. No Sudoeste, num sítio adequado e com a intensidade musical e visual  (destaque para as palavras de ordem) totalmente desfrutadas, o concerto da banda britânica foi enfim a experiência sensorial desejada. Com um alinhamento parecido com o de Novembro, houve passagem por quase todos os discos, excluindo Protection, incluindo o mal amado 100th Window e com incidência na obra-prima Mezzanine (fabulosa a claustrofobia de “Inertia Creeps”). Não houve “Karmacoma” mas houve um final perfeito com o apoteótico “Atlas Air” do mais recente Heligoland. Houve, como convidados,  Martina Topley Bird, Horace Andy e Deborah Miller, mas não houve Damon Albarn, Hope Sandoval (é o problema de ter discos óptimos, com convidados de luxo) ou Elizabeth Frasier. E bastaria um deles, a cantar o respectivo tema, ou, pelo menos, uma versão mais simples e emotiva e menos psicadélica de “Teardrop” e a outra estrela estaria garantida ****

NOTAS FINAIS:

– este é um texto meramente pessoal e não uma reportagem. Se assim fosse, não daria estrelas ou, pelo menos, não o faria desta forma (quando houve concertos que só vi a meio gás, muito à custa da sobreposição de horários);

– ter dois ecrãs gigantes e apenas usar uma pequena parte (menos de 1/4) para transmitir os concertos do palco principal (imagina-se que por motivos publicitários) é, no mínimo, estúpido. O que é que a TMN pensava conseguir com isso para além de… irritação?

– a presença do Grupo Coral de Vila Nova de Mil Fontes em alguns interlúdios de concertos, com chapéus da TMN e com a interpretação adaptada ao contexto do tema “Eu ouvi o passarinho”, foi apenas e só deprimente. Uma coisa é modernizar a música tradicional, outra é ridicularizá-la.

– É uma pena que o Sudoeste esteja feito um misto de acampamento de férias e feira popular, que haja tantas vuvuzelas, gritos, infantilidades e manifestações de boçalidade e tão pouca vontade de ouvir música. Usando a terminologia da organização, é uma pena que tenha havido tanta gente na Zambujeira para “viver” e tão pouca para “ver”. É que, parecendo que não, ainda é suposto ser um festival de música…

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s