Flash Milhões de Festa 2010

Decorreu de 23 a 25 de Julho a terceira edição do Milhões de Festa, pela primeira vez em Barcelos. Num festival marcado por um preço bem agradável (35€ pelo bilhete geral, menos de metade do que a maioria dos festivais) , pelas excelentes condições e pela simpatia genérica das pessoas, o maior pecado esteve… na música.

Houve, é certo, um excelente concerto dos Delorean, banda basca responsável por uma pop com experimentação electrónica, traduzida em disco por “Subiza” de 2010 (não conhecia). Uma verdadeira surpresa final (último concerto do palco principal),  surgindo ao vivo com uma atitude  francamente  dedicada e positiva e com uma forma musical particularmente festiva, estimulante e dançável, com um sentido rítmico notável, muito graças ao seu incrível baterista. Foi muito bom, ainda para mais numa altura em que o cansaço já se apoderava do corpo e a exigência em relação às  propostas  musicais era claramente maior. Mas foi curto…

É que, genericamente, a mediania foi a nota dominante. Foi algo deprimente (já esperado, diga-se de passagem) ver The Fall, na medida em que não é agradável ver Mark E. Smith, símbolo de uma geração, transformado numa espécie de caco (pode nunca ter cantado de forma convencional, mas a forma descontrolada e displicente como agora se apresenta em palco não chega sequer a ter piada)  e uma banda de apoio altamente limitada e subserviente aos devaneios e excentricidades do seu mestre. El Guincho foi muito prejudicado pela deplorável qualidade de som (uma constante no palco principal do festival),  que tornou a voz de Pablo Díaz Reixa praticamente inaudível (tão nítido, por exemplo, em “Cuando Maravilla Fui”) e, ora pela falta de intensidade, ora pelo predomínio absurdo de graves, transformou o irresistível tropicalismo do projecto espanhol em música quase incomodativa. Toro y Moi foi, para além dos problemas de som, altamente monocórdico e com um sentido de espectáculo ao vivo inversamente proporcional ao de Delorean. A banda espanhola Extraperlo mostrou, num agradável final de tarde e com pouco mais que meia dúzia de pessoas a assistir, alguma sensibilidade pop e sentido rítmico, mas foram claramente prejudicados pelo timbre grave e algo incomodativo do seu vocalista.  De resto, no que fui vendo (não vi Paus ou Za, que receberam elogios de algum público presente), foi um festival muito marcado pelo rock mais pesado, pelo hardcore e pelo metal (estilos que não aprecio e não acompanho) e pela electrónica de índole duvidosa, nomeadamente no palco secundário, muito marcado pela inconsequência da maioria dos projectos. Excepção feita a Gold Panda, cuja electrónica mais ambiental e menos simplista se destacou claramente da maioria dos projectos deste campo musical.

E foi pena. É que o recinto é claramente apelativo, situado na antecâmara da praia fluvial e com uma bancada sobre o palco principal com algumas semelhanças com Paredes de Coura (embora sem a sua imponência), a sua envolvência é a própria cidade de Barcelos e não um descampado transformado em festival (como sucede no Super Bock Super Rock ou no Sudoeste ), as condições de campismo estão, pela positiva, a anos luz de distância dos restantes festivais e os habitantes locais, organização e até o staff de segurança revelam-se calorosos e agradáveis na recepção à população “festivaleira”. A tudo isto junta-se um atractivo vespertino de real importância: a transferência do festival durante a parte da tarde para a piscina municipal (com relva e espreguiçadeiras à disposição), onde, pese embora algumas propostas musicais demasiado pesadas e desajustadas ao ambiente solarengo e veraneante, houve lugar a performances bem hilariantes e se passaram momentos bem agradáveis, com destaque para, algures entre uma alegria eufórica e  um ambientalismo bonito, o óptimo final de tarde de Sábado com Marçal dos Campos, Fabulosa Marquise e Os Yeah.

Assim sendo, fica uma palavra final de incentivo para a organização. Para que, mesmo sem haver pretensões de fazer um festival megalómano (espero bem que não haja, pois perderia grande parte da mística e já agora da paz e do relativo sossego do certame), haja menor quantidade de bandas e , em contrapartida, um reforço qualitativo do cartaz nas próximas edições. É que, se ao alto nível de todo o lado logístico se adicionar um consistente programa musical, teremos um grande festival em perspectiva…

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