Festival Med: dia 4 (26 de Junho) – o dia da fusão

Início de último dia de festival com a maior enchente, o que se nota desde logo no concerto dos Diabo na Cruz no Castelo, com o espaço de tal forma preenchido que havia pessoas a serem barradas à entrada. Só foi possível ver um pouco do concerto (interesses musicais mais elevados assim o implicaram), mas a apropriação jocosa e subversiva da música tradicional portuguesa (ou apenas uns pozinhos dela) estava a levar ao delírio o público. Fica só uma pergunta no ar: os Diabo na Cruz podem ter imensa piada e fazerem música freakmente divertida e particularmente eficaz ao vivo, mas justificarão todo o hype que se gerou em seu redor?
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Passagem sem demoras para o palco da Matriz, onde se iniciava a actuação do compositor francês René Aubry. Numa linhagem musical mais clássica e erudita, mas com elementos tradicionais à mistura (essencialmente europeus, com destaque para o maravilhoso tema “Salento”), capaz de agradar (e muito) a fãs de Yann Tiersen ou da Penguin Cafe Orchestra, ficava a curiosidade de saber como iria funcionar a sua música num festival como este. Ora, grande parte do que foi dito sobre os 3 pianos, poderá adequar-se a René Aubry (embora aqui com a observação quase integral do concerto). A música que se ouve é excelente (uma combinação instrumental maravilhosa de sons do violino, do contrabaixo, do banjo, das guitarras acústicas, da percussão suave, do clarinete, do saxofone tenor, do piano ou do acordeão) e eximiamente executada, mas, mesmo estando à frente (numa zona onde houve maioritariamente respeito pelo tom mais pausado e melancólico da música de Aubry), há demasiado barulho para que se consiga absorver tudo o que vem do palco. Saúda-se a escolha, em nome da diversidade, mas se calhar bastaria que o palco fosse o da cerca (como no ano passado sucedeu com o projecto mais orquestral de Kimmo Pohjonnen – Uniko), para que o impacto fosse outro. Ou seja, podia ter sido um soberbo concerto, tivesse sido no sítio e no momento certos.
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Depois de uma passagem breve pela Cerca, onde actuavam os alentejanos Virgem Suta (não sou, nem de perto, nem de longe, fã desta visão mais descontraída e ligeira da música portuguesa, nem vi grande parte do concerto, pelo que não vou fazer grandes comentários), regresso à Matriz para o concerto de encerramento do palco. Num dia profundamente marcado pela fusão da tradição, seja com o classicismo ou com a modernidade, um exemplo paradigmático dessa realidade é a actuação de Mercan Dede & Secret Tribe. Fundindo música originária do Médio Oriente (no caso, com destaque para a corrente islâmica do sufi) com o poder da electrónica, podem-se encontrar aqui algumas semelhanças estéticas de base com os Watcha Clan, que actuaram no Med no dia anterior, mas a sua concretização é bem diferente. Há aqui uma realidade muito mais orgânica, muito mais respeito pelo legado tradicional e muito mais peso na componente instrumental (em particular, o oud e as percussões e flautas orientais), interpretada pelo turco Mercan Dede e pela banda que o acompanha, os Secret Tribe, constituída por músicos muito jovens, talvez na casa dos 20 anos. Não havendo um lado visual tão forte, ao nível da projecção de imagens, como julgo existir em outros concertos do músico, ganha evidência na fase final do espectáculo a entrada em palco de um casal de bailarinos, para um fantástico momento de complementaridade entre música e dança orientais. Desta forma, ao contrário de outros momentos do festival, Mercan Dede mostrou que é possível dar um excelente espectáculo performativo, sem descurar um lado musical verdadeiramente válido e interessante.
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Para encerrar as propostas musicais do certame, o aguardado regresso a Portugal dos Boom Pam, dois anos depois de terem fechado apoteoticamente o Festival de Músicas do Mundo de Sines. Na altura, a ainda relativamente desconhecida banda israelita surpreendeu pela fusão entre o surf-rock (a base predominante) e a música do leste europeu e do médio oriente, nomeadamente o klezmer e a música dos balcãs (ou a música mediterrânica em geral, como realçaram os músicos). Agora em formato trio (com menos um guitarrista, com tuba, guitarra, bateria e voz) e com um novo álbum (não conhecia), os Boom Pam causaram alguma decepção. Exceptuando alguns momentos particularmente interessantes, como a interpretação de “Hashish”, em que a banda abandonou o palco como se tivesse terminado o concerto, para depois regressar e prosseguir o tema no ponto onde o interrompeu, o concerto revelou-se muito mais monocórdico e noisy do que em disco e do que sucedeu há dois anos em Sines, notando-se agora muito menos a sua vertente tradicional. Esse facto, talvez encontre justificação no facto da tuba ouvir-se demasiado baixo ou de terem faltado no alinhamento alguns temas óptimos e mais versáteis de Puerto Rican Nights, como “Marilyn Jones” ou “Ay Karmela”. Ou isso, ou o cansaço de 4 dias de um festival bastante intenso, tirou alguma clarividência à minha percepção da realidade…
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Para finalizar a análise ao festival, resta-me fazer um breve balanço do mesmo. Em termos da concepção genérica e extra-musical do Med, pude confirmar alguns dos seus aspectos mais positivos, nomeadamente a peculiaridade do espaço (que, por outro lado, talvez seja responsável pela concentração de propostas musicais num número de horas por dia relativamente reduzido), a envolvência da cidade no mesmo e a diversidade artística, referindo como principal ponto negativo a questão das banquinhas de discos, já aflorada na análise ao dia 2. Em termos de programação de World Music, realço o ecletismo das escolhas, quer em termos de proveniências, quer em termos de estilos sonoros, e a qualidade genérica das propostas apresentadas, em que destaco Orchestra Babobab e Vieux Farka Touré num primeiro patamar, bem secundados por Goran Bregovic, Galandum Galundaina e Mercan Dede & The Secret Tribe. Talvez tenha estado, contudo, do ponto de vista pessoal, um pouco abaixo da edição do ano passado. Do Med de 2009 (em que estive apenas 3 dias), recordo sem pensar muito 4 óptimos espectáculos: Siba, Justin Adams & Juldeh Camara, Rokia Traoré e Kimmo Pohjonnen. Veremos, daqui a um ano, quais serão as minhas memórias musicais desta edição de 2010…
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(texto originalmente publicado no blog do programa “Artesanato Sonoro” da Rádio Universidade de Coimbra)
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