Festival Med 2010: dia 3 (25 de Junho) – entre Miranda do Douro e Dakar

Início do primeiro dia do fim-de-semana Med com a música tradicional portuguesa, a cargo dos Galandum Galundaina. Há mais de uma década a divulgar a música, as harmonias vocais e os instrumentos das Terras de Miranda (as gaitas, as flautas, os pandeiros, as sanfonas,…) o grupo é um dos maiores porta-estandartes da música da região e um dos maiores responsáveis pela sua crescente importância nos últimos anos. Depois de dois discos unanimemente aclamados, os Galandum regressaram recentemente com um magnífico novo trabalho, Senhor Galandum, em que alteram um pouco a fórmula, acrescentando novos elementos numa lógica de inovação (mas sem perder um pouco que seja de todo o seu carácter genuíno) e contando com convidados de luxo (Uxía, Sérgio Godinho ou Luís Peixoto). Em palco, há um som imponente à espera do público (que reagiu com entusiasmo e em bom número), o cuidado em explicar ao a origem de alguns temas e um sentido de espectáculo e até de humor deliciosos (delirante quando eles referem que não vai haver encore, porque o tempo que perderiam a sair e a voltar seria musicalmente desperdiçado). Um óptimo concerto, de uma das grandes bandas portuguesas do momento (e grandes divulgadores culturais), algo que só não é mediaticamente reconhecido porque este é um país onde abunda a pobreza de espírito, capaz de renegar o seu espólio cultural e os seus principais transmissores.
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Depois do fim do concerto dos Galandum, passagem breve pelo Palco da Matriz, para a parte final do espectáculo dos 3 Pianos, projecto que reúne 3 grandes pianistas portugueses, Pedro Burmester, Mário Laginha e Bernardo Sassetti. Viu-se muito pouco (“Bolero” de Ravel e um improviso final, apenas com um piano), mas talvez o suficiente para se perceber que, independentemente do valor do projecto, dificilmente o concerto poderia adequar-se a este palco do Med. O espaço é muito aberto, há uma grande dispersão de som e não existe o intimismo para que a música seja apreciada de forma devida.
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Passagem fugaz pelo palco da cerca, onde já havia começado o concerto de Anaquim, grupo cuja portugalidade assenta ainda mais nas letras (também daí algumas comparações que têm surgido com Sérgio Godinho) do que no lado musical propriamente dito, com um lado fortemente pop. Ouve-se ao longe os seus temas mais conhecidos, “A Vida dos Outros” e “Na Minha Rua”, uma versão curiosa de “A Morte Saiu à Rua” de Zeca Afonso ou a nostalgia infantil com a recriação do tema da série Tom Sawyer, mas o trânsito entre concertos, a entrevista com os Galandum Galundaina e a vontade inequívoca de ver a Orchestra Baobab, não permitiram uma opinião mais concreta.
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Foi surpreendentemente uma plateia apenas razoavelmente preenchida que recebeu a Orchestra Baobab (consta que, por esta hora, o espaço do Castelo estava cheio a ver Legendary Tiger Man). Dizia a equipa do “Artesanato Sonoro” há 2 anos atrás, quando o grupo senegalês esteve em Sines, que, ao contrário do que sucede com grande parte dos projectos ocidentais, as bandas africanas sabem envelhecer. Acrescento mais: sabem aproveitar bem as suas 2ª vidas musicais para enriquecerem o seu currículo e não apenas… a conta bancária. É o que sucede com a Orchestra Baobab, mítico projecto africano dos anos 70 e 80 que voltou verdadeiramente à ribalta no século XXI, com pelo menos dois discos magníficos: Specialists in all styles e o mais recente Made in Dakar. Ao vivo, os músicos não se limitam a aproveitar a magia irresistível dos sons afro-cubanos. Fazem versões ampliadas (de temas como “On Verra Ça”, “Nijaay” ou, em crioulo português, “Ami Kita Bay”) e muito dadas ao improviso, com prodigiosos solos de guitarra, o poder da percussão (em particular das congas) e os cirúrgicos elementos de saxofone, revelam um carisma incrível (mesmo que, por vezes, de forma excêntrica, como ia sucedendo com um dos saxofonistas) e comunicam com o público em boa medida, sem grandes truques tentadoramente simplistas. Destaque também para a forma como iniciam o encore, com os instrumentos a entrarem pouco a pouco: primeiro o saxofone, depois a percussão e só por fim as guitarras, criando um efeito de crescendo notável. Sem mais palavras, um dos grandes concertos do festival…
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Para o final de noite, os sons transe dos Step Line Project (com o impacto do didgeridoo) e, no palco da cerca, os Watcha Clan, responsáveis pela fusão de alguns elementos tradicionais (africanos, judaicos ou principalmente do Médio Oriente) com o evidente predomínio das gravações electrónicas. Levaram ao delírio algum público, mas, para mim, limitaram-se a assassinar a música étnica que lhes serviu de base.
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(texto originalmente publicado no blog do programa “Artesanato Sonoro” da Rádio Universidade de Coimbra)
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