Festival Med 2010: dia 2 (24 de Junho) – a loucura sérvia

Foi com um recinto relativamente cheio (mas longe do que julgo ser esperado no fim-de-semana) que decorreu o 2º dia do festival.
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Em termos de propostas musicais, a noite iniciou-se com um dos primeiros projectos nacionais dedicados ao Afrobeat, os Cacique’97. Com um alinhamento repartido entre originais, incluindo o óptimo “Come From Nigeria” ou o panfletário “Eu quero tudo para toda a gente”, uma versão agradavelmente transfigurada de “Jorge da Capadócia” de Jorge Ben e outra bastante fiel (o que, no caso, só pode ser motivo de elogio) de “Lady” do incontornável Fela Kuti, a banda mostra ser possível, com humildade e profundo respeito pela obra dos grandes mestres, fazer boa música do género em Portugal. Mesmo sendo provenientes de um habitat bem afastado das origens nigerianas do Afrobeat e mesmo faltando-lhe alguma experiência e carisma para que possam justificar uma opinião ainda mais positiva. Pena foi que tivessem tocado tão cedo, numa altura em que muita gente entrava ainda no recinto e outra se deslocava até à Matriz, para o concerto mais aguardado da noite…
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Pouco falta para as 23h quando se iniciou o concerto de Goran Bregovic and His Wedding & Funeral Band. O músico sérvio começou por se celebrizar nos anos 90 pelas composições para os filmes de Kusturica, antes de assumir individualmente o protagonismo, tendo-lhe valido o seu último disco, Alcohol de 2009, o prémio para o melhor artista do ano, segundo a revista britânica de World Music, Songlines (prémio este que foi entregue ao músico na parte final do concerto). No concerto do Med, houve lugar a um início com alguns músicos a tocarem na plateia, à presença em palco de (muitos) sopros, acordeão, percussão e duas cantoras búlgaras, a uma interpretação vocal de “Ausência” de Cesária Évora (do filme Underground) por um homem (?!), a um tema supostamente cantado por uma mulher, quando parece que quem o fez foi o próprio Bregovic (?!), à loucura com a readaptação de um tema tradicional, celebrizado pela Fanfare Ciocarlia enquanto “Sandala” (que consta de Alcohol), seguido de um tema mais próximo do imagiário de Leonard Cohen (?!) do que da fanfarra balcânica (bem, não exageremos), a um espectáculo previsivelmente imprevisível… Confuso? É como a caótica realidade sérvia apresentada por Kusturica nos seus filmes.
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Abandonando o concerto de Bregovic na sua fase derradeira, ainda se foi a tempo de assistir a um pouquinho da performance dos portugueses Anderson Molière no Palco do Castelo. Com um verdadeiro cocktail que passa pelo classicismo, pelo klezmer, pelo cabaret ou pela música pop, os músicos revelam ao vivo uma postura tremendamente teatral (daí parte do nome da banda) e jocosamente surrealista. Curioso, mas a exigir um conhecimento mais alargado, para que se perceba se é apenas um divertimento relativamente inconsequente (como alguns projectos do género) ou se é efectivamente um consistente e interessante projecto subversivo da lógica tradicional.
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Para o fim da noite no Palco Cerca, King Khan & The Shrines, projecto bastante mais próximo do garage rock e do rock’n’roll do que de grande parte das propostas étnicas do festival e que cairia provavelmente bem num DJ set das The Ruquettes. Uma aposta estranha, um tipo de som que não costumo acompanhar, mas que levou à euforia uma franja de público que não se importou nada com este desvio programático.
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À saída, depois de um kebab regenerador (que o jantar do chefe Chakall pode ter sido uma iguaria exótica, mas foi de conteúdo escasso), passagem pelas banquinhas dos discos, onde no ano passado se podia encontrar a Mega Músic, com um espólio relativamente grande e diversificado de CD’s de World e com preços bastante convidativos (ainda para mais atendendo a este mercado, tendencialmente mais caro). Qual não é o espanto quando nos apercebemos que, ao invés de o fazer à Mega Music, a organização decidiu concessionar o espaço à generalista Fnac (?!), com um número muito reduzido de propostas e a preços normais. Espero que o público lhe faça a devida justiça e ignore convenientemente este espaço, de forma a que este erro não se repita.
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(texto originalmente publicado no blog do programa “Artesanato Sonoro” da Rádio Universidade de Coimbra)

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