Fausto, CCB, 19 de Junho: reportagem

Quero começar este meu texto por assumir os meus pecados: até há bem pouco tempo (dois, três anos) não era particularmente apreciador da música de Fausto Bordalo Dias. Heresia não desculpável, claro está. Pois bem, ao contrário do que sucedeu com Zeca Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, em que fiquei convertido de imediato aos seus méritos, tive bastante mais dificuldade em apreciar devidamente a música deste grande vulto da música nacional. Ouvindo apenas alguns temas soltos (algo que facilmente subverte a opinião que se tem da carreira de um músico), sentia que estava muito aquém da profundidade e intensidade da obra dos grandes senhores anteriormente referidos. O momento da viragem deu-se com a audição integral (imperdoavelmente tardia) de Por este rio acima, disco baseado na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. É certo que nele a conjugação da música popular portuguesa, da urgência lírica de Fausto, dos fabulosos coros ou da toada mais lenta e introspectiva é brilhante. Mas o que mais impressiona no disco e que mais contribui para o seu estatuto de obra-prima é a consistência deste álbum conceptual, a incrível produção e o arrojo sonoro, que o tornam, no contexto da música portuguesa da época, numa pérola verdadeiramente vanguardista, completamente à frente do seu tempo. Depois disto, fui ouvir melhor a obra do músico e, embora o tenha feito com uma aceitação muito mais positiva, não tenho dúvidas em considerar que Por este rio acima está muitos furos acima da globalidade do trabalho de Fausto, incluindo o recomendável Crónicas da Terra Ardente, segundo volume da trilogia dedicada à diáspora lusitana. Foi esta trilogia, cujo terceiro volume sairá este ano, que Fausto Bordalo Dias veio apresentar ao CCB, no ciclo “Carta Branca”, que já contou com nomes como Jorge Palma ou Camané. Um concerto dividido em três partes, correspondentes a cada um dos episódios deste tríptico épico.

I – (Futuro Album)

Foi em jeito de analepse que decorreu o espectáculo, começando pelo epílogo desta epopeia, ainda sem título designado. “E fomos pela água do rio” foi o primeiro tema interpretado e foi um magnífico começo, com os teclados em inequívoco destaque e com uma soberba toada melancólica e algo erudita, a fazer lembrar, a espaços, algumas das brilhantes composições de Rodrigo Leão. Depois de dois temas menos interessantes, o primeiro com uns toques jazzísticos dispensáveis (compensados pelos sempre incríveis e acelerados jogos de palavras e truques líricos de Fausto, capazes de imprimir uma dinâmica incrível às músicas) e o segundo com uma vertente popular mais easy-listening, veio um tema mais forte do ponto de vista da percussão, intitulado “Nos Palmares das Baías”. Depois de duas bonitas baladas, a sequência inicial do novo registo discográfico, cuja ordem foi integralmente respeitada, terminaria com o novamente mais ritmado “À sombra das ciladas”. Depois desta sequência, foi ainda interpretado um outro tema do novo disco, mas antes teve lugar um dos raros momentos de comunicação com o público. Nela, o músico falou do novo disco, da sua abordagem aos episódios terrestres dos descobrimentos (em contraste com a vertente marítima dois tomos anteriores), avisou, de forma veemente, para o público não vislumbrar na construção rítmica quaisquer elementos africanos, mas apenas aspectos tradicionais portugueses (é certo que é verdade, mas foi descabido o tom – haveria algum mal se isso acontecesse?) e saudou a direcção musical do grandioso José Mário Branco. Foi com ele em palco, de adufe em punho, que se fechou esta primeira parte com “Por altas e serras de montanhas”. Não tendo deslumbrado, fica uma impressão positiva desta primeira apresentação do novo disco. Haverá, contudo, ainda muito por explorar, não só nos temas que ficaram por tocar, mas também por estes que passaram pelo CCB. É que um dos problemas do concerto foi a estrutura demasiado convencional da banda de apoio de Fausto, faltando diversos instrumentos como sopros de qualquer tipo ou de cordas (violinos, guitarra portuguesa, bandolim, etc), sendo os seus sons assegurados pelos teclados, com um resultado demasiado artificial.

II – Crónicas da Terra Ardente

Sem pausas, iniciou-se a segunda parte do espectáculo, dedicada a Crónicas da Terra Ardente (disco intermédio da trilogia, lançado em 1996), com o muito aplaudido “Ao som do mar e do vento”. Depois de mais dois temas deste disco, um dos quais com aproximação a terrenos mais rock, pela influência da guitarra eléctrica, veio talvez o período alto do concerto. Começando com uma simultaneamente crua e poderosa interpretação de “Na ponta do cabo”, apenas com voz e percussão (tal como em disco) e plena de alma e de garra, e terminando com o mais tradicional “Os Náufragos”, com o acordeão e os jogos vocais a criarem uma ambiência festiva, a metade final desta segunda parte foi talvez o melhor período do espectáculo. Pelo meio, houve ainda o incrível “O Mar”, apenas com voz e guitarra acústica, e a cadência notável de “A Chusma salva-se assim”, que, pela sua maior simplicidade estética e menor exigência instrumental em palco (pelo menos do ponto de vista tradicional), funcionaram particularmente bem.

III – Por Este Rio Acima

Depois de um interessante interlúdio, apenas com percussão, foi com o tom lento do tema título da obra aclamada que se iniciou a terceira e última parte do espectáculo. Num disco tão incrível e que vale essencialmente pela sua globalidade, é difícil e até inconveniente destacar um ou outro momento. Todavia, não resisto a valorizar acima de qualquer outro “Como um sonho acordado”, pela conjugação complexa de instrumentos, pelo impacto das palavras, pelas suas variações sonoras e rítmicas, por aquele arrebatador crescendo final, por tudo o que lhe garante, para mim, um lugar numa virtual lista dos melhores temas portugueses de sempre. Foi o segundo tema desta parte e, contudo, uma das grandes desilusões da noite: o final não teve a força e a alma do disco e foi das músicas em que mais se sentiu o défice instrumental da banda. Para compensar, veio de seguida uma interessante versão de “Olha o Fado” (apesar da ausência da guitarra portuguesa), nomeadamente na parte final em coro, e a emotiva e sublime interpretação do lindíssimo “Lembra-me um sonho lindo”. Para o fim, o aplauso efusivo e a previsível celebração com “A Guerra é a Guerra”, “O Barco Vai de Saída” e, num encore e de forma surpreendente (no alinhamento figurava “Porque não me vês” como 7º tema de Por Este Rio Acima), “Navegar Navegar”, talvez o tema mais conhecido de toda a carreira de Fausto.

E assim terminou o concerto de uma das grandes lendas vivas da música portuguesa, um dos resistentes da música de intervenção (e que falta ela faz num mundo onde abunda a tecnocracia e a carência de fortes valores ideológicos), embora, como se repara nesta trilogia, com um âmbito lírico alargado para outras áreas. Não terá sido um concerto brilhante, nem provavelmente muito bom – tal como na música de Sérgio Godinho, os arranjos demasiado uniformizados, estilizados e acomodados, faltando arrojo e um pouco de chama, prejudicam um pouco a transposição para palco do seu fantástico universo musical. No entanto, foi suficientemente genuíno para que tivesse valido a pena, para que continue a ser um motivo de grande satisfação e um momento indubitavelmente especial assistir a um concerto de Fausto Bordalo Dias.

(texto escrito originalmente para o site musical “O Ponto Alternativo”)

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