Deolinda, CCB, 8 de Junho: reportagem

Corria o ano de 2007 quando os Deolinda deram nas vistas na compilação Novos Talentos FNAC. Apostando na desconstrução do fado, quer no conteúdo musical (na ausência de guitarra portuguesa ou no lado satírico das letras), quer na forma (vivacidade e cor como condimentos essenciais),  o grupo lançou no ano seguinte o seu disco de estreia, Canção ao Lado. Com autênticos hinos do imaginário colectivo, como “Fado Toninho” ou “Movimento Perpétuo Associativo”, rapidamente o álbum conquistou simultaneamente o aplauso da crítica e a veneração do público. Depois de muitos concertos, passagem por importantes festivais e edição internacional de Canção ao Lado, o projecto regressou em 2010 com um novo trabalho, intitulado Dois Selos e um Carimbo. 

Perante o retumbante êxito do registo de estreia, era elevada (tal como sucede habitualmente nestes casos) a expectativa e a responsabilidade da banda para este disco. Ao ouvi-lo pelas primeiras vezes, facilmente nos apercebemos tratar-se de uma obra mais melancólica e intimista (destaque para o lindíssimo “Passou por Mim e Sorriu”), apostando numa vertente mais poética, e só a espaços (como no single “Um Contra o Outro”) com o ritmo irresistível da maioria dos temas do álbum de estreia. Para além disso, fica a ideia inicial de que grande parte da ironia lírica, do sentido satírico, se desvaneceu neste disco, ideia essa que, após uma atenção mais pormenorizada, se percebe ser apenas aparente. O apelo à irreverência do single, a referência ao mediatismo saloio de “Ignaras Vedetas” (uma versão simplificada do óptimo “O Rei do Zum Zum” de Sérgio Godinho) ou a denúncia da mania bacoca das grandezas e da mesquinhez de empurrar as culpas próprias para o vizinho, no fabuloso “A Problemática Colocação do Mastro”, mostram que os Deolinda mantiveram a essência da sua identidade criativa. Pode haver alguns passos em falso, como o inconsequente “Sem noção”, “Patinho de Borracha” (aquele refrão remete perigosamente para recriações easy-listening duvidosas do universo popular, como acontece com grupos como as Xaile) ou a aproximação bem perigosa à fase decadente dos Madredeus em “Uma Ilha”, e a evolução do som da banda pode não ser um gigante passo em frente, mas a generalidade dos temas, nomeadamente os seus pontos mais altos, tornam este sempre difícil segundo disco dos Deolinda num óptimo trabalho.

  Foi na tournée de apresentação deste Dois Selos e um Carimbo que se inseriu este concerto (aliás o disco foi tocado na íntegra e, pela forma calorosa como foi recebido, os seus temas já sao francamente conhecidos), decorrido num CCB cheio de público. Foi com “Se uma onda invertesse a marcha”, tema de abertura do disco, que se iniciou, de forma relativamente morna, o espectáculo. Poderia ser o indício de um concerto algo insípido e pouco dinâmico (até pela natureza mais calma da maioria do repertório do último disco), mas rapidamente se desmentiu essa percepção inicial. Não só pela cadência rítmica da interpretação do tema seguinte, “Não Tenho Mais Razões”, mas porque cedo se percebeu que apesar do profundo profissionalismo dos músicos, os Deolinda não perderam toda a genuinidade dos primórdios. Depois da primeira passagem por Canção ao Lado, com “Contado Ninguém Acredita”, surgiram dois dos temas maiores do último disco: o muito celebrado single “Um Contra o Outro” e “Passou por Mim e Sorriu”, que começou intermitente, com uma despropositada intervenção do público, num tema que se deseja sentido em silêncio, mas que depois teve toda a magia da versão original, nomeadamente no brilhantismo da urgência vocal no refrão.

Mais tarde, surgiu uma das surpresas do espectáculo, quando entrou em palco um quarteto de cordas para dar corpo à interpretação de “Ignaras Vedetas”, com um sentido classicista muito bonito, e para uma participação pouco significativa num  “face lift” (assim designado pelos Deolinda) de “Mal por Mal”.  Entretanto, o desenrolar do concerto foi comprovando, de forma clara, o enorme talento de Ana Bacalhau. Não só na forma brilhante como aborda registos vocais muito distintos (entre a melancolia e a garra, entre a beleza e a intensidade), mas também pela sua extraordinária presença, revelando uma boa disposição e uma expressividade invejáveis e um sentido de comunicação e de empatia com o público impressionantes. Neste âmbito, destaca-se o momento em que a intérprete sobe para o estrado onde se encontram os seus companheiros “deolindos” para, segundo ela, cantar “Canção da tal Guitarra”,”Fado Notário” (o amor e a burocracia, lado a lado???) e “O Fado Não é Mau” entre os dois guitarristas, lado a lado ou ligeiramente atrás, como manda a tradição do fado. Estas palavras justificam uma gargalhada da plateia, pois, como sabemos, se é coisa que os Deolinda não fazem (e ainda bem) é respeitar religiosamente os cânones instituídos do género. Já na fase final, merecem destaque o epílogo de “Entre Alvalade e as Portas de Benfica”, com a confluência entre o trinado da guitarra dos irmãos Martins e a suavidade vocal de Ana (sentada numa cadeira), e os arrebatadores e viciantes “Fon Fon Fon”, “Quando Janto em restaurantes” (óptimos, o crescendo final e o diálogo entre Ana Bacalhau e Pedro da Silva Martins) e, claro, “A Problemática Colocação de Mastro” (com mais uma deliciosa introdução, como aconteceu com variadíssimos temas).

Já depois de um logo rol de agradecimentos e da despedida de palco, veio o 1º encore,  com “Uma Ilha” (felizmente, menos colado aos Madredeus) e o hino popular “Movimento Perpétuo Associativo”. Teria sido um final apropriado, tal como se tivessem terminado com “Clandestino” (já no 2º encore), em jeito de anti-climax surpreendente e perfeito. No entanto, houve ainda lugar a uma despropositada repetição de “Um Contra o Outro”, a que se seguiu, num 3º encore e ainda com menos sentido, “Mal por Mal”, também pela 2ª vez e novamente com o mesmo quarteto de cordas (compreendia-se a repetição de “Fon Fon Fon” na digressão anterior pois o repertório era curto, mas agora, já com dois discos editados, este tipo de trunfos é perfeitamente escusado). Contudo, isso não foi suficiente para diminuir consideravelmente a impressão altamente positiva que os Deolinda voltaram a deixar nesta sua actuação ao vivo, restando agora saber como irão adaptar o alinhamento quanto tocarem em espaços maiores. Este foi aliás um dia em cheio para os Deolinda, pois para além da óptima recepção que tiveram neste espectáculo do CCB, receberam ao final da tarde o prémio de revelação World Music, atribuído pela revista britânica Songlines. Se juntarmos a isto o nº1 de vendas de Dois Selos e um Carimbo, verificamos que o projecto cimentou ainda mais o estatuto comercial criado anteriormente, algo que, num mercado musical marcado pela aposta na mediocridade, quer em termos editoriais, quer em termos radiofónicos (os próprios Deolinda continuam a não rodar na maior parte das rádios generalistas), nos deve satisfazer. Com uma identidade muito própria e já extremamente vincada, com um sentido de espectáculo notável e liderados por uma performer de excelência, os Deolinda são das poucas bandas que, na actualidade, merecem francamente o sucesso que alcançaram. Celebremos, pois…

(texto originalmente escrito para o blog do programa “Artesanato Sonoro” da Rádio Universidade de Coimbra)

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