Grizzly Bear, Coliseu de Lisboa, 26 de Maio de 2010: reportagem

Em 2004, um senhor de Brooklyn chamado Edward Droste iniciava-se nas lides discográficas com Horn of Plenty. Muito mais do que um disco de corpo inteiro, nele se encontrava um conjunto de experiências sonoras, de temas aparentemente pouco trabalhados e inacabados e valia essencialmente enquanto esboço da banda que se viria a formar, os Grizzly Bear, pois claro. Já enquanto quarteto (com Christopher Bear, Chris Taylor e, claro, Daniel Rossen), lançam em 2006 uma das grandes obras-primas musicais do ano. Yellow House impressionou não só pela consistência e pela forma incrível e apurada como fundia texturas folk, guitarras em distorção e componentes experimentais e ruído em doses certas, mas também pelo modo como conseguiram criar uma marca sonora tão vincada e tão própria. Já depois da edição de um recomendável EP de extras (Friend de 2007), a banda norte-americana volta os discos em 2009, com “Veckatimest”. Menos experimental e folk que o seu antecessor, o som deste disco é talvez mais aberto e acessível, ora mais pop, ora mais melancólico, ora com mais peso nas guitarras, sem perder, contudo, um pouco que seja da identidade da banda, tão fortemente assumida em “Yellow House”. Assim sendo, mesmo que porventura não possua a genialidade dos seu antecessor, é novamente um excelente disco, pelo que não espantou a incondicional aclamação da crítica e a presença abundante nas listas de melhores do ano. Foi este último trabalho que a banda americana veio apresentar ao Coliseu de Lisboa, num concerto praticamente esgotado há mais de dois meses (começa a ser um lugar comum, mas fica mais uma vez a pergunta retórica: como é que bandas destas, que aliam qualidade e impacto mediático, não passam nas rádios generalistas? Será porque a mediocridade é muito mais uma opção do que uma estratégia de marketing?).

Pouco passava das 21h quando, com um coliseu ainda muito despido, subiu a palco a brasileira Cibelle. Durante os 30 minutos que durou a primeira parte houve diversidade quanto baste, desde sensualidade blues “à la Nancy Sinatra” até um tema mais melancólico e quase etéreo, passando por devaneios vocais, supostas baladas sentimentais e temas de amor (assim apresentados), elementos electrónicos ou sons diversos (passarinhos, mar, sinos, etc). A saída de palco foi tal e qual a entrada, com Cibelle a desfilar com um leque por um palco com uma decoração bem pomposa, recheada de brilhantes, rematando assim um espectáculo bem mais performativo, do que musical. Em suma, foi estranho e curioso, mas só isso…

Depois de um intervalo de cerca de 25 minutos , começava finalmente o grande momento da noite, a estreia em Portugal dos Grizzly Bear. O concerto começou com uma óptima interpretação de “Southern Point” (tema que também abre Veckatimest), nomeadamente no seu final, com o impressionante fulgor das guitarras a fazer lembrar tenúamente e de forma compactada alguns dos grandes crescendos… post-rock (o mesmo sucedeu em outros temas, como em “Fine For Now”). Seguiu-se, em toadas mais leves e mais pop, o single do disco, “Cheerleader”, desta feita interpretado por Droste. A voz do mentor da banda é em disco alvo de uma enorme produção e ao vivo isso sente-se de forma significativa, num registo recheado de reverb que, a espaços, em particular nos temas mais calmos, se torna excessivo, fazendo com que temas lindíssimos como “Ready Able” ou “Foreground” percam um pouco da sua beleza e da sua magia. Mas nada de realmente significativo, até porque o jogo vocal confirmou ser uma das grandes virtudes da banda, não só na alternância entre o timbre mais rouco de Rossen e o mais etéreo de Droste, mas também nos deliciosos coros, sem dúvida uma das imagens de marca da banda.

Num alinhamento que incidiu essencialmente no último trabalho de estúdio dos Grizzly Bear, houve contudo lugar para quatro passagens por Yellow House, a mostrar o lado mais explorador de sons da banda nova-iorquina, nomeadamente nos brilhantes “Colorado” (escusadas as palmas do público antes daquele final absolutamente arrebatador) e “Lullabye”. Do mesmo disco, houve também lugar para “Knife”, previsivelmente um dos temas mais celebrados da noite (tal como o irresistível “Two Weeks”), e para uma versão algo reduzida de “On a Neck on a Spit”,  sentindo-se um pouco a falta daquele arranque mais folky.

Apesar de não serem muito comunicativos em palco, limitando-se essencialmente a agradecer o carinho do público português, foi das palavras de Droste que veio uma das surpresas da noite (pelo menos para mim): o anúncio pouco perceptível de que os Grizzly Bear estariam de volta em Julho para o Super Bock Super Rock (até o próprio Rossen pareceu surpreendido, exclamando “Really?!”), ou seja, uma óptima oportunidade para todos aqueles que não os puderam ver desta vez. Pouco depois, terminava a parte principal do concerto, com um retorno fugaz aos tempos primordiais de Horn of Plenty, num “Fix it” iniciado com Droste na flauta e terminado com um brutal e complexo experimentalismo, nos limites do caos e com muito poucas semelhanças com o original, mostrando que, para além de uma pequena essência, pouco ou nada resta desses tempos iniciais (o mesmo já se tinha depreendido das recriações completamente diferentes, muito mais complexas e preenchidas, de “Shits” e de “Alligator”, presentes no EP Friend). Para o encore, estava reservada uma óptima surpresa: uma interpretação acústica e minimal de “All We Ask”, com a interacção vocal de Rossen e Droste a resultar em pleno e numa lógica de plena comunhão com o público. No fundo, um final fantástico para um concerto que, mesmo não tendo sido propriamente perfeito e tendo tido um ou outro pormenor menos positivo, veio de encontro às elevadas expectativas nele depositadas. Os Grizzly Bear são efectivamente uma das grandes bandas da actualidade e ao vivo confirmam francamente esse estatuto.

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