Notas objectivas do futebol nacional 2009 / 2010

      1. Tal como já se sabia desde Setembro de 2009 (os próprios benfiquistas já andam desde aí a comemorar), o Benfica foi campeão nacional (ou vencedor da Liga Sagres, a tal marca que fortemente os patrocina). Aliás, estava tudo de tal forma previamente definido que, enquanto o Porto recebeu o troféu de campeão da época passada há umas semanas atrás, o Benfica recebeu-o… ontem, logo após o jogo decisivo. É verdade que o Benfica tinha o melhor treinador (aqui sim, tiveram mérito na escolha), a melhor equipa e a que praticou melhor futebol. Mas, pudera, com dinheiro ilimitado, gastando o que tinha e que não tinha, com a protecção da Banca e do Estado, era a sua obrigação. Como tal, era do mais absoluto “interesse nacional” que o Benfica fosse realmente campeão, de forma a que este investimento não fosse em vão e não tivéssemos, com os nossos impostos, de salvar o “clube de todos nós”. Assim sendo, na hora da vitória, há que congratular não só o staff do “nosso Benfica”, mas todos os outros que, com o seu cunho, contribuíram para este desígnio nacional. Desde árbitros (12 penaltys a favor e 15 expulsões de jogadores adversários é obra), até à comissão disciplinar da Liga (com os famosos casos dos túneis), passando por jogadores como Zoro, Delson ou Wires. Foi uma verdadeira missão patriótica e, como tal, para bem da Economia portuguesa, devemos estar todos satisfeitos e, essencialmente, aliviados.

     2. Merece total nota de elogio o Braga. Embora realizando alguns jogos sofríveis (a estrelinha de campeão acompanhou-o por diversas vezes), o clube minhoto teria sido naturalmente o vencedor deste ano… se não fosse o “interesse nacional” referido anteriormente. Por isso, é que não se percebe as palavras do seu treinador, ainda para mais sendo português (francamente, que traição à pátria). Como pôde Domingos Paciência, ao longo da última época, contestar as desigualdades no campeonato, os casos dos túneis, as decisões de arbitragem,… É lógico que elas existiram, mas não só já se sabia que ia haver um tratamento especial e regras específicas para os jogos do clube do Estado (eis um exemplo: “sempre que um jogador adversário caia na área do Benfica, seja ou não seja tocado, exista ou não simulação, nunca é penalty e deve receber amarelo” – foi ao abrigo desta regra que Fucile foi bem expulso no Porto – Benfica), como me parecia absolutamente justo que assim fosse.

     3. Embora tenha a atenuante de ter participado num campeonato com vencedor pré-determinado e de ter feito quase tantos pontos como no ano passado, não se pode considerar a época do FC Porto positiva. Para um clube com a sua ambição de vitória, ficar em 2º dos lugares possíveis (atrás do Braga), só pode ser uma desilusão. Mesmo atingindo os oitavos de final da principal prova europeia, mesmo que venha a ganhar a Taça de Portugal (uma coisa é certa: não irá provocar uma festa eufórica dos seus adeptos, como aconteceu com o vencedor da Taça de 2004), saberá sempre a pouco. É que fica a sensação que, se o Porto ganhou os últimos títulos sem um treinador à altura do seu prestígio, caso tivesse um treinador a sério podia ter ido muito mais longe. Quando se tem um treinador que usou, durante muito tempo, uma táctica mais defensiva que muitas equipas que lutam para não descer, que aposta insistentemente em verdadeiras nulidades como Guarin, Valeri ou Mariano, percebe-se, sem margem para dúvidas, que Jesualdo nunca poderia ter sido treinador do Porto. Em todo o caso, coincidência das coincidências, depois de ter sido revogado o castigo a Hulk (numa altura em que o Porto já estava demasiado longe do clube do Estado, enquanto o mesmo não aconteceu a Vandinho, visto o Braga ter a ousadia de permanecer perto do 1º lugar), o Porto teve 8 vitórias, em 8 jogos. Que raio de coincidência…

    4. O Sporting teve, como já anunciado há algum tempo, uma época para esquecer.  Os erros de gestão desportiva, o reduzido orçamento e a discutível política de contratações estiveram na origem de um falhanço redondo. Não sou fã de Paulo Bento, mas o tempo mostrou que os problemas do clube ultrapassavam e muito o treinador. Até porque para trocar Paulo Bento por apostas fortemente questionáveis como Carlos Carvalhal ou Paulo Sérgio, se calhar mais vais valia ter ficado tudo na mesma. Azar de uns, felicidade de outros, no caso do Vitória de Guimarães, que se livra de um treinador fraquinho, pouco ambicioso, que pouco ou nada discutiu os jogos com os grandes (nem contra este Sporting) e que, na altura decisiva, falhou incrivelmente o apuramento para as provas europeias e ainda recebe dinheiro por isso. Que negociata, só vos digo.

    5. Na parte de baixo da tabela, uma palavra natural para o clube de que sou sócio há quase 20 anos: a Académica. Apesar do acumulado de asneiras desta direcção (só a escolha de alguns treinadores tem sido acertada), das épocas francamente mal planeadas e das equipas fraquíssimas que tem tido ano após ano, lá se vai safando de forma relativamente folgada. Merecem notas de elogio André Vilas Boas, pelo relativo bom futebol praticado (à escala nacional, entenda-se), e para Domingos Paciência, pela brilhante classificação do ano passado. Nota ainda para o Belenenses. Eu até tinha alguma simpatia pelo clube, mas depois de dois anos a escapar-se na secretaria, é mais que justa a sua descida à 2ª liga.

  6. Parabéns ao Beira Mar e ao Portimonense pela subida à 1ª liga.

       P.S. Há um pormenor curioso na euforia dos adeptos benfiquistas e dos seus dirigentes ao longo desta época. É que parece que, não só os sucessos foram de tal ordem (Campeonato e Quartos-de-Final da Liga Europa, também conseguido por… Fernando Santos) que fazem esquecer os profundos fracassos das 4 épocas anteriores, como até dá ideia, quando se ouve Luís Filipe Vieira, que os últimos anos não foram um desastre, mas um trabalho pensado e progressivo a preparar este êxito “apoteótico”. De facto, ser benfiquista é algo especial. Pelo menos, na forma de pensar é de certeza…

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6 respostas a Notas objectivas do futebol nacional 2009 / 2010

  1. paulo pereira diz:

    Compreendendo a tristeza de um portista, devo lembrar que este ano quem controlou melhor os aspectos fora do campo de futebol foi o benfica (concordo contigo), contráriamente aos outros anos que foi o porto. Quem se pode queixar são os pequeninos: braga,….académica. Os grandes são sempre os beneficiados mesmo que vão rodando por épocas

  2. Diogo diz:

    Depois de ler isto chego à conclusão que percebes ZERO de futebol!!!!

  3. João Torgal diz:

    Porque será que o último comentário é seguramente de um benfiquista?

  4. paulo pereira diz:

    João, obrigado pela tradução!

  5. Diogo diz:

    E ainda por cima tiras conclusões precipitadissimas! Mas continuo na minha, percebes pouco ou nada de bola, chefe…

  6. Pingback: cinco dias » O “interesse nacional” no futebol

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