Portugal: uma causa perdida

Terminou hoje o congresso do PSD (mais um), desta feita de consagração da liderança de Pedro Passos Coelho (eleito com mais de 60% dos votantes nas directas de 26 de Março). Deixando para segundo plano a aparente contradição  de ter um partido social-democrata que envereda por uma matriz ideologicamente tão liberal, gostava de me concentrar em alguns pormenores do novo líder do maior partido da oposição. Destaco três questões:

          – tem um percurso de vida essencialmente político, estando o lado profissional francamente em segundo plano. Cresceu na JSD, onde foi líder durante 5 anos, período no qual foi deputado da Assembleia da República. Só depois deste período completou a sua formação académica, com uma licenciatura em economia numa Universidade Privada (Universidade Lusíada) e desempenhou, sem méritos fortemente reconhecidos, funções de gestor e de docente no Instituto Superior de Ciências Educativas (???), tendo estado algum tempo (muito pouco) afastado da política activa;

          – revela um sentido de táctica política invejável, que fez com que colocasse alguns dos seus maiores críticos e adversários internos em posições estratégicas. Posições suficientemente importantes para lhes incutir um certo alinhamento a esta liderança, mas sem que possam colocar em causa o poder da cúpula de Passos Coelho dentro do partido;

          – mais do que uma linhagem liberal, o seu discurso assenta numa logica populista de progresso e modernidade, que redunda facilmente em vazio ideológico;

  Analisando estes três factores, em particular este último, torna-se claro que a figura política mais próxima de Pedro Passos Coelho é, nada mais nada menos, do que… JOSÉ SOCRATES. O percurso de vida de Passos Coelho pode ser mais transparente e menos suspeito que o de Sócrates (o futuro o dirá), mas, de resto, estava à pouco a ouvir o discurso de encerramento do congresso do PSD e, à parte pormenores de conjuntura político-partidária, estava a identificá-lo descaradamente com o estilo, a forma e até com o conteúdo da oratória de Sócrates, quando fala para o “Partido Socialista” ou para o país.

A Sócrates e Passos Coelho, junta-se ainda, no panorama das mais altas esferas políticas do país, o Presidente da República Cavaco Silva, porventura ideologicamente mais íntegro e sério, mas sem qualquer perfil para o cargo, fruto de uma falta de tacto diplomático gritante, de uma perspectiva cultural bastante duvidosa e de uma inabilidade social perturbadora. Assim sendo, com este tridente fantástico e sem grandes esperanças de uma radical modificação do cenário político nacional, começa a não haver grandes dúvidas: Portugal está mesmo à beira do abismo e começa a afigurar-se como uma verdadeira causa perdida.

P.S. Não quero ser mal interpretado: este não é um apelo ao conformismo (longe disso, será muito mais facilmente um apelo à revolta e à mudança), mas um retrato triste e objectivo da realidade lusa actual;

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Uma resposta a Portugal: uma causa perdida

  1. daniel tecelao diz:

    Só ideologicamente se pode apelidar Cavaco de integro e sério,a sua ligação ao BPN ainda não foi contada!!!

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