A burocracia escolar

Muito bom retrato da profunda realidade burocrática que invade a escola nos dias de hoje e que, em muitas situações, serve apenas para legitimar o sucesso na secretaria e impedir a todo o custo as retenções.

A TRALHA QUE ATRAPALHA

Por que será que a opinião pública tem sido pouco alertada para a tralha que atrapalha? Por que será que o processo negocial, que se arrasta há quase dois meses, não inclui a questão da tralha que atrapalha?

Não há um único professor no país que não saiba qual é a tralha que atrapalha.

Até os inspectores – guardiões da tralha que atrapalha – sabem qual é a tralha que atrapalha.

Até os burocratas que trocaram a sala de aula pelas equipas de “apoio” às escolas sabem qual é a tralha que atrapalha.

E até mesmos os aposentados que integram o CCAP sabem qual é a tralha que atrapalha. Não porque conheçam a realidade das escolas – já que fugiram delas em bom tempo – mas porque ouviram falar da tralha que atrapalha.

Mas, admitindo que haja algumas almas bem intencionadas, embora ignorantes, nas equipas de avaliação externa das escolas, no CCAP, nas equipas de “apoio” às escolas, na DGRHE ou nas DRE, deixo aqui a lista da tralha que atrapalha:

Os projectos curriculares de escola. Não servem para nada: só atrapalham sobretudo porque há quem os altere todos os anos. Já contaram as milhares de horas perdidas pelas equipas e comissões permanentes de revisão dos projectos curriculares de escola e dos projectos educativos de escola?

Os projectos curriculares de turma. Servem para alguma coisa? Sim: para perder tempo.

Os planos de recuperação. Servem para quê? Socializar os prejuízos e privatizar os benefícios. Desculpabilizar e construir sucesso educativo de forma fraudulenta.

Os planos de acompanhamento. Idem.

Os planos de “melhoramento“. Idem.

Os relatórios sobre os planos de recuperação e de “melhoramento” (sic). Idem. Monumentos à novilíngua e à trafulhice pedagógica.

Acabem com a tralha que atrapalha. A opinião pública compreenderá que a talha que atrapalha é nociva ao ensino.

Gostava de ouvir os responsáveis do ME a falar na redução ou eliminação da tralha que atrapalha. Não ouço. A tralha que atrapalha obedece ao plano.

                  Ramiro Marques, 6 de Janeiro de 2010

P.S. Faltou no texto de Ramiro Marques a referência às provas de recuperação. Felizmente, na senda do anulamento contínuo das trapalhadas de Maria de Lurdes Rodrigues, a actual equipa ministerial está a introduzir alterações no Estatuto do Aluno, que devem acabar com estas aberrações. Quanto a mim, porque já percebi que um aluno pode atingir o limite de faltas e chumbar ou faltar vezes sem conta às provas de recuperação, permanecendo verdadeiramente impune (só para se perceber, na minha escola, com problemas fortes de assiduidade, nunca ninguém chumbou por faltas ao abrigo deste estatuto do aluno), recuso-me a continuar a dedicar o meu tempo com esta função inútil. É uma questão de princípio não continuar a trabalhar em vão.

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