Pedido de desculpas…

…a Manuela Ferreira Leite. Como eleitor.

Nas últimas eleições votei em branco. Um branco baseado na ponderação entre as qualidades e defeitos de ambos os candidatos principais, as quais, quanto a mim, se anulavam. De um lado, estava o Primeiro-Ministro, em relação a cuja desonestidade eu não guardava grandes dúvidas. Eram certos os casos da licenciatura e das obras arquitectónicas. Por outro lado, a verdade é que, em termos executivos, não era um mau Primeiro-Ministro. Do outro lado, estava a candidata da oposição, ex ministra da Educação e das Finanças, relativamente a cujas capacidades executivas guardava sérias dúvidas. A sua falta de visão e tacto haviam ficado bem demonstradas em ambos os cargos desempenhados. Por outro lado, a sua honestidade e espírito de missão nunca tinham sido postas em causa para mim.

A campanha de Manuela Ferreira Leite, desde os comícios (inexistentes), às arruadas, declarações à imprensa e, principalmente, aos debates, destacou-se, essencialmente, por dois pontos. O primeiro, inegável, foi a incapacidade de mobilização. O segundo foi a insistência, de forma directa ou velada, em duas temáticas: as contas públicas e a desonestidade do primeiro-ministro. Na altura, o povo português, com a informação de que dispunha e ajudado pelo meu voto em branco escolheu reeleger (pese embora sem maioria absoluta) Sócrates.

Agora, meses depois, Manuela Ferreira Leite não passou a falar de modo mais entusiasta ou a mobilizar multidões. No entanto, hoje dispomos de certas informações de que devíamos ter tido conhecimento em tempo certo, e não tivemos, foram-nos ocultadas. A primeira é a de que o défice orçamental não foi, em 2009, de 5%, mas sim de quase 10%, ou seja, o dobro. Algo de que o Governo, senão exactamente, tinha ideia em Setembro. A segunda – porventura mais importante – é a de que o nosso Primeiro-Ministro não é apenas desonesto no que à sua carreira diz respeito, é-o em relação ao país, aos portugueses. Sabemos hoje que Sócrates é um homem sem quaisquer valores, pragmático no mau sentido, para quem a democracia e, sobretudo, a liberdade, são conceitos vácuos, apenas para serem atirados em comícios, quando necessário.

Posto isto, a pergunta que se impõe é a seguinte: Se, em Setembro, não tivesse havido assimetria de informação, ou seja, se os portugueses (nos quais me incluo) tivessem sabido do verdadeiro valor do défice e, mais importante, tivessem tido conhecimento do caso PT/TVI, Sócrates teria sido reeleito, ou teria sido Manuela Ferreira Leite a ganhar as eleições?

Ora, é minha convicção que a líder do PSD teria, mesmo, ganho as eleições. Por muito ou por pouco, é irrelevante. E é por isso que aqui faço o meu pedido de desculpas a Manuela Ferreira Leite, que sempre soube do verdadeiro valor do défice (que o Governo nos escondia) e da verdadeira conduta de Sócrates e travou uma penosa e desigual luta com o candidato do PS. Tenho pena de, em devido tempo, não ter sabido avaliar correctamente a situação. Prefiro, de longe, um Primeiro-Ministro pouco competente a um Primeiro-Ministro desonesto e contra a liberdade.

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2 respostas a Pedido de desculpas…

  1. João Torgal diz:

    Apesar das diferenças políticas que nos separam e de, consequentemente, ser lógico que jamais votaria em Manuela Ferreira Leite, concordo com parte do balanço que fazes

    Só duas notas:

    1. Não me parece que faça muito sentido dizeres que antes já não tinhas dúvidas da desonestidade do primeiro-ministro, mas que não sabias que essa desonestidade também dizia respeito às questões do país. Quem falseia descaradamente o seu próprio currículo, não me parece que tenha grande pudor em usar e “adaptar” os factos nacionais à sua própria vontade. A questão essencial é que todas as aldrabices de Sócrates se tornaram nos últimos meses, a diferentes níveis, verdadeiramente inequívocas, como não eram até ao momento. Antes ainda podia pairar alguma dúvida sobre se não haveria manipulação de dados, em jeito de uma espécie de conspiração contra o PM. Agora as dúvidas ficaram dissipadas.

    2. “Prefiro, de longe, um Primeiro-Ministro pouco competente a um Primeiro-Ministro desonesto e contra a liberdade”. Eu acrescento: é preferível um candidato que tenha um posicionamento ideológico perfeitamente assumido, por mais que discordemos dele, que o critiquemos de forma clara e que defenda princípios completamente diferentes dos nossos (pelo menos sabemos com o que podemos contar e somos livres de o rejeitar eleitoralmente) do que alguém que seja um aldrabão e um oportunista que varie as suas atitudes apenas em função de interesses meramente pessoais e de cúpulas partidárias. Não tenho certezas que Manuela Ferreira Leite se enquadre no primeiro perfil (o discurso contraditório e muitas vezes vazio de conteúdo da última campanha eleitoral não ajudam muito), mas quem, seguramente, se enquadra no segundo é o “engenheiro” Sócrates e, quase que aposto (pelo menos no oportunismo e por aquele discurso liberal soar tão demagógico), … um tal de Pedro Passos Coelho.

  2. José Maria Pimentel diz:

    1. Por um lado, é 1 desculpa para a minha falta de perspicácia, à época. Por outro, isso é verdade, “das as aldrabices de Sócrates se tornaram nos últimos meses, a diferentes níveis, verdadeiramente inequívocas, como não eram até ao momento”.

    2. Faço minhas essas palavras!

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