Balanço músical de 2009 (1ª Parte)

Embora com o atraso já referido anteriormente, aqui fica a primeira parte do meu balanço músical do ano que passou. Em todo o caso, mais vale fazê-lo agora do que tê-lo feito, como algumas publicações, em Novembro ou em inícios de Dezembro de 2009, excluíndo logo à partida um ou imeses de produção músical.

Este primeiro post será dedicado aos discos do ano, enquanto o segundo dará destaque à minha selecção de músicas e o terceiro e último fará uma referência a concertos e notas suplementares.

Esta lista de 30 álbuns, embora havendo o cuidado de incluir traços de valorização objectiva de qualidade, reflecte essencialmente os meus gostos e preferências pessoais. A hierarquia dos discos (tal como acontecerá nas músicas) é naturalmente muito artificial e tremendamente simplista (não estive naturalmente a perder muito tempo a pensar porque é que colocava o disco tal em 22º e o outro e m 23º e não ao contrário), mas foi a forma encontrada de haver uma maior sistematização e de distinguir discos de que gosto de formas diferentes (uns mais do que outros) e /ou que reconheço méritos diversificados.

DISCOS DO ANO:

30. Girls – Album

Com a voz semi rouca de Owens em destaque e com um estilo retro peculiar, com influências que vão do rock’n’roll mais sujo até à pop mais urbano-depressiva, este projecto de São Francisco foi uma das grandes surpresas do ano. 

29. Huun Huur Tu & Carmen Rizzo – Eternal

Ao contrário do que sucede em muitos casos, eis um exemplo em que a electrónica (subtil, construtiva e com toques de classicismo) e os sons tradicionais, no caso da região do Tuva, se fundem com distinção, intensidade e emoção.

28. Oi Va Voi – Travelling the Face of the Globe

Ao 4º disco, o colectivo britânico de origem judaica volta a efectuar a sua adaptação sofisticada da música do leste europeu, para fazer um disco cheio de ritmo e com uma enorme sensibilidade pop.

27. Rodrigo Leão – Mãe

De forma mais coesa do que em Cinema e com convidados internacionais de luxo, Rodrigo Leão volta a compor verdadeiras e óptimas canções, não esquecendo contudo o passado mais erudito, com momentos de beleza arrebatadora.

26. Melech Mechaya – Budja Ba

Depois de um EP promissor, o projecto português volta a dedicar o seu disco de estreia ao klezmer, mas elevando a fasquia de qualidade, num álbum com um ritmo, uma frescura e uma vitalidade verdadeiramente viciantes.

25. Cortney Tidwell – Boys

Alternando momentos de beleza introspectiva e melancólica com pormenores mais experimentais e com uma voz quente e intensa, Tidwell foi talvez das singer-songwriters mais injustamente desprezadas de 2009

24. Kings of Convenience – Declaration of Dependence

Em “Declaration of Dependence”, os norugueses mantém todas as coordenadas dos trabalhos anteriores (harmonias vocais, tristeza folk e pop suave, doce e com toques de classicismo), mas  fazem talvez o seu disco mais consistente.

23. Real Estate – Real Estate

Sobressaindo inicialmente na compilação “Summertime Showcase”, os Real Estate foram em 2009, com este disco, os porta-estandartes de um movimento rock lo-li e descompretido, sediado em New Jersey.

22. Yo La Tengo – Popular Songs

Veteraníssimos da cena independente norte-americana, os Yo La Tengo continuam a brilhar e a fazer álbuns recheados de ecletismo, desde as tonalidades folk, passando pela pop mais sonhadora, mais twee ou mais rendilhada e terminando com experimentalismo noise.

21. Bela Fleck – Throw Down Your Heart – Tale From the Acoustic Planet, vol. 3 Africa Sessions

A combinação entre o banjo de Fleck e as vozes e instrumentos africanos dos músicos com quem o americano colaborou e conviveu é o exemplo paradigmático de genuína globalização cultural e de partilha perfeita entre diferentes tradições musicais.

20. Vários – Dark Was The Night

Ter numa compilação de beneficiência temas originais de nomes como Beirut, Spoon, Arcade Fire, Grizzly Bear, Cat Power, Blonde Redhead, Yo La Tengo ou Andrew Bird (e muito, muito mais) é uma garantia de qualidade, naturalmente comprovada.

19. A Sunny Day in Glasgow – Ashes Grammar

Combinando a influência dream pop e shoegaze 80’s com elementos electrónicos (curiosamente há algo de nórdico na sua sonoridade), este disco do trio de irmãos de Philadeplhia é mais uma fantástica prova de qualidade na lista de discos retrospectivos de estilos musicais de outros tempos.

18. Kimi Djabate – Karam

 

Apesar de radicado em Portugal há vários anos, este belíssimo  Karam respira África por todo o lado. Quer na componente instrumental, com destaque para a cadência do balafon ou para a magia da kora que o acompanha, quer na estupenda espiritualidade vocal.

17. Fool’s Gold – Fool’s Gold

Mais etnicos e menos pop que os Vampire Weekend, os Fool’s Gold são mais um exemplo interessantíssimo de banda americana apaixonada pelos aspectos tradicionais, elaborando aqui um disco tão irresistível do ponto de vista ritmico, como soberbo em termos de complexidade musical

16. Matt Darriau, Ismail Lumanowsky & Patrick Novara – Liquid Clarinets

Este projecto europeu multi-nacional mostra como combinar algumas das tradições do velho continente (klezmer, sons balcânicos, tarantella, etc) e fazê-lo de modo dinâmico, rico, instrumentalmente virtuoso e musicalmente muito, muito bom.

15. Phoenix – Wolfgang Amadeus Phoenix

Seja pela sucessão de singles em potências que por aqui abundam, seja pela pérola electrónica que existe a meio do disco, certo é que este 4º disco dos franceses Phoenix é seguramente um dos grandes discos pop de 2009.

14. Atlas Sound – Logos

Muitos dos esboços interessantes que figuravam no disco de estreia tornaram-se agora canções de corpo inteiro no segundo trabalho do projecto a solo de Bradford Cox. Por isso e pelas optimas colaborações de Neil Hannon e Letitia Sadier, Logos só podia ser um grande álbum.

13. The XX – XX

Com base electrónica, ora mais negra, ora mais ambiental,  e, a espaços, com uns toques de soul,  a música dos XX tem também uma enorme sensibilidade pop. Pela qualidade de tudo isto, é perfeitamente justo que o grupo britânico tenha sido uma das grandes revelações do ano que passou.

12. Grizzly Bear – Veckatimest

Com óptimas harmonias vocais, com pormenores ora mais soturnos, ora quase épicos, e com elementos de cordas bem interessantes, a banda americana criou em 2009 um digníssimo sucesssor da obra prima Yellow House

11. Flaming Lips – Embryonic

A epopeia negra e claustrofóbica dos Flaming Lips, com laivos de ambientalismo e de beleza subliminar, está para 2009 como “Third” dos Portishead esteve para 2008. Pela sua estrutura, pode não ser um álbum fácil de ouvir com frequência, mas isso não lhe tira todo um imenso mérito.

10 Luísa Amaro – Meditherranios

A espiritualidade e o impacto instrumental do segundo disco de Luísa Amaro são inequívocos. Não só pelo misticismo típico das culturas tradicionais mediterrânicas, mas principalmente  pela forma exímia como o conjuga com a magia da guitarra portuguesa

9. Antlers – Hospice

Algures entre a apoteose festiva de uns Arcade Fire e o maravilhoso intimismo de Bon Iver, com toques de experimentalismo shoegaze à mistura, está a música dos Antlers num disco cheio de momentos verdadeiramente preciosos.

8. Mulatu Astatke & The Heliocentrics – Inspiration Information

Mais um exemplo típico de fusão de grande qualidade. Jazz, funk experimental e ritmos tradicionais africanos convivem neste grande trabalho, num revisionismo moderno, rico e requintado da excelente  música do mestre etíope. 

7. Calm Blue Sea – Siegrfied

Na forma de banda-sonora imaginária, Siegfried é uma obra tão ambiciosa, como musicalmente maravilhosa, ideal para os fãs do post-rock mais melódico, com teclados lindíssimos e crescendos incríveis. Pena é que seja tão pouco conhecida.

6. Animal Collective – Merryweather Post Pavillion

No prolongamento das influências de Beach Boys e companhia no disco a solo de Panda Bear, os Animal Collective fizeram em 2009 o seu traalho maior. Porque conseguiram pegar no experimentalismo do passado e dar-lhe uma dimensão pop estratosférica.

5. St. Vincent – Actor

Misturando a electrónica e o ruído a melodias pop complexas com um largo pendor etéreo (nas orquestrações, nos arranjos ou nos coros), o segundo disco de Annie Clark (St. Vincent) alterna crueza e beleza com um indicador comum: a enorme qualidade da música que por aqui se encontra.

4. Alela Diane – To be Still

Alela Diane é daquelas singer-songwriters que têm algo de especial, que as distingue das demais. Tem uma voz límpida e maravilhosa e tem temas tão simples e minimais, como extraordinariamente bonitos, o que resulta num dos discos mais maravilhosos de folk / country americano dos últimos anos.

3. Bibio – Ambivalence Avenue

Acid-funk, electrónica robotizada, hip-hop-instrumental, pop com experimentação sonora, melodias simples, tristes e melancólicas… Há de tudo um pouco neste fantástico trabalho do projecto do britânico Stephen Wilkinson , num dos álbuns mais ecléticos do ano.

2. Staff Benda Bilili – Trés Trés Fort

 

Herdeiros musicais de Franco e dos sons afro-latinos que proliferaram no Congo na segunda metade do século XX, este conjunto de jovens deficientes e sem-abrigo de Kinshasa  elaborou uma das obras mais viciantes, surpreendentes e brutais da música africana e universal dos últimos anos.

1. Bat For Lashes – Two Suns

No óptimo primeiro disco desta menina anglo-paquistanesa surgiram elogiosas associações com o fulgor de PJ Harvey ou com o exostismo de Bjork. Apesar de ser perceberem as comparações, conclui-se agora no seu sucessor que Bat For Lashes que é muito mais do que isso. Que é uma artista em nome próprio, capaz de combinar na perfeição electrónica subtil e sombria, garra e intensidade imensas, beleza e emoção etéreas, dimensão pop e uma maleabilidade vocal impressionante. Obra-prima por excelência e disco do ano.

.

P.S. Sendo apenas uma lista de 30, acabaram por ficar de fora ficaram óptimos discos de Bear in Heaven, Woods, Mount Eerie, Jesca Hoop, Antony & The Jonhsons, Legendary Tiger Man, Dazkarieh, Laia, Kronos Quartet, Oumou Sangaré, Bassekou Kouyate & Ngoni Ba, Tinariwen… E muitos, muitos outros discos que ouvi e principalmente que não ouvi.

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5 respostas a Balanço músical de 2009 (1ª Parte)

  1. paulo pereira diz:

    já passou algum tempo, pois tive que ouvir algumas coisas. aqui vai:
    Bat For Lashes – Two Suns: considerar este o melhor de 2009 é baixar muito a fasquia; quase música ligeira, lembrando, por vezes, clannad dos anos 80; nada de novo e, melodicamente ….fraquinho. E existe melhor na lista: Antlers(melódicamente melancólicos, originais esabendo vestir as músicas- tirando 2 musicas), The XX( originais no uso do passado; não inventaram nada mas tiveram arte em juntar), Rodrigo Leão( apeasr de achar que é o seu pior trabalho,deriva para a musica ligeira, fica a léguas de Bat f Laches), Bibio(muito interessante!!!!, faltando algo…).
    Devo referir que aínda não ouvi os que reflectem ser mais música tradicional, pois desses não devo falar pq não gosto, independentemente da sua qualidade.
    nota final a Flaming Lips: mau, mesmo muito mau; psicadélico fazendo lembrar os pink floyd, e aínda por cima, vestidos como hippies….
    Bons sons….melhores músicas

  2. João Torgal diz:

    Paulo, algumas notas aos teus comentários:

    1. É lógico que há discos que podem ser musicalmente mais interessantes e vanguardistas do que o da Bat For Lashes (A Sunny Day in Glasgow, Bibio ou Animal Collective, só para citar alguns exemplos da minha lista). Mas como isto é, em grande parte, uma lista de gosto pessoal, não consegui resistir ao imenso impacto emocional do também simultaneamente exótico e negro disco da menina anglo-paquistanesa.

    2. Também eu gosto bastante mais dos primeiros discos do Rodrigo Leão (“Ave Mundi Luminar”, “Theatrum” e principalmente a obra-prima “Alma Mater”), mais eruditos e clássicos. Mas isso não me impede de considerar que, no contexto da sua aproximação ao formato canção, este “A Mãe” é um óptimo disco e bem mais compacto e interessante do que “Cinema”. E continua a ter instrumentais magnificamente arrepiantes.

    3. Consideraria a associação deste disco dos Flaming Lips aos Pink Floyd, mas ela só faz ligeiramente sentido se considerarmos a fase Syd Barrett. E, mesmo assim, o som deste disco é muito mais claustrofóbico, muito mais noisy, muito mais tecnológico, fruto dos mais de 40 anos de distância que os separam. E, muito mais do que um disco psicadélico, é um disco positivamente difícil de catalogar num género, o que o torna desde logo numa obra notável.

    4. Quanto à música etnica / tradicional, talvez um dia vejas a luz 🙂

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