Eleições presidenciais – um vazio que se preenche?

Há cerca de um mês, elaborei um post intitulado “A perversa candidatura presidencial de Alegre”, em que considerava verdadeiramente desolador o cenário para estas próximas eleições presidenciais. Resumidamente, sentia-me profundamente incomodado por ver que a alternativa a Cavaco (para além do seu posicionamento ideológico, da sua esperada aliança com Sócrates durante muito tempo e da sua previsível inabilidade diplomática, revelou ainda uma falta de sentido de estado e de tacto político gritantes quando tentou dar uma mãozinha a Manuela Ferreira Leite) era o Alegre do pós 19 de Setembro, data em que esteve presente no comício do PS e em que, mais do que desiludir muitos que o apoiaram em 2006 e respeitaram a sua situação difícil durante o mandato socrático, contradisse todas as convicções, opiniões e críticas manifestadas durante esse período.

Na altura, deixei a opinião sobre o posicionamento do Bloco de Esquerda para futuros posts. Pois bem, deixo aqui a minha perplexidade e o meu profundo desapontamento pela forma veemente como, nestas condições, o partido apoiou Alegre. Não tanto pela falta de transparência intena que, pelos vistos, rodeou todo este processo (não sendo militante do Bloco, é o que menos me importa, mas, ainda assim, é normal que deseje que haja práticas correctas e sérias dentro do partido com que mais me identifico), mas essencialmente pela incoerência e lógica oportunista que indicia. Que motivos há para que, não tendo havido apoio há 4 anos, este surgisse agora? O que mudou? Temos na mesma uma disputa entre Alegre e Cavaco, com o problema adicional deste ter a vantagem teórica de ser uma recandidatura (talvez esse factor pese menos nesta eleição do que nas anteriores, dada a sucessão de trapalhadas de Cavaco). Em contrapartida, enquanto a candidatura de há 4 anos era efectivamente supra-partidária, tendo gerado sentimentos de esperança, de apoio, de descomprometimento, de convicção verdadeiramente genuínos, pelo menos de uma boa franja dos seus apoiantes mais idealistas, a de 2011 surge, por mais motivos extraordinários que tenha Alegre para ter aparecido no comício de 19 de Setembro e por mais arrependido que este esteja, com o estigma do frete a Sócrates e companhia. Claro está que não podemos ser ingénuos. A postura do Bloco nestas duas eleições presidenciais tem outras leituras mais simples e directas, ao nível de um sentido de táctica política bem pouco louvável. Louçã apresentou-se em 2006 numa lógica de contagem de espingardas contra Jerónimo. Agora, como essa situação não existe, como Alegre surge novamente e como o Bloco já percebeu que as suas candidaturas perdem peso em eleições com ênfase menos partidário (Presidenciais e Autárquicas), apressou-se a manifestar o seu apoio para daí tirar benefícios políticos, nomeadamente os louros de um bom resultado. É triste que assim seja.

 Neste contexto, tendo o Bloco optado pelo apoio a Alegre, sentia-me mesmo desanimado com o panorama para estas eleições. Mas eis que, de forma surpreendente, surge…

… a candidatura de Fernando Nobre. Nobre é um humanista, um filantropo, um defensor e activista de causas sociais, um homem frontal que, aparemtemente, não se move por interesses obscuros, alguém com um currículo altamente respeitoso. E, embora não tendo uma ligação forte ao mundo da política partidária, já manifestou posições públicas em determinados momentos. Ainda recentemente, em Junho de 2009, aceitou ser mandatário do Bloco de Esquerda nas eleições europeias. Até por isto, se tornam ridículas algumas críticas que têm sido efectuadas a Fernando Nobre (ver, por exemplo, no Arrastão: aqui ou aqui). A mais vincada é a de que Fernando Nobre está a dividir a esquerda e a ser instrumentalizado por Mário Soares. Não duvido que, em função do fraquíssimo resultado eleitoral de 2006 e de um certo egocentrismo da sua parte, Soares fique particularmente satisfeito com todos os que retirem peso eleitoral a Alegre, para que não se acentue ainda mais a ideia clara de que foi um erro a sua candidatura há 4 anos. Mas daí a Nobre surgir como consequência dessa vontade de Soares, já me parece altamente improvável, atendendo ao percurso de independência e frontalidade do médico, aparentemente pouco dado a jogos de bastidores. Para além de que não tem legitimidade para fazer este tipo de insinuações quem apoia convictamente Alegre que, pelo menos no plano das atenções e salvo demonstração inequívoca em sentido inverso, semi-cozinhou a candidatura para se aproximar do clã Sócrates, cuja política, ideologicamente nem de direita, nem de esquerda, é apenas fruto da sua sede de poder e do seu espírito arrogante, oportunista, interesseiro e demagógico.

Assim sendo, pelos motivos expostos anteriormente, tenho esperança que a candidatura de Fernando Nobre  seja efectivamente um vazio que se preenche nesta eleição presidencial.

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3 respostas a Eleições presidenciais – um vazio que se preenche?

  1. Pingback: cinco dias » Uma dissidência Alegre

  2. Paulo Jorge Pereira diz:

    mas já se sabe quais as suas posições sobre os desafios para o país, nomeadamente, obras publicas, saude, segurança social, união europeia, politica externa…para se manifestarem seus apoioantes????

  3. João Torgal diz:

    Não. Exactamente por isso é que não me considero seu apoiante, tal como deixei expresso colocando a interrogação no título “Eleições Presidenciais: um vazio que se preenche?” e manifestando apenas a esperança de que esse vazio efectivamente se preencha nesta candidatura.

    Mais tarde, quando houver dados mais concretos sobre as suas ideias para o país e sobre o seu posicionamento ideológico, darei uma opinião mais fundamentada sobre esta candidatura.

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