Corporações

Já tínhamos percebido que este governo era perito em utilizar chavões repetidos, entre os quais se inclui a “inovação”. E há, pelo menos, um domínio onde nenhum governo (que se saiba, pelo menos) foi tão longe até agora. Não me parece que haja limitações ao exercício da liberdade de expressão: há, antes, uma coisa bem mais inteligente e organizada – porque não autoritária – que se chama manipulação da opinião pública. Do jeito detestável que lhe conhecemos (e passando por cima de casos semelhantes no “outro lado da barricada” – alguém se lembra do “frete” descarado a Passos Coelho num suposto “jornal isento” – não no DN ou o JN, portanto – e sobre o qual nada “lemos, vimos e ouvimos”?), Pacheco Pereira tem vindo a denunciar inúmeras situações destas. Mas uma especialmente inovadora e bem conseguida/ concebida é o blog que dá pelo nome de “Corporações” ou “Câmara Corporativa”.

O blog nem sequer é assinado. O “João”, o “Afonso” e o “Miguel” não existem senão neste espaço virtual e nunca lhes passou pela cabeça estar em desacordo com o governo. Quem ler este blog pode facilmente ficar com a ideia de que este governo e o país são um mar de rosas (à luz do que tem vindo a público não é, de facto, errado pensá-lo, pelo menos na parte do “estar entregue” às (aos) “rosas”). Repare-se que até militantes largamente reconhecidos como tal do PS como António Costa ou Ana Gomes apontam, de vez em quando, o dedo a Sócrates em algumas questões. Estes senhores – ou senhor, porque podem perfeitamente ser uma só pessoa –  são funcionários, certamente pagos por dinheiros públicos, do governo,  de uma agência de comunicação ou de qualquer outra maquinaria que sirva interesses semelhantes para desculpar, justificar e acima de tudo criar o que escasseia na opinião pública: uma corrente de defesa do governo. Mas nem tanto do governo. Acima de tudo, da figura de Sócrates.

Isto é tanto assim que assim que cair o governo este blog acabará. Porquê? Porque este não aborda nenhum outro assunto (à excepção das dicas “musicais” metidas “a martelo”) que não o governo e os sucessivos escândalos em que Sócrates se vê envolvido dando também amplo espaço de difusão às sondagens (“a la” Berlusconi, há dúvidas?) e artigos de “opinião” que têm sempre em comum um único ponto: serem favoráveis à figura do primeiro-ministro. De que utilidade se revestirá um blog destes assim que não existir José Sócrates? Não terá a mínima utilidade. Para já, serve apenas para distorcer a opinião pública, criando nas pessoas que não estejam prevenidas a convicção de existirem grupos “isentos” que apoiam este governo incondicionalmente. Ora, será isto sequer possível? Pois.

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2 respostas a Corporações

  1. João Torgal diz:

    Não conhecendo de forma mais aprofundada o blog que referiste, não consigo ter uma opinião tão taxativa como tu. Mas que, em jeito de propaganda, os textos expressam genericamente a mesma ideia, o mesmo sentido, o mesmo conteúdo, lá isso é verdade. E que Sócrates e companhia eram capazes disso e de muito mais, já não há a menor dúvida.

  2. António P. Neto diz:

    “Aquilo que todos já sabiam foi ontem confirmado pelo Correio da Manhã, ao longo de duas páginas assinadas por Eduardo Dâmaso, Tânia Laranjo e Manuela Teixeira: assessores e adjuntos do Governo alimentam um blogue que se especializou na calúnia, na injúria e no servilismo histérico a José Sócrates. Sempre sob a capa do anonimato: a sigla Miguel Abrantes, como surge agora confirmado no e-mail de Hugo Mendes tornado público, é uma espécie de franchising que agrupa um grupo de boys que fazem no Executivo o mesmo que o confrade Rui Pedro Soares fazia na comissão executiva da PT: fretes ao primeiro-ministro. Com o acréscimo de comodidade, para os “cooperativos”, de o fazerem a coberto do anonimato.
    A partir de agora, diz-nos o Correio da Manhã, em cada post “cooperativo”, onde se lê “Abrantes” deverá ler-se Hugo Mendes. E Tiago Antunes, outro boy do gabinete de Almeida Ribeiro, entretanto promovido a chefe de gabinete. E André Figueiredo, assessor de Socrates no partido. E talvez o próprio Almeida Ribeiro lá faça uma perninha, reforçando os turnos de fim de semana.
    Grande franchising. Desvendada publicamente a autoria, há que fazer agora os competentes exercícios de exegese dos textos. Por mim, sugiro que se comece por todos os que se relacionam com o Presidente da República: haverá lá material suficiente para proporcionar uma tese de doutoramento. A não ser que aquela corajosa rapaziada tenha passado a manhã de hoje a apagar o arquivo, não vá o “Chefe” chamuscar-se agora também com mais esta maçada.”

    Pedro Correia, n’o “Albergue Espanhol”

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