A perversa candidatura presidencial de Alegre

Em 2006, apoiei de modo incondicional a candidatura de Alegre à Presidência da República. Na altura, por me identificar totalmente com a figura de Alegre e com todo o espírito positivo que rodeou a sua candidatura, envolvi-me mesmo de forma entusiasta e dedicada na campanha eleitoral (foi uma estreia para mim, em termos de participação activa numa campanha política nacional). Durante 4 anos, continuei de modo coerente a defender que Alegre teria sido um bom Presidente da República e muitíssimo melhor do que Cavaco Silva. Há sensivelmente um ano, fiz um texto neste blog em que efectuava uma reflexão sobre o papel difícil do poeta no seio do PS, colocando várias hipóteses em que o seu idealismo e a sua seriedade não ficavam minimamente manchados. Na altura, terminava o texto, manifestando a minha esperança e a minha confiança absoluta de que este não me desiludissse a mim nem aos que sucessivamente apoiaram as suas posições e tudo o que ele representava na política nacional (“Qualquer que seja a sua decisão, espero que Alegre permaneça fiel aos seus princípios, continuando a ser uma das minhas grandes referências pessoais...”).

Toda esta minha opinião se manteve… até dia 19 de Setembro, altura em que, revelando uma enorme contradição com as suas posições anteriores, uma surpreendente e desapontante hipocrisia e um sentido calculista muito pouco louvavel, Alegre surgiu ao pé de Sócrates, depois de tanto (e tão bem) o ter criticado ao longo de meses e meses, aparecendo como apoiante de uma linha política governamental que deveria envergonhar e humilhar qualquer histórico do PS. Na altura, fazendo um balanço das eleições aqui no blog, deixei logo bem clara a minha irreversível decepção  perante essa atitude (“Derrotado à posteriori, parece estar condenado Manuel Alegre e toda a ala mais à esquerda do PS que se vendeu a Sócrates nesta eleição. Por oportunismo ou por pura ingenuidade, certo é que foi uma verdadeira vergonha a atitude demonstrada por essa facção…”).

Confirma-se agora, 5 meses depois, a candidatura de Alegre à Presidência da República). Para além da questão moral, considero que a presença de Alegre no comício de Setembro só o prejudicou em termos eleitorias. Passo a explicar, abordando as duas situações possíveis:

        1. O Partido do Sócrates (PS) apoia a candidatura de Alegre. Por um lado, o apoio do Partido Socialista nas condições actuais não é um peso tão forte numa eleição presidencial. Basta ver o resultado diminuto obtido por Soares na última presidencial, mesmo contando com o seu carisma e com o voto de pessoas que seguramente estão longe de se identificar com o regime socratino (temos um elemento neste blog, por exemplo). Por outro lado, a sua manobra de pura táctica política, muito pouco própria de alguém a quem se reconhece (ou reconhecia?) um sentido de idealismo e de convicções fortes, desapontontou muita gente de uma certa esquerda utópica (no bom sentido) e independente do sectarismo e dos interesses partidários, em que me incluo, e que, assim sendo, se recusa sequer a dar-lhe o seu voto (enquanto se Manuel Alegre se tivesse mantido fiel aos seus princípios, eu votaria nele independentemente do apoio do PS existir ou não)

         2. O Partido do Sócrates (PS) não apoia a candidatura de Alegre. Neste caso, o frete a Sócrates de nada serviu. Poderá ainda recuperar alguns votos à esquerda (nesse caso ainda aceito votar em Alegre, só para não ter mais cinco anos de cavaquismo), mas perder-se-á parte da onda de entusiasmo que uniu há 4 anos milhares de pessoas em torno de um um sonho, de uma esperança, de uma mobilização nacional, de um espírito activista, humanista e de intervenção social, personificado na figura de Alegre.    “Voltar a inventar este lugar. Viver de novo a vida sem esperar.  Sonhar o velho sonho. Que temos adiado. E ver este País a acordar.” (excerto da letra do hino da 1ª candidatura de Alegre à presidência, da autoria de Fernando Guerra e com voz de Paulo de Carvalho) fez sentido em 2006, mas soa a falso em 2011.

A não ser que haja uma surpresa de última hora, do outro lado estará o inenarrável e indescritível Cavaco Silva, que demonstrou ao longo destes anos aquilo que se previa, ou seja, uma falta de sentido mobilizador e de presença diplomática gritantes, a que se acrescentou nos primeiros anos (até se terem zangado as comadres) uma já esperada concordância de posições com o governo, que superou muito a essencial cooperação institucional. Desta forma, não tenho dúvidas em caracterizar o cenário para estas próximas eleições presidenciais como verdadeiramente desolador.

 P.S. Para um post futuro, fica a minha opinião sobre o estranho apoio de Louça e do Bloco de Esquerda à candidatura de Alegre.

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15 respostas a A perversa candidatura presidencial de Alegre

  1. José Maria Pimentel diz:

    Vejamos este cenário:

    Alegre sabe que, numa eleição com a esquerda dividida, não poderá ganhar as eleições presidenciais contra um Cavaco que, não só une a direita toda, mas, também, acarreta o duplo joker de ser Presidente em funções e ser (originalmente) do partido que não está no poder.

    Por isso, Alegre, num pragmatismo pouco habitual nele, resolve apoiar Sócrates, em troca do seu apoio recíproco.

    Por outro lado, do ponto de vista de Alegre, é melhor 1 governo Sócrates do que 1 governo MFL, tendo em conta que os outros partidos não riscam. Acresce, ainda, que um cenário de Maioria Absoluta está fora de questão, por isso não perde a face.

    Neste cenário – que nao sei se corresponderá à realidade – não achas que Alegre agiu bem?

  2. Estão ambos a falar línguas diferentes. O Torgal fala do “amor a camisola” e o Zé em estratégia politica. E a verdade é que Alegre é ambos, em tempos diferentes.
    Quanto a mim procedeu bem em dar apoio a socrates, a politica é sempre um jogo de ganhos e cedências. Por outro lado comprometeu a imagem e a integridade que tantos votos lhe deu em 2006, o revés de “um pragmatismo pouco habitual nele”.

    Vejo um Alegre diferente para esta candidatura. Mais calculista, o que não é necessariamente mau. Se tiver de adivinhar, a demora do PS em apoiar Alegre era para que este pudesse capitalizar outros apoios como o do Bloco, ou de quem não se revê em nenhum partido. A sua veemência em não se querer “colar” ao Bloco nesta candidatura, com o discurso da candidatura suprapartidária, abre-lhe o caminho para uma candidatura forte.

    Se não for isto que se verifica, algo correu terrivelmente mal. Pior para o Manuel, pior para o PS que não deve perder mais tempo a arranjar candidato.

  3. João Torgal diz:

    O Ian (Pedro) já explorou suficientemente bem as diferenças entre a minha visão e a resposta do Zé. Em todo o caso, ficam aqui mais algumas ideias:

    1. Sejamos claros, a vitória do PSD estava tão ou mais distante do que a maioria absoluta do PS. A vitória de Rangel foi muito mais fruto do seu carisma e de um irrepetível e momentâneo voto de repúdio à governação Sócrates do que um um indício para o resultado legislativo (o estatuto ultra-conservador de Ferreira Leite e a sua notória falta de astúcia e tacto políticos não deixavam margem para grandes dúvidas).

    2. Depois das peripécias do seu mandato e atendendo ao facto de, numa eleição presidencial, o posicionamento no binómio direita-esquerda ter uma importância menor, estou longe de achar que Cavaco é, como parece que consideras, um candidato quase imbatível.

    2.Chamem-me estúpido e utópico, mas para mim a política deveria ser muito mais “amor à camisola” (convicções e princípios fortes e bem sustentados do ponto de vista argumentativo) do que oportunismo e interesses individuais e partidários. Ora, o que Alegre fez neste caso foi, ao ser pragmático (como lhe chamaste), optar pela segunda via, algo que, se já seria revoltante vindo de um calculista e oco membro de uma juventude partidária (para quem um partido político é como um clube de futebol), muito mais é vindo de quem é (ou era) para muita gente uma das poucas referências políticas a nível nacional, pelo seu papel na luta anti-fascista e pela seriedade e coerência dos seus actos e do seu discurso, assumidos em 35 anos de regime democrático.

  4. Maria** diz:

    tenho uma ideia para as próximas presidencias , esqueçam o cavaco e o alegre promovam o mário crespo.:
    http://bit.ly/9gIqOZ

  5. Pourquoi Pas? diz:

    Gosto de ler Blog de uma certa esquerda utópica… Nem uma palavra sobre mais de 500.000 desempregados ou sobre a liberdade ameaçada em Portugal pelo Sócrates e pelo PS que pudicamente fechou os olhos.

    Não gostei de MLF e da sua campanha, no entanto passados poucos meses força é de reconhecer que os temas escolhidos estavam na ´mouche´. (honestidade intelectual…)

    Sei que alguns economico-ignorantes vão culpablizar o capital financeiro, os especuladores, os bónus e os Hedge funds. Para estes respondo, lêm os mais conceituados economistas da praça. Desde o principio do segundo mandato de Guterres que o descalabro estava previsto.

    Não quero políticos para um Portugal utópico (basta ver o resultado das outras utopias, Cuba, URSS, China e Coreia do Norte) O que quero são políticos capazes de dizer aos portugueses o que é possível, sustentável e correcto.

    Alegre não tem lucidez, conhecimentos ou carácter para tal.

  6. João Torgal diz:

    Se há alguém que tem falado da questão do desemprego é essa esquerda utópica, na qual me incluo. Não têm faltado referências do próprio Alegre à questão do flagelo do desemprego e aos défices e desigualdades sociais.

    Noto uma grande incoerência no seu discurso quando diz que MFL acertou na “mouche”. Se houve alguém que centrava o seu discurso praticamente apenas na questão económica e no défice, desprezando aspectos e preocupações de índole social, como a elevadíssima taxa de desemprego, esse alguém foi o PSD em Setembro. Aliás, MFL parecia que não privilegiava realmente nada, tal a forma mal preparada e displicente como surgiu na campanha eleitoral, nomeadamente no debate com Sócrates.

    Quanto às ameaças de liberdade, não poderia estar mais de acordo. É mesmo preocupante percebermos que somos governados por gangsters que tentam manietar, de modo perverso, não só o poder político, como também o poder económico e os meios de comunicação social. Mas isso tem sido amplamente denunciado pelos reais sectores de esquerda do país (em que naturalmente não se inclui a estrutura aparelhista do Partido de Sócrates, que não está mais próximo de ser de esquerda do que… Pedro Passos Coelho e a sua lógica demagogicamente fresca e liberal).

    Em relação a Alegre, julgo que, com grande mágoa, o texto já reflecte suficientemente o que penso

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  8. Pingback: cinco dias » Uma dissidência Alegre

  9. DSC diz:

    Caro João Torgal,

    Pergunto-lhe o que é que o Manuel Alegre fez de relevante durante toda a sua carreia política e pública? E se o que fez o qualifica para ser o “nosso” o presidente e, melhor, o comandante supremo das forças armadas?

    é que eu assim de repente não me lembro de nada. E se para si, o que o qualifica, é o facto de se ter demarcado de sócrates e da sua governação durante um certo período de tempo (tempo esse que não de questões ideológicas) mas de uma certa amargura e ressentimento por não ter sido apoiado nas presidenciais passadas… Bem, contra utopias nada a fazer..

  10. João Torgal diz:

    Não faz muito sentido responder agora à sua questão, dado que, como deixei bem expresso, estou longe de ser um apoiante da candidatura de Alegre nesta eleição presidencial.

    Em todo o caso, supondo que lhe estaria a responder antes do dia 19 de Setembro de 2009, diria talvez duas coisas:

    1. Apreciava em Alegre o sentido de verticalidade, de coerência ideológica, de defesa de um socialismo democrático e humanista. Acho que teria sido um PR socialmente interventivo, que confrontaria frontalmente as políticas neo-liberais de Sócrates. Até porque estávamos a esolher um presidente da república, um diplomata e um mediador, e não um governante, ao contrário da ideia tão falaciosamente propagada em 2006 e que sabemos bem para benefício de quem.

    2. Quando diz que a demarcação de Sócrates foi apenas por amargura e ressentimento, discordo completamente e acho que é pura especulação. Recordo que, em 2004, Alegre foi adversário eleitoral de Sócrates nas internas do PS, com um discurso e uma linha política bem diferente, combatendo o vazio tecnocrático e oportunista do “engenheiro” com um verdadeiro idealismo de esquerda.

    No entanto, como hoje não é dia 18 de Setembro de 2009, mas 21 de Fevereiro de 2010…

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  14. Alexandre Carvalho da Silveira diz:

    Manuel Alegre nunca trabalhou na vida, de resto gosta pouco de se maçar, a não ser que esteja a caçar ou a pescar. A seguir a 74 foi sempre deputado da Nação, mas não se lhe conhecem grandes contributos para nenhuma iniciativa politica relevante no Parlamento.
    O seu discurso de rentrée, como agora se diz, foi considerado “inteligente” por Marcelo Rebelo de Sousa, mas é baseado em mentiras e pressupostos falsos, acusando o seu principal adversario de ser responsavel pelas politicas do seu proprio partido, que o apoia, e cujas politicas ele não repudia. Trapalhada total.
    Quando foi secretario de estado no 1º governo constitucional, a sua obra prima foi fechar o jornal mais antigo que havia em Portugal: “O Seculo”.
    Versos à parte, não gosto da poesia dele mas não me atrevo a dizer que é um poeta mediocre, Manuel Alegre é um verdadeiro ZERO à esquerda.

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