“A Estrada” de John Hillcoat

“A Estrada” tem por base o romance homónimo do escritor Cormac McCarthy, premiado com o credenciado Pullitzer em 2007. Tendo por base uma profunda tragédia que devastou o Mundo (não sabemos exactamente qual, nem de que forma, mas definitivamente não é importante), o livro debruça-se essencialmente sobre relação muito especial entre um pai e um filho, que, com imensos obstáculos pela frente, procuram chegar à costa onde nutrem a esperança de encontrar um destino menos negro e macabro do que têm de suportar ao longo da caminho que têm de percorrer. Com diálogos tão simples, como crus e perturbadores, e com flashbacks que, mais do que dar respostas às nossas naturais dúvidas sobre a tragégia, têm como objectivo espelhar de modo mais denso o lado dramático da história, a obra é essencialmente uma reflexão sobre o instinto da sobrevivência e sobre o confronto entre a crueldade humana no seu estado mais preverso e um certo sentido positivo baseado em valores humanistas de solidariedade e interajuda.

Tendo sido um livro que me marcou e já tendo ficado profundamente decepcionado com algumas adaptações cinematográficas de obras-primas literárias (“O Ensaio sobre a Cegueira” ou “1984” são dois bons exemplos) foi com bastante desconfiança que encarei este filme. Até porque, do ponto de vista comercial (em particular nos últimos tempos, em que a temática virou moda), seria porventura tentador que o realizador preferisse dar ênfase à questão da catástrofe, com grandes efeitos especiais à mistura, do que apostar no lado mais reflexivo e complexo do livro. Puro engano…

Toda a crueza e profundidade subliminar do livro são transpostas na perfeição para o grande-ecrã. Não só porque Hillcoat teve a inteligência de fazer um filme bastante fiel ao livro, como aproveitou o poder da imagem para aumentar o impacto da história, agarrando (e perturbando, como um autêntico murro no estômago) o espectador desde o primeiro instante, através da crueza dos cenários, das cores bem frias e cinzentas utilizadas como pano de fundo, dos intensos e emotivos diálogos e da sobriedade das cenas de maior acção, sem necessidade de recorrer a efeitos superflúos, deixando todo o climax para o lado psicológico e para o drama humano das personagens, culminado com um final muito muito bonito e comovente. Para além de tudo isto, o filme tem ainda como trunfo suplementar a melancolia minimalista da música de Nick Cave e Warren Ellis, em nova parceria depois da óptima banda-sonora para o bem aborrecido e arrastado “O Assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”. E, claro, é impossível não destacar as notáveis interpretações do surpreendente Kodi Smit-McPhee (no papel do miúdo) e do grande Viggo Mortensen (seguramente um dos grandes actores da actualidade, tendo aqui mais uma brutal interpretação, depois dos incríveis desempenhos nos dois últimos filmes de Cronemberg, novamente desempenhando uma personagem muito rica, densa e ambígua em termos psicológicos) bem secundados por nomes como Charlize Theron ou Robert Duvall.

Concluindo, muito mais do que um dos grandes filmes de 2009 (se tivermos apenas em conta a pobreza das propostas que têm chegado até nós no circuito mais comercial, isso não seria nota de particular relevo), “A Estrada” é do melhor que vi no cinema nos últimos anos, conseguindo a proeza de superar o óptimo livro que lhe serve de base, o que demonstra, sabendo-se do impacto que uma peça literária pode ter na nossa memória, que John Hillcoat nos brindou mesmo com uma obra cinematográfica verdadeiramente magnífica.

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