Finalmente…

… um verdadeiro acordo entre o ministério e a plataforma sindical, depois de 4 anos e meio de um ambiente de profunda crispação provocada pelo azedume, pela arrogância e pelo autoritarismo da ministra Maria de Lurdes Rodrigues. É um acordo que é uma vitória para os professores, para a serenidade da vida escolar e, consequentemente, para a sociedade em geral. Ou seja, todos ficam a ganhar, exceptuando aqueles que, em virtude de alguma memória amargurada da escola (ou por uma razão paranormal desconhecida), descarregavam as suas frustrações e os seus complexos através da diabolização da classe docente.

Destaco algumas medidas que resultaram do acordo:

– o fim da divisão absolutamente artificial e injusta entre professores e professores titulares;

– o fim da obrigatoriedade de realização de um exame de acesso à docência para aqueles que já estão integrados na carreira  e que podem e devem efectuar formações complementares, numa lógica de estudos contínuos ao longo da vida, mas que não merecem que, muitos deles depois de anos de carreira, lhes seja posta em causa a sua competência profissional (seria colocar todo o sistema em causa, o que me parece não fazer grande sentido)

– a obrigatoriedade de, no caso de existirem aulas assistidas, o avaliador ser do mesmo grupo de docência que o avaliado. Só certas teorias pedagógicas completamente exotéricas e desfasadas da realidade podem defender, por exemplo, que um professor de Biologia possa avaliar outro de Matemática ou vice-versa, considerando, de forma ridícula, que a pedagogia é dissociável do conhecimento científico leccionado, desvalorizando naturalmente este último (nem todo o conhecimento é tão vazio de conteúdo e de interesse prático como nas dogmáticas “ciências” ocultas de onde vêm muitas vezes este tipo de ideias);

– apesar das dificuldades acrescidas no seu acesso (perfeitamente legítimas, em prol de uma avaliação verdadeiramente efectiva), nomeadamente no números de anos de serviço necessários, todos os professores avaliados com “Bom” poderão atingir o topo da carreira, o que é verdadeiramente justo. Ainda assim, o suposto sistema de vagas para estes atingirem certos escalões (5º e 7º) não é ainda muito claro e poderá ser bastante castrador dessa ascensão.

– o fim das cotas, absolutamente injustas numa avaliação qualitativa e não comparativa, para “Muito Bom” e “Excelente”;

– o fim dos ridículos objectivos individuais no início de cada processo de avaliação;

É lógico que ainda não é motivo para grandes euforias e para um descanso total, até porque não faltarão questões para discutir e  acertar (os concursos; o processo de avaliação propriamente dito, seguramente ainda com muitas arestas por limar; a questão da autonomia das escolas e da figura do director; o escandaloso aumento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano; a quantidade de questões burocráticas existentes na escola para promover o sucesso forçado e ilusório; etc) e porque muitas vezes este tipo de negociações e acordos sofrem retocessos surpreendentes, mas que é um importante passo para nos garantir algum optimismo para o futuro, isso é inquestionável

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7 respostas a Finalmente…

  1. paulo pereira diz:

    Comprovando, ao limite, que a governação de Socrates não passa, como sempre foi, de uma manipulação geral para manter poder, não estando nunca interessado no país em que vive, este acordo mostra também a capacidade dos sindicatos, “geridos” por profissionais de uma incompetência, diria, assustadora, lutarem pelos seus interesses, e dos seus pares, passando por cima de qualquer honestidade cívica, colocando-se ao nível do governo que tanto criticam…passo a explicar de uma forma muito breve:
    Os professores não são diferentes das outras profissões: a grande maioria chega apenas ao mediano da competência, logo, se fossem honestos, não estavam preocupados com o facto de existirem limites para progressão pois os bons são uma minoria. A sua preocupação deveria ser a de criarem uma avaliação que fosse justa (a anterior não era…mas a aínda mais anterior também não) e que tivesse em conta o seu esforço de ensinar, mas também os resultados do seu labor ( o conhecimento adquirido pelos seus alunos) e não querer apenas que seja um dos seus pares a realizar a avaliação e se apresentarem todos bons, muito bons e excelentes.
    Isto foi mesmo muito breve…pois há pano para muitas mangas neste tecido.

  2. João Torgal diz:

    Pois há pano para muitas mangas… mas muitos dos teus argumentos são facilmente desmontáveis.

    1. “não querer apenas que seja um dos seus pares a realizar a avaliação e se apresentarem todos bons, muito bons e excelentes”. Tal como muitos professores, também não sou de acordo que seja um dos pares a realizar a avaliação, mas espero ainda muito mais que não seja um medíocre inspector do ministério ou um pedagogo teórico, que nunca deu aulas na vida e que não faz a mínima ideia do que é a realidade escolar diária. Para mim os avaliadores deviam ser professores em final de carreira, com uma carreira prestigiada (não me venham com o discurso de que os novos professores têm novos métodos, mais inovadores e “cativantes”, que isso é tudo uma profunda treta), em conjunto com professores universitários com uma maior ligação ao ensino não superior.

    2. “e que tivesse em conta o seu esforço de ensinar, mas também os resultados do seu labor”. Cada vez mais me parece absurdo avaliar um professor em função dos resultados dos alunos. Por um lado, porque isso é um incentivo a que os professores dêem boas notas, mesmo que os alunos não saibam nada, indo de encontro à vontade do governo de ter o tal sucesso estatístico. Bem pelo contrário, cada vez mais considero que o bom professor é aquele que, fazendo o maior esforço para ensinar e ajudar os seus alunos e premiando o mérito e a dedicação dos alunos, é rigoroso e exigente em termos de avaliação (tento seguir a minha conduta por estas bases). Por outro, porque mesmo se houvesse um aumento dos exames nacionais e a avaliação dos professores incidisse nesses resultados, criaria profundas injustiças. Onde estaria a justiça em comparar, na mesma medida, resultados de alunos de uma escola num bairro social da Amadora, com uma realidade social e familiar complicadíssima, com uma escola na Foz do Porto, com miúdos oriundos de famílias ricas, com explicações a todas as disciplinas?

    3. Continuo a não ter dúvidas que, embora seja apenas uma pequena migalha na quantidade gigante de problemas que tem o nosso sistema educativo, este foi um bom acordo para a sociedade. Tal como continuo a achar que, colocando de parte os interesses corporativos dos sindicatos, quem tem tido uma posição mais firme em todo este processo e mais se preocupa com uma verdadeira educação de qualidade, com uma avaliação justa e com uma melhor formação dos alunos são os professores verdadeiramente competentes, capazes, dinâmicos e com uma visão alargada da realidade. Quanto aos outros, ou andam completamente apáticos e desinteressados com o que os rodeia, ou então adoram este sistema, pois a forma de avalição mais burocrática, mais administrativa e nas mãos dos colegas cúmplices é óptima para esconder as suas limitações científicas, intelectuais e/ou culturais.

  3. paulo pereira diz:

    Argumentos facilmente desmontáveis:
    1. Professores em final de carreira em conjunto com professores universitários: deixo apenas a referência de ver e ouvir Ken Robinson -TED no youtube
    2. Exames nacionais e notas finais lectivas terião de ser confrontadas. Continuo a não entender a existência de uma função que não deva ser avaliada pelos seus resultados, só mesmo mantendo a cabeça na areia: “eu sou muito bom, eles, os alunos, é que são burros/pobres/incultos…”. Só a avaliação dos conhecimentos adquiridos permite trabalhar para uma sociedade evoluida.
    3. Reforço: o modelo proposto era, em grande parte, errado. “quem tem tido uma posição mais firme em todo este processo e mais se preocupa com uma verdadeira educação de qualidade, com uma avaliação justa e com uma melhor formação dos alunos são os professores verdadeiramente competentes, capazes, dinâmicos e com uma visão alargada da realidade” eram os cerca de 100000 em manifestação????Achas mesmo, sem ser corporativista, que são assim tantos os tão bons?????
    Concluindo: Aínda bem que existem bons professores; aínda bem que esses são a minoria (caso contrário, eu e os outros é que eramos esquizofrénicos);espero que a classe docente seja capaz de autocrítica no futuro.

  4. João Torgal diz:

    1. Sem dúvida que o discurso de Ken Robinson tem certos aspectos interessantes e a promoção da criatividade, da liberdade de aprendizagem e do ensino individualizado serão certamente, em teoria, boas ideias (mais ainda no ensino superior, onde critiquei profundamente o excesso de importância da avaliação contínua implementado pelo diploma de Bolonha que, numa altura em que os alunos já devem ter um espírito autónomo que os permita decidir em consciência a forma e o método de aprender, castra bastante a liberdade de certos alunos o fazerem). No entanto, é preciso perceber o contexto prático da realidade. Por exemplo, em turmas do Ensino Básico com 20 e tal alunos, com comportamentos problemáticos, com alunos muito diferentes e, possivelmente, com casos com Necessidades Educativas Especiais, implementar um sistema individualizado é seguramente uma pura utopia. Por outro lado, é preciso perceber que vivemos num país onde existe uma profunda iliteracia, se não no sentido literal, pelo menos na perspectiva funcional e/ou cultural, e não num país nórdico, com uma população mais qualificada e com uma forma de estar na vida bem diferente. Descontextualizar tudo isto e defender, na forma de chavão e de pura propaganda demagógica, o progresso da educação através de métodos pedagógicos altamente inovadores, envolvendo estratégias de marketing como os computadores Magalhães ou os quadros interactivos, é apenas e só o que faz de modo simplista… um tal de “engenheiro” Sócrates. Para ouvirmos opiniões inteligentes, descomprometidas e bem fundamentadas sobre os problemas do sistema educativo português, sugiro os textos ou as entrevistas do Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa da Matemática.

    2. “Continuo a não entender a existência de uma função que não deva ser avaliada pelos seus resultados” Uma escola não é uma fábrica, em que se possa objectivamente avaliar se o trabalhador foi ou não eficaz na produção do seu trabalho. Existe uma coisa chamada imprevisibilidade da condição humana que faz com que a tarefa de ensinar dependa muito da vontade de ser ensinado por parte do aluno e também, naturalmente, do meio socio-familiar em que este está inserido. Uma boa experiência seria, caso fosse possível, trocar os professores de uma escola nos primeiros lugares do ranking de resultados com os de uma escola situada nos últimos postos dessa classificação. Quase que aposto que o ranking não iria sofrer alterações, o que mostraria desde logo como é preversa e injusta essa tua ideia.

    3. É lógico que nem todos os 100 000 professores que estavam na manifestação são excelentes profissionais (como em todas as classes, muitos agiram apenas de modo corporativista e com base no seu interesse individual). O que digo é que, sindicatos à parte, aqueles que, desde o início e com um profundo sentido crítico, espírito aberto e de modo profundamente fundamentado, combateram a atitude arrogante, falaciosa e dissimulada da política educativa do governo sócrates, são dos que mais se preocupam com a qualidade de ensino e com as suas competências científicas, pedagógicas e formativas. Quanto à autocrítica, essa não me falta. Ao ponto de dizer que existem muitos professores que, pelo seu excesso de zelo burocrático e pela sua lógica limitada e inculta, tiveram um ministério bem à sua medida, que, lá está, só os benefeiciou, premiando a mediocridade.

    • paulo pereira diz:

      Revela-se claramente que não temos a mesma opinião sobre a educação. Mas, para concluir esta saudavel discussão (pelo menos neste local), devo referir com “preocupação” uma postura um pouco “no umbigo!!”. Passo a explicar:
      1. “Necessidades Educativas Especiais” são, na sua maioria, desculpa para a incompetência ou para o desleixo (não são a mesma coisa) de professores. E nisto concordo com Ken Robinson. Fazer a defesa do “oito ou oitenta”, colando o oitenta ao “engenheiro”, não é justo nem honesto; podemos utilizar partes quando nos é impossivel aplicar o todo, mas dá trabalho. Ás vezes, só ouvindo opiniões inteligentes, descomprometidas e bem fundamentadas que não são as nossas é que conseguimos evoluir, mesmo que as possamos sentir erradas.
      2. Fico assustado por descobrir que só os professores, e talvez mais duas ou três profissões que tomo a liberdade de não enunciar, não trabalham em fábricas e que só eles se debatem com a “chamada imprevisibilidade da condição humana”.Eu trabalho com pessoas doentes que desejam que lhes acabe com as dores que sentem para que possam viver funcionalmente; sou avaliado pela quantidade do que faço e pela qualidade do que faço: quantas consigo tratar e em quanto tempo e com que efeito no tempo futuro – a isso se chamam resultados. Será porque não lido com a chamada imprevisibilidade da condição humana?
      3. “É lógico que nem todos os 100 000 professores que estavam na manifestação são excelentes profissionais”. Como seria incrivel que fossem muito bons ou bons!! Mas também não o são. Como não o são em nenhuma profissão, logo qual a preocupação das vagas? Só se for para progredirem os medianos e maus…

  5. João Torgal diz:

    Notas finais:

    1. “Necessidades Educativas Especiais” são, muitas vezes (maioria é perigoso), formas encontradas para passar alunos que têm dificuldades, mas não se esforçam minimamente para as superar. É triste, mas é verdade. Dificilmente seria uma solução para o desleixo dos professores porque este estatuto só nos dá mais trabalho, pois temos de implementar minimamente algumas condições especiais de avaliação e/ou conteúdos de aprendizagem específicos (algo que, muito provavelmente, não saberias).

    2. Por motivos óbvios, tal como discordo com a avaliação com base nos resultados no ensino, também discordo na saúde. É ver médicos só operarem alguns doentes, para que a sua estatística não saia prejudicada. Ainda assim, a diferença é que, apesar de tudo, na saúde os resultados são objectivos (enquanto na educação as notas são dadas pelos professores e um professor preverso pode oferecer notas boas só para ter “melhores resultados”) e, apesar do lado da força de vontade e do lado psiológico serem importantes na recuperação física, dependem muito menos da vontade do doente em melhorar do que da vontade do aluno em aprender

    3. Em duas coisas estamos de acordo
    – É preciso uma avaliação que separe realmente o trigo do joio e nem a anterior nem esta o fazem (até porque, na sua essência, não são muito diferentes)
    – Esta foi, de facto, apesar da “tua postura um pouco no umbigo”, uma discussão saudável 🙂

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