Kings of Convenience, Massive Attack e Dodos ao vivo…

Um ano depois, é o regresso do blog “A Mesa de Café”. Como nem sempre o provérbio “Ano Novo Vida Nova” se aplica, o meu primeiro post de 2010 é, como acontece frequentemente, um post musical sobre três concertos que vi em Lisboa nos últimos meses: Kings of Convenience, Massive Attack e Dodos. Três concertos em que, curiosamente, as respectivas expectativas iniciais e opiniões finais praticamente não coincidiram.

Kings of Convenience, 4 de Novembro, Coliseu dos Recreios

A música dos Kings of Convenience assenta essencialmente em guitarra acústica e harmonias vocais, num todo musical genericamente lento  e instrospectivo. A principal crítica que muitas vezes lhes é apontada é de , dentro do estilo, haver um escesso de semelhança entre as músicas, resultando cada disco demasiado monocórdico e com falta de um ecletismo que leve o tão característico som do duo até outros patamares.  Com base nestes pressupostos, seria de temer um concerto musicalmente interessante, mas demasiado morno e dormente, sem grandes rasgos de emoção e intensidade. PURO ENGANO. É certo que toda a sensibilidade intimista e melancólica está bem presente, como nos lindíssimos “I Don’t Know What Can I Save You From”, “24-25” e “Cayman Islands”. Mas, ao vivo, a banda transcende-se, quer na forma como os temas mais calmos ganham em emotividade, quer nos arranjos que enriquecem a maior parte das canções (exemplo paradigmático em “Singing Softly to me”, com incursão de Oye pelo piano), quer no sentido de espectáculo que os Kings of Convenience têm, bem assente na forma bem-disposta como comunicam com o público e nos apontamentos deliciosos de humor nerd de Erlend Oye. Num concerto que se dividiu entre o terceiro e último disco, Declaration of Dependence (talvez o mais consistente álbum da banda), e os dois anteriores, merece ainda todo o louvor a presença em palco, em parte do espectáculo, do contrabaixista italiano Berlolini e do óptimo violinista alemão Hett, que muito contribuiram para as óptimas interpretações de temas como “Stay Out of Trouble” (mais uma das muitas passagens por Riot on an Empty Street) ou “Boat Behind”. Depois do bem festivo e celebratório “I’ll Rather Dance With You”, com algum do público a dançar no palco, a pedido de Erlend Oye, um encore novamente mais lento e contemplativo, terminando com a já habitual interpretação de “Corcovado” de Tom Jobim. Em suma, um belíssimo concerto pautado por uma surpreendente diversidade musical.

Massive Attack, 15 de Novembro, Campo Pequeno

 A banda de Bristol, velha lenda do trip-hop, regressou a Portugal para duas datas em Lisboa, com vista a apresentar o mediano EP Spitting the Atom deste ano e o tão aguardado novo álbum a sair apenas em 2010, sucessor do injustamente mal-amado 100th Window (bastariam os temas com a maravilhosa voz de Sinead O’Connor para o disco valer a pena). Reconhecida por dar concertos de grande impacto sónico e sensorial, foi com grande expectativa que aguardei pelo concerto da banda britânica, expectativa esta que, de algum modo, saiu gorada, muito mais por culpa do local em que assisti ao espectáculo (numa parte relativamente lateral da bancada) e do público envolvente (mais interessada em beber uns finos e pôr a conversa em dia, do que prestar a devida atenção a esta grandiosa banda de culto) do que dos próprios Massive Attack. Apesar destas contingências que naturalmente distorcem a minha opinião, merecem destaque as óptimas interpretações de “Safe From Harm”, com a voz de Deborah Miller ou do incrível, hipnótico e profundamente envolvente “Angel”, com a voz do jamaicano e habitual colaborador da banda, Horace Andy. Realce também para “Hartcliff Star” e “Marrakesh”, dois belíssimos originais em perspectiva, com uma intensidade quase claustrofóbica, a fazer lembrar o disco “Mezzanine” (o mais visitado dos álbuns anteriores), em que os elementos electrónicos passaram a dividir o protagonismo com a força das guitarras. Em medida oposta, soa a passo em falso a interpretação de “Teardrop”, com os teclados estratosféricos e meio transcendentais a retirarem alguma da simplicidade emocional do tema e porque Elizabeth Frasier é insubstituível (por muito que a voz de Martina Topley Bird seja agradável, ela que foi a responsável por uma bem interessante primeira parte, entre o intimismo e a explosão, entre a música de cabaret e o experimentalismo noise). Num concerto em que o papel dos dois membros dos Massive Attack foi escassa, quer na comunicação com o público, quer no lado musical propriamente dito, com a principal preponderância a ficar a cargo dos músicos convidados, soaram a surpresa as mensagens projectadas no palco, pela alternância entre palavras de ordem interessantes, abordando questões como o medo, a tortura ou a liberdade, e frases fúteis referentes, pasme-se, ao futebol ou à socialite portugueses. Concluindo, pelos motivos anteriormente expostos, uma oportunidade semi-perdida para desfrutar em absoluto de todo o poder da música dos Massive Attack, no seu formato ao vivo.

Dodos, 15 de Dezembro, Santiago Alquimista

Depois do brilhante concerto de Dezembro de 2008 em Coimbra, com um entusiasmo e uma naturalidade próprios de quem encara este seu início de carreira de modo dedicado e apaixonado, foi com expectativa moderada que encarei este regresso dos Dodos a Portugal. Não só porque temia que se perdesse a frescura inicial, mas também porque, apesar de ser um bom disco, considero que o novo A Time to Die (menos experimental e enveredando por um caminho mais rock e mais linear do que o anterior) está uns bons furos abaixo da obra-prima Visiter, faltando-lhe os rasgos de magia e de diversidade do disco anterior. Mais uma vez, os meus receios iniciais não se confirmaram. Por um lado, porque estranhamente o concerto incidiu essencialmente em Visiter, começando, por exemplo, com “Paint the Rust” e terminando no segundo encore com a tripla inicial do disco e com “Park Song”. Por outro, não só os temas novos ganharam muito na sua passagem ao vivo, o que me impressionou logo desde o início do concerto (óptimas versões de “Longform” e do single “Fables”), mas também a frescura inicial foi substituída pelo maior enriquecimento dos temas, contribuindo para versões absolutamente brutais, como aconteceu com “Fools”, com destaque para os maravilhosos teclados etéreos iniciais a fazer lembrar, ainda que ao de leve, algumas texturas sonoras dos Sigur Ros, ou “The Season”, talvez juntamente com “Scontland’s Shame ” dos Mogwai o melhor momento que vi ao vivo este ano, numa recriação ultra-experimental, com direito a falsete a fazer lembrar Thom Yorke (só boas referências, portanto) e com o constraste perfeito entre a beleza arrepiante das partes mais lentas e melancólicas da canção e a parte mais arrojada em termos sonoros (brilhante). E, claro, o que continua a entusiasmar na banda é também o profundo sentido rítmico, com uma percussão brutal, a cargo não só de Logan Kroeber, mas também, em alguns momentos, do vibrafonista Keaton Snyder, agora perfeitamente integrado na banda, depois de no ano passado surgir apenas como colaborador. Em termos negativos, há apenas a apontar o facto do Santiago Alquimista (um belíssimo espaço, diga-se de passagem, com a particularidade muito curiosa de ter uma varanda superior à volta de todo o palco) estar apenas a meio gás e a reduzida qualidade do som (muito abafado e lo-fi), em particular nos primeiros momentos do concerto, o que se calhar terá motivado o longo atraso no seu início (depois da primeira parte da banda portuguesa 2001, a que não assisti). Resumindo, depois de o terem feito em 2008, os Dodos voltaram um ano depois a dar um dos concertos do ano em Portugal.

P.S. Como só agora estou a ouvir com atenção alguns álbuns importantes do ano passado, o meu balanço pessoal de 2009, em termos musicais, só será efectuado no final deste mês, início do mês que vem.

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Uma resposta a Kings of Convenience, Massive Attack e Dodos ao vivo…

  1. José Maria Pimentel diz:

    “Um ano depois”. Grande!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s