Cavaco: descascando a cebola ?

Todos esperávamos que o PR viesse “descascar a cebola”. A cebola das escutas, entenda-se. Mas, salvo para algumas pessoas – talvez as mesmas que sabem ler Kant em alemão ( e que não sejam alemãs) – , parece que não foi isso que aconteceu. Errada estava eu, pois, (o colega Zé tinha toda a razão em alertar-me para o vício) quando disse num post anterior que uma declaração de Cavaco na sequência das eleições de domingo seria como uma providência cautelar extemporânea: quando chegasse já não serviria para nada. O erro, de facto, não é um erro de timing: este mesmo discurso proferido no sábado pré-eleitoral serviria para o mesmo. Todos os portugueses pensavam que o PR se debruçaria, no seu discurso, sobre uma “cebola” e que tentaria “descacá-la”. Pois bem, Cavaco pegou em várias cebolas e algo me diz que não  descascou nenhuma.

No entanto, já estamos habituados a este secretismo “show-offico” do Presidente. O PS interrompeu as férias de Cavaco para que este viesse comentar o alegado envolvimento dos seus assessores na elaboração do programa de governo do PSD, e Cavaco interrompeu as férias dos portugueses para vir falar do estatuto jurídico-político dos Açores, num tom que deixava antever uma 3.ª invasão espanhola. Mas há uma diferença entre estas duas intervenções do presidente: na primeira – leia-se, a relativa ao estatuto dos Açores – o Presidente estava coberto de razão e só um PS autista para não o entender; na segunda, se estava, não foi possível ao português-médio perceber (pelo menos no que concerne a segunda parte do discurso) – grupo no qual cometo a ousadia de me incluir – o que é em si mesmo mau e desnecessário.

Sobre o discurso, tenho a dizer o seguinte: ao que parece,  para o presidente, há certos factos que ou têm relevância criminal ou não têm relevância nenhuma (o caso da alegada colaboração de acessores do PR na elaboração do programa do PSD), mas há outros cuja relevância (até ver) estritamente política já merece comentários (pessoais) de um órgão de soberania – as críticas do PS ao envolvimento desses assessores, os e-mails, a segurança das comunicações da Presidência da República… Uma tal concepção das coisas não parece correcta: julgo que há certos factos que não têm relevância criminal mas podem ter relevância política (muito embora aquela alegada colaboração não seja um deles) – e é bom que assim seja -, e que as leituras políticas que o PR faz de certos factos – para além de me interessarem tanto como as repercussões do hálito das vacas no ecossistema – devem ser comedidas. Estas, particularmente, porque podem ter relevância em termos criminais, não deveriam ser lançadas como “suspeições”, mas juntamente com um inquérito por parte da Procuradoria-Geral da República para, por exemplo, averiguar do acesso indevido aos computadores do Presidente. Espera-se do PR que ou dispare certeiro, ou não dispare: leituras políticas há em todos os blogues, não aparecem na televisão e não têm hora marcada.

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