Oito reflexões eleitorais, mas subjectivas

Embora concordando com grande parte das opiniões do Zé, deixo aqui algumas notas sobre a eleição de ontem, com o carácter de subjectividade sempre inerente a qualquer comentário político.

1. A grande vitória foi naturalmente do PP. É lógico que beneficiou muito da miserável campanha que o PSD fez, mas, ainda assim, muito se deve ao modo inteligente e ponderado como capitalizou esses votos e ao profundo tacto político que tem Paulo Portas. Numa era em que, infelizmente, cada vez mais conta a estratégia, o estilo, a forma e o carisma em vez das ideias e dos princípios, Portas aproveitou para exibir o seu estatuto de animal político e tirar proveito disso mesmo. Mas não só… valha a verdade que, numa campanha onde praticamente não se discutiu o estado do país e medidas concretas para a sua governabilidade, Portas foi dos que mais afirmativamente expôs as suas ideias e isso, mesmo não concordando ideologicamente com grande parte das suas posições, merece naturalmente o meu louvor.

2. A vitória do Partido do Sócrates foi magra (e não extraordinária). Sócrates (e o aparelho do PS por arrasto) , como estratega brilhante que é e com o seu sentido de total hipocrisia sem pudor, valias tipicas dos aldrabões mais inteligentes, bem tenta mostrar, repetindo a mesma ideia várias vezes, que se trata de uma vitória gigante, mas o certo é que não é verdade. Por um lado, porque foi uma vitória contra um adversário ultra desgastado,  que passou os últimos meses a mandar tiros nos pés. Por outro, porque objectivamente perdeu 8% dos votos relativamente à última eleição e a tão confortável maioria absoluta que lhe permitiu governar os últimos 4 anos e meio com uma postura arrogante e inflexível, sendo agora obrigado a fazer algo que tanto detesta: dialogar. E é preciso ter lata para, 3 meses depois de ter desvalorizado o sentido de voto das europeias como um cartão ao governo, agora traçar comparações com esse acto eleitoral, apresentando supostos índices de subida incríveis. É mesmo preciso muito descaramento.

3. O Bloco de Esquerda teve uma vitória importante, mas também sem motivos para grandes euforias. É certo que duplicou a sua representação parlamentar e que contribuiu para a retirada da maioria absoluta, mas não deixa de ficar um amargo de boca. Por um lado, porque fez uma campanha fraca, pelas contradições que não soube explicar, pela forma branda como tratou o PS (o que lhe custou muitos votos), depois de cinco anos de governação à direita, como centrou as suas critícas no PSD, quando dificilmente este ganharia as eleições, ou até pela forma como não aproveitou o debate com Jerónimo para se demarcar da lógica mais rígida do PCP. Por outro, pela questão do PP, mas não, ao invés do que dizem os analistas políticas, pelo facto de não ter sido a 3ª força política. Como são dois partidos que não disputam eleitorado, considero este dado absolutamente irrelevante (alguém tem dúvidas que é melhor para o Bloco que o PP tenha 10,5 % e o PSD 29,6 do que o PP ter 9% e o PSD 33%?). O que incomodará certamente o Bloco é a diferença indirecta e gigante que isso proporcionou, ou seja, o facto de PS e PP terem maioria absoluta dos deputados, o que já não acontece com PS e Bloco. Isso sim, é um dado muito relevante em termos políticos e que, infelizmente, diminui muito a vitória do Bloco.

4. Na medida oposta, o grande derrotado da noite foi logicamente o PSD e essencialmente Manuela Ferreira Leite e os seus mais próximos colaboradores. Depois de quase cinco anos polémicos de governação socrática, com uma política mais que discutível em diversas áreas, termos uma campanha em que o assunto principal  são as gaffes, os erros ou a falta de preparação política e de carisma de Ferreira Leite é algo absolutamente inacreditável. Poderá haver alguma responsabilidade desse facto na sede sensacionalista dos media e no caso das escutas, mas o principal motivo prende-se seguramente com a completa e total falta de habilidade política de MFL, com a forma como cedeu a todas as pressões do aparelho partidário ou com as suas incoerências tão agravadas pela sua pseudo-postura de credibilidade, a que se acrescenta para o seu insucesso a memória, para alguns, dos tempos mais negros do cavaquismo. A derrota é tanto maior quanto se percebe facilmente que bastaria um candidato médio para ganhar a Socrates, como me parece que teria acontecido com Paulo Rangel (embora com low profile, o valor mais seguro a surgir no PSD nos últimos anos) ou até com… Marques Mendes. Não fosse o PSD um manto de retalhos e traições, em que as várias facções com muito mais de oportunismo do que ideologia se degladiam pelo poder a todo o custo, e Marques Mendes, construindo o seu caminho, seria agora o novo primeiro-ministro português;

5. Na mesma medida que Ferreira Leite, o outro grande derrotado da noite é naturalmente Aníbal Cavaco Silva. Depois de dois anos em ambiente de total cooperação e simpatia com Sócrates (em que se começava a perspectivar a reeleição com o apoio implícito do PS) , Cavaco decidiu, a partir do momento em que Manuel Ferreira Leite chegou à liderança, tomar uma postura diferente, colocando entraves e vetos ao governo de Sócrates, ou fazendo críticas pontuais mas cirúrgicas, como que esticando uma espécie de passadeira vermelha para a sua discípula. Para culminar tudo isto, o lamentável episódio das escutas, que não só não molestou muito a imagem de Sócrates, como contribuiu para afastar a campanha da discussão dos erros do governo “socialista”. Balanço: uma indirecta mas pesada derrota política, a sua imagem francamente manchada e, depois de tudo isto, a reeleição em risco.

6. Derrotado à posteriori, parece estar condenado Manuel Alegre e toda a ala mais à esquerda do PS que se vendeu a Sócrates nesta eleição. Por oportunismo ou por pura ingenuidade, certo é que foi uma verdadeira vergonha a atitude demonstrada por essa facção. Se foi por ingenuidade, por ainda acreditarem em alguma réstia de idealismo de esquerda da actual direcção por PS, será uma derrota clara quando começarem os entendimentos com o PP. Não acredito que Sócrates tenha a coragem para avançar para uma solução governativa conjunta, mas quando se tratarem de questões pontuais, não tenho dúvidas que será com Portas que os entendimentos serão mais fáceis. Resta a curiosidade de saber quais os “mabalarismos” de retórica com que Sócrates explicará essas parcerias sistemáticas, depois de nesta campanha ter falado do bicho papão da direita. Se foi por oportunismo, talvez a derrota venha quando as pessoas de esquerda não se mobilizarem para a nova candidatura presidencial de Alegre ou quando simplesmente Sócrates, em mais um manobra política, lhe retirar o apoio e escolher outro candidato mais do seu agrado. Da minha parte, que participei activamente na campanha de Alegre de 2006 e que, desde aí,  defendi sistematicamente as suas posições,  manifesto o meu profundo desencanto pela sua miserável posição tomada nesta campanha e tenho muitas dúvidas se sequer votarei nele enquanto candidato presidencial (mesmo tendo o indescritível Professor Cavaco como adversário)

7. Nem vitoriosa, nem derrotada, saiu a CDU destas eleições. É certo que ganhou votos e um deputado e que não vai haver maioria absoluta, mas estagnou um crescimento patenteado nos últimos actos eleitorais e o efeito mobilizador e de simpatia introduzido no PCP por Jerónimo de Sousa.

8. As elevadas percentagens de abstenção (cerca de 40%) e de votos brancos e nulos (3,6%) foram dados estranhamente subvalorizados. Em particular o segundo caso, que me merece bastante mais respeito do que o primeiro, deveria, numa eleição com um leque de escolhas partidárias supostamente tão diverso e num momento tão importante do país, fazer reflectir todos os dirigentes partidários para o estado do nosso sistema democrático;

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3 respostas a Oito reflexões eleitorais, mas subjectivas

  1. Paulo Pereira diz:

    Devo chamar a atenção de:
    o PP cresce muito com a convicção de que o PSD não ía ganhar; sempre existiu voto útil no PSD por parte de eleitores naturais do PP. Isto leva-nos a um crescimento do PSD, apesar de insuficiente.
    a CDU perde: sim, aumentou votos e mandatos, mas se dependesse dela o PS teria maioria absoluta
    o BE perde: não foi a 3ª força politica (é o que acontece a quem se mete a dizer que deduções fiscais com a saúde são injustas_ quem gasta(por que pode) o seu dinheiro em privados, está a libertar recursos no publico para atender melhor quem não pode pagar ou opta por essa solução)
    o PS perde “a confiança que o povo deposita” neles: 9% de confiança
    Portugal perde por não ser um país democrático em que todos os votos contam, mesmo quem vota nulo ou branco

  2. Arrastão diz:

    Desculpem o abuso. Mas só para informar que o Arrastão está a fazer um inquérito às intensões de voto nas próximas autárquicas em 38 concelhos. Coimbra é um deles. Se quiserem ajudar a divulgar… Obrigado.

  3. Pingback: A perversa candidatura presidencial de Alegre « A Mesa de Café

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