Festival Paredes de Coura 2009 (para contrariar a silly season II)

NOTA INICIAL: Ao contrário do que acontece com a música étnica (ou música do mundo, como é vulgarmente denominada), que tem merecido uma atenção bastante especial da minha parte, as lingugens mais rock e seus derivados têm estado em relativo segundo plano na minha audição musical. Assim sendo, os comentários que farei sobre a edição deste ano do Festival Paredes de Coura são bastante mais informais, menos aprofundados e subjectivos do que os que têm sido apresentados a propósito dos festivais de World Music. Para comentários mais objectivos e avalizados, consultar brevemente os comentários dos repórteres RUC Inês Rodrigues e Diogo Santos nos blogs:

http://www.fahrenheitruc.blogspot.com/

ou       http://spinruc.blogspot.com/


Para quem, como eu, assistiu pela primeira vez ao festival do Paredes de Coura, que decorre anualmente na praia fluvial do Tabuão, é quase impossível não ficar completamente deleitado com o espaço que envolve o palco principal do festival. No fundo de uma colina em que o verde das árvores e da relva sobressai descaradamente, na forma de um verdadeiro anfiteatro natural (expressão habitualmente usada para caracterizar o espaço e que o descreve na perfeição), ergue-se um palco em que os ritmos próximos do rock contrastam muito bem com a bucolia do espaço.

Em relação ao cartaz do festival, é certo que este era bem menos apetecível do que em algumas edições anteriores, mas, ainda assim, tive o prazer de assistir a concertos bem interessantes, com algumas surpresas pelo meio, como se pode verificar daqui em diante.

29 de Julho, dia 0 do festival


Neste dia os concertos decorreram apenas no palco secundário. Coube aos portugueses Sean Riley & the Slowriders a abertura do festival, com a sua mistura do rock com elementos country e blues. Estando bem longe de ser um fã da banda, realço ainda assim a surpresa positiva da actuação da banda ao vivo, com partes instrumentais muito interessantes, prejudicadas, quanto a mim, pela forma excessivamente monocórdica e marcante como o próprio Sean Riley vocaliza os temas. Problema semelhante têm os americanos Strange Ones, com a voz quase infantil do frontman da banda a marcar demasiado a música do grupo. Com menos country e blues do que os seus antecessores e com um som mais directo, o destaque vai todo para o ritmo e a cadência do baterista, verdadeiramente incrível. O cabeça de cartaz era contudo Patrick Wolf. Apesar de ter visto o concerto bem longe do palco, pareceu-me que, com a sua extravagância e o seu ecletismo que vai da pop mais rendilhada ao rock, passando por elementos electrónicos, se tratou de uma demonstração efectiva da valia musical do irlandês. Para fechar a noite, Bons Rapazes, o que significa Miguel Quintão e Álvaro Costa, com a sonoridade relativamente monocórdica introduzida pelo primeiro (uma praga do festival, como se pode ler mais à frente) a ter apenas a colaboração do segundo ao nível das coreografias e da interacção com o público, usando e abusando das suas qualidades de comunicador.

30 de Julho, dia 1 do festival

A noite abriu com os Temper Trap e The Pains of Being Pure at Heart, concertos a que não assisti. Seguiram-se os londrinos The Horrors, com um som muito forte (demasiado ruidoso para mim), com a distorção das guitarras em profundo destaque, e com alguns resquícios de influência pos-punk, fazendo lembrar em momentos ínfimos alguns pormenores dos Echo & the Bunnymen. Seguiram-se os Supergrass, banda britânica de destaque dos anos 90. Actuando pela primeira vez em Portugal, a banda foi para muitos uma espécie de nostalgia adolescente. Com passagem por alguns dos temas mais conhecidos da banda (a excepção terá sido “Allright”) e também por uma versão de “Sunday Morning” dos Velvet Underground, a banda britânica fez-nos por momentos acreditar que a britpop 90’s está ainda viva em 2009. Para fechar a noite no palco principal, o concerto do festival, o dos Franz Ferdinand. Depois do fiasco técnico do concerto do Sudoeste 2008, que levou à sua interrupção por 2 ou 3 vezes, a banda escocesa mostrou aqui como é mestre em ter o público na mão desde o primeiro instante, com o viciante “Darks of the Matinee” a ter as honras de começo. Alternando entre singles ou candidatos a singles e temas menos conhecidos para a maioria, provenientes do último disco, Tonight: Franz Ferdinand, deram uma verdadeira festa e mostraram em alguns momentos a crescente complexidade da banda, como nos devarios electrónicos do recente “Lucid Dreams”, que encerrou em grande este óptimo concerto.

31 de Julho, dia 2 do festival


Depois dos portugueses Mundo Cão que não vi, subiram a palco os Portugal the Man, surpreendentemente, dado o nome, vindos do Alaska. Com um som rock relativamente calmo, com alguns toques de blues e harmonias vocais cheias de musicalidade e expressividade, a banda americana foi uma das boas surpresas do festival. Seguiram-se os bem mais abrasivos Blood Red Shoes. Funcionando na linha inversa dos White Stripes, com a guitarra e a voz principal a estar a cargo de Laura Mary Carter e a bateria da responsabilidade de Steven Ansell, a banda britânica deu um concerto f0rte em termos sonoros e cheio de atitude, mas a que falta um pouco de diversidade e critatividade para que fosse ainda melhor do que efectivamente foi. O penúltimo concerto da noite (se é que se pode chamar assim…) foi da americana Peaches. Mais do que um concerto foi, de facto, uma verdadeira performance. Com a sua reconhecida ousadia, a sua postura muito teatral e os seus adereços visuais, Peaches deu um brilhante espectáculo, mesmo para quem, como eu, despreza muito a sua música em disco, assente numa espécie de electro-rock visceral de virtudes bastante duvidosas. Para fechar a noite, aquele que era para muitos o mais aguardado concerto do festival, o dos Nine Inch Nails. Odeio o rock industrial e  como tal, mesmo admirando o trabalho desta mítica banda, é para mim bastante complicado falar de algo de que não gosto nada. Foi um concerto extremamente explosivo, a que se acrescenta uma componente visual muito forte, e que terá seguramente agradado aos fãs, rendidos à partida. Depois da tempestade a bonança, com a emotividade de “Hurt” a fechar o espectáculo dos cabeças de cartaz da noite.

1 de Agosto, dia 3 do festival


A noite iniciou-se com o mais novo projecto do ex-Ornatos Violeta Manuel Cruz, ou seja, Foge Foge Bandido. O formato mais intimista e acústico com que o músico incorpora o seu habitual talento na escrita de canções fazem querer não ser este o espaço mais indicado para ouvirmos a sua música ao vivo. Ainda assim, chamou muita gente ao recinto logo ao final da tarde, o que mostra o profundo reconhecimento público do músico. Seguiu-se o garage rock dos espanhois Right Ons, com claras influencias num passado que remontará aos anos 60 ou 70 do século XX. Concerto interessante, até pela alma e atitude dos músicos, mas falta aqui mais versatilidade e ecletismo. Seguiu-se mais uma boa surpresa do festival, os australianos Howling Bells. O seu som pode não ser particularmente inovador, pois praticam um rock simples, bastante melodioso e polido. No entanto, despertou em mim algum sentido emocional, em particular nos momentos em que a percussão é mais forte, como aconteceu no óptimo último tema. Depois dos Supergrass no dia 1, toucou neste último dia mais um nome forte da pop britânica dos anos 90: o mítico ex-líder dos Pulp, Jarvis Cocker. Agora a solo, o músico poderá não ter nos seus discos a classe que tinha nos Pulp (Jarvis,o disco que conheço, é para mim apenas médio), mas o seu estatuto de profundo performer nerd e de comunicador com o público elevam o concerto a patamares de interesse inquestionáveis. Por falar em performers, que dizer dos Hives, que fecharam o palco principal. Não desprezo tanto em disco a sua música como a da Peaches, mas é algo que não ligo muito. Contudo, graças ao estatuto de animais de palco dos seus membros, à postura narcisista encenada pelo vocalista, com um humor muito peculiar, e à respectiva sonoridade rock muito directa a banda sueca acaba por dar um  espectáculo bastante divertido e com uma dinâmica incrível.

Palco Secundário:

Após os concertos no palco principal iniciava-se a acção no palco secundário, com um concerto e um DJ set. Não assisti a nenhum dos concertos deste palco: Chew Lips, Kap Bambino e Sizo, respectivamente pela ordem dos dias. Quanto aos DJ sets, que dizer? É no mínimo estranho e revoltante que, num festival em que o rock está no centro claro da escolha programática, os sets sejam essencialmente assentes em… house e ritmos electrónicos pesados e minimais, em que mesmo os temas mais pop ou rock que são passados, rodam quase sempre na forma de remisturas que frequentemente assassinam os originais. Seguramente, um dos pontos mais negativos do festival.

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