Rodrigo Leão – A Mãe

O brilhante compositor português Rodrigo Leão regressou no mês passado aos lançamentos discográficos, com este A Mãe. Depois de nos primeiros trabalhos (Ave Mundi Luminar, Theatrum e, embora já com alguma mudança, Alma Mater – todos eles maravilhosos) o músico se ter dedicado a uma sonoridade mais clássica, mais erudita, Cinema marcou uma inflexão na sua carreira, começando a apostar mais no formato canção, demonstrativo do horizonte diverso da sua música. A Mãe mantém os pressuspostos do disco anterior (pelo meio houve ainda Portugal, um Retrato Social, acompanhamento sonoro do documentário homónimo da RTP, logo com contornos um pouco distintos), mas fá-lo com um nível de elevação ainda mais apurado.

Juntando-se a alguns músicos muito talentosos com que havia trabalhado no disco anterior (o brilhantismo de, por exemplo, a acordeonista Celina da Piedade ou a violinista Viviena Tupikova não engana), cujo colectivo designou precisamente de Cinema Ensemble, e com o preciosismo habitual dos arranjos e da produção, estamos perante uma obra maior. A acompanhar esse lado sonoro está  uma dimensão profundamente cinematográfica e visual (estão à espera de quê para o convidar para fazer bandas-sonoras?), característica sempre presente na sua música, enchendo a nossa memória de paisagens tão melancólicas e bucólicas, como belas e magistrais. Os instrumentais são bons, como sempre, mas merecem maior ênfase os temas com voz, na tal lógica de formato canção de que Leão se aproximou nos últimos anos. Ana Vieira ganhou o seu espaço como vocalista na maior parte dos temas e, com o seu timbre muito peculiar (não é  bem de fado, não é bem lírico, é apenas algo especial), é pedra essencial neste disco. Por outro lado, depois de Adriana Calcanhoto e Lula Pena em Alma Mater e Rosa Passos e Beth Gibbons dos Portishead no Cinema, este disco conta com os préstimos  do argentino Daniel Melingo e dos britânicos  Neil Hannon dos Divine Comedy e Stuart Staples dos Tindersticks, o que mostra a valorização internacional da qualidade musical de Rodrigo Leão. Destaque maior para a perfeição pop de “Cathy” com Neil Hannon, provavelmente o tema mais maravilhoso que ouvi este ano, de uma beleza arrebatadora, aplicando-se que nem uma luva a frase que referi há uns dias sobre a música de Yann Tiersen: “A prova de como música tão simples pode ser tão bonita”.

Em suma, mais um disco para demonstrar algo que é para mim absolutamente óbvio: Rodrigo Leão não é apenas o maior compositor português da actualidade, é seguramente um dos grandes nomes do momento da música à escala mundial.

Como não consegui arranjar o “Cathy” em formato vídeo para colocar aqui, fica este “A Vida tão Estranha”, tema de apresentação do disco:

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Uma resposta a Rodrigo Leão – A Mãe

  1. Paulo Pereira diz:

    …pois!!
    Infelizmente, continua a fazer músicas/canções ligeiras!….Vendo-se, aqui e ali, do que ele é capaz de fazer excepcionalmente…emoções!!!

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