Festival MED Loulé

NOTA INICIAL: Este texto resulta do acompanhamento que o Artesanato Sonoro, programa de músicas do Mundo da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), fez no Festival MED Loulé e foi escrito por mim e pelo meu camarada de programa José Bernardo Monteiro. Para mais informações sobre os festivais de world e outros eventos do género, alinhamentos do programa e podcasts, consultar http://www.artesanatosonororuc.blogspot.com

Festival MED Loulé 2009

A sexta edição do festival MED de Loulé decorreu entre 24 e 28 de Junho. O Artesanato Sonoro cobriu o evento nos dias 26,27 e 28. Num festival que tem crescido de ano para ano, os cabeças-de-cartaz actuaram nos palcos da Cerca e da Matriz, os dois principais – num total de seis. Destaque para a presença de nomes como Orquestra Buena Vista Social Club , Kimmo Pohjonen, Justin Adams&Juldeh Camara, La Notte Della Taranta feat. Stewart Copeland e Rokia Traoré.
Realce para o facto dos dias do festival terminarem relativamente cedo (as últimas actuações terminaram cerca das 2 da manhã na Sexta e no Domingo, um pouco mais tarde no Sábado) e para a ausência de grandes momentos mortos, existindo mesmo vários concertos a decorrerem em simultâneo. Se por um lado garante um leque forte de alternativas diversas ao espectador, por outro obriga-nos a fazer algumas escolhas discutíveis, abdicando de alguns concertos (casos de DJ Click, Mutenrohi ou Filipa Pais) e/ou a não desfrutar convenientemente de outros (Hristov, Pitingo, Camané ou Lura). São as vicissitudes de uma vasta oferta, mas, em todo o caso, é algo que poderia eventualmente ser melhor articulado no futuro.
Por outro lado, para quem pela primeira vez se desloca ao festival, é uma grande surpresa o tipo de local em que se realiza o certame: em vez de um recinto destinado a concertos ou preparado propositadamente para o festival, o espectador depara-se com um espaço situado no coração da cidade de Loulé, enquadrado em pleno centro histórico e contendo as suas ruas típicas, com uma dimensão grande e rústica, onde cabem 6 palcos musicais, bares e restauração diversa, com condimentos de diferentes paragens geográficas, espaços para os mais novos ou comércio de cariz tradicional. Concluíndo, um espaço acolhedor e ideal para receber um festival deste tipo e que contou nas noites que presenciámos com milhares de espectadores (6 ou 7 mil, pelos números que se foram ouvindo), o que mostra bem o crescente entusiasmo que as músicas do Mundo têm gerado em Portugal, algo que naturalmente nos deixa bastante satisfeitos.

Sexta-feira,26


Hristov

Este trio, com secção instrumental a cargo de clarinete, acordeão e bateria, foi seguramente uma das boas surpresas deste MED. Com uma sonoridade bastante dançável, assente na paixão pela música klezmer e do leste europeu, os Hristov contagiaram o pouco público presente. Pena foi que, em função da proximidade do concerto da Orquestra Buena Vista Social Club, não tivéssemos assistido ao concerto na íntegra. Em todo o caso, fica a curiosidade em conhecer melhor este projecto búlgaro.

Orquestra do Buena Vista Social Club

Era seguramente um dos concertos mais aguardados da noite e de todo o festival e, para quem não está muito familiarizado com os ritmos cubanos, terá saído porventura maravilhado com o poder mágico de estilos como a rumba ou a salsa. Para nós, que conhecemos o trabalho notável que Ry Cooder impulsionou com os Buena Vista e alguma obra de elementos como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo ou Ruben Gonzales , soube a pouco. Com uma formação naturalmente desfalcada (grande parte dos membros já faleceram), com uns arranjos demasiado extravagantes e com um jovem vocalista com um protagonismo excessivo, na forma de um questionável enternainer, só não foi uma grande decepção, porque a nossa expectativa, em função da realidade actual do projecto, já era relativamente reduzida. Valeu o facto de ver ao vivo Guajiro Mirabal e, essencialmente, o grande Barbarito Torres, que deu brilho a uma morna actuação.

Pitingo

Pitingo é um jovem espanhol, nascido em Huelva e que decidiu misturar a linguagem tradicional do flamengo, com o soul ou o r’n’b. Com contornos claramente pop, a sua fusão enquadra-se na lógica mais easy listening do panorama world music, resultando num som de qualidade pouco consensual. Num concerto com alguns problemas técnicos, a proliferação de propostas musicais e de sabores gastronómicos diversos no recinto, im pediu-nos de ver grande parte do concerto e de ter uma opinião mais fundamentada.

Sábado,27


Siba e a Fuloresta

Foi, para nós, o concerto revelação do festival. Não tínhamos visto Siba a actuar na última edição do FMM de Sines. Desta vez, chegámos a tempo de ver o concerto e de perceber que Siba é único no panorama musical brasileiro. Sérgio Veloso, ex elemento de Mestre Ambrósio, foi um dos principais dinamizadores da noite. As suas letras, sempre críticas e cheias de humor, foram magnificamente acompanhadas, por detrás da “fuloresta”, pelo espectáculo sonoro e visual dos ritmos dos sopros e das percussões. A modernização do repertório nordestino passa por homens como Siba. Ainda bem…

Camané

Camané é uma das melhores vozes do fado. Acompanhado por músicos virtuosos (o próprio Camané fez questão de o dizer durante o concerto), Camané atraiu muito público ao palco da Matriz e cantou alguns clássicos do imaginário colectivo. Merece toda a projecção que tem.

Lura

Na mesma linhagem de cantoras como Sara Tavares ou Mayra Andrade, Lura é mais uma das novas vozes da música de Ca bo Verde, confluindo na sua música os ritmos tradicionais das suas origens africanas e uma perspectiva profundamente ocidental. No MED, Lura mostrou o lado pop da música cabo-verdiana, num concerto aparentemente interessante e com muito ritmo, mas sem deslumbrar.

Justin Adams&Juldeh Camara

Não é preciso grande sensibilidade musical para perceber que a colaboração entre Justin Adams e Juldeh Camara resulta de uma forma quase perfeita (a aproximação ao blues da guitarra de Justin ajusta-se, na medida exacta, ao som do riti de Juldeh, um instrumento de uma corda feito a partir de uma cabaça). Em concerto – um ano depois de em Sines terem incendiado o palco do Castelo – a colaboração ganhou ainda mais força, provavelmente porque “Tell No Lies” , álbum saído em Maio deste ano, lhes tenha dado ainda mais confiança, tal a quantidade de boas críticas que recebeu. A percussão de Salah Dawson Miller marcou o concerto pela elegância que acrescentou aos ritmos dos principais protagonistas. Salah é uma figura mítica, um misto de um druida e de um sultão casamenteiro. O palco da matriz conheceu o seu momento de glória no momento em que os três músicos o pisaram.

Domingo,28

Eduardo Ramos

Mais do que um músico, Eduardo Ramos é um musicólogo, um investigador que explora caminhos da música medieval, das influências árabes e judias. E é um místico e isso nota-se na forma espiritual que interpreta os temas, na alma que emprega ao alaúde árabe, seguramente um dos poucos portugueses a tocá-lo. Foi, contudo, um cenário pouco apropriado à sua música, o espaço Bica do MED, com as pessoas a jantar perto do palco, música que se adequa claramente melhor a um contexto mais introspectivo e silencioso.

Rokia Traore

Depois de ter dado um dos grandiosos concertos do FMM 2008, a maliana Rokia Traore regressou a um festival português, já depois de ter estado em Lisboa e no Porto em Maio passado. Ainda na calha, trouxe o sue último disco, “Tchamantché” de 2008, servindo de base para mais um excelente concerto. Rokia encheu o palco com a sua grande presença, contou com a colaboração de óptimos músicos e alternou momentos mais intimistas com outros mais explosivos. Destaque para o discurso activista antes de “Tounka”, tema que alerta para os perigos da emigração africana, e, claro, para o fabuloso medley final, em que, de um modo irresistivelmente dançável, deu, por exemplo, para apresentar os músicos ou homenagear Fela Kuti ou Mirian Makeba. Brilhante.

Stewart Copeland & La Notte della Taranta

O soundcheck prometia um grande concerto. A combinação entre os sons tradicionais italianos e gregos com o poder da percussão, com Stewart Copeland, ex-baterista dos Police e mentor deste projecto, à cabeça, antevia algo de avassalador. O concerto apenas em parte cumpriu as expectativas do ensaio da tarde. Alternando momentos muito interessantes e cheios de ritmo (destaque, já na parte final, para um tema brutal, só com percussão e harmonias vocais), com arranjos de gosto duvidoso, o colectivo teve uma performance prejudicada por questões técnicas que ignoraram alguns instrumentos (o acordeão, por exemplo, era praticamente inaudível) e também, em alguns momentos, pelo excesso de elementos e de sons em palco, criando alguma sensação de caos.

Kimmo Pohjonen

Este grande senhor finlandês é capaz de combinar as tonalidades tão próprias do seu acordeão com sons muito distintos. No currículo de Kimmo estão já presentes as fusões com as programações electrónicas de Samuli Kosminen, com o som mais explosivo e mais rock de Pat Mastelotto e Trey Gunn dos King Crimson (KTU) ou com o som mais harmonioso das cordas dos Kronos Quartet (“Uniko”). Embora sem a presença deste colectivo norte-americano, foi este último espectáculo que Kimmo apresentou em Loulé, igualmente com um quarteto de cordas constituído por três violinos e um violoncelo. Com um som mais hipnótico do que propriamente doce ou cândido, o carácter mais melódico das cordas juntou-se ao habitual imaginário visceral que o finlandês consegue retirar do seu acordeão, às suas breves vocalizações quase tribais e à presença frequente da electrónica, num resultado final verdadeiramente arrebatador. Concerto perfeito para fechar da melhor maneira o MED, com o público totalmente rendido à magia musical vinda do palco.

Textos de João Torgal e José Bernardo

P.S. Este texto substitui a minha habitual crónica de Domingo que, por me encontrar no festival, não pôde ser efectuada.

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Uma resposta a Festival MED Loulé

  1. António P. Neto diz:

    Excelente reportagem, como já vem sendo hábito, aliás…

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