Pensar Portugal. Desorganizadamente, claro!

Somos um país deveras curioso, de contrastes. Os nossos 900 anos de história, por exemplo, são suficientes para fazer parecer os EUA um Estado recentíssimo. E, contudo, sejamos francos: que fizemos nós durante o tempo que cá andámos? Os descobrimentos foram, sem dúvida, o grande marco. O único grande marco, sem pretender exagerar. Demos, sem dúvida, o primeiro e mais importante passo rumo ao mundo que conhecemos hoje. Ficaremos, por isso, na história da humanidade, e com um lugar importante. Mas cinjamo-nos aos factos que, numa visão menos romântica, mais interessam. Mesmo no apogeu do nosso império, nunca fomos a maior potência mundial. Nem, arrisco dizer, a segunda maior. Quando nós nos dedicávamos ao mar, os grandes países europeus (França, Inglaterra e o Império espanhol) não o fizeram por falta de visão, sim, mas também por terem um papel preponderante na, à época, acesa disputa de poder intra-europeia, na qual Portugal, simplesmente, não riscava. Para além disso, o país que mais lucrou com os descobrimentos portugueses não foi o seu patrocinador, mas sim a Holanda (Flandres). Era este país (se é que, na altura, podia assim ser chamado) que tinha capacidade para escoar os produtos que nós trazíamos de longe. Amesterdão era o porto central, Lisboa apenas o intermediário.

Hoje, em 2009, cá estamos nós, uma espécie de Académica da primeira liga dos países, nunca descendo mas sem nunca alcançar um lugar de relevo. Todos os anos engendrando planos, invariavelmente de curto prazo e revertidos pelo treinador do ano seguinte. E, o mais curioso, é que não parecemos tristes com tal fim. Nunca nos desenvolvemos, mas também, em boa verdade, nunca quisemos. Houve, sim, um ou outro maluco com derivas pragmáticas, mas o pessimismo e facilitismo nacionais sempre os coarctaram.

A isso junta-se uma peculiar relação pai-filho teenager entre o cidadão e o estado. Um pai ao mesmo tempo irresponsável e permissivo e um filho pré-adolescente preguiçoso que vive exigindo mais regalias em troca de nada. Para além disto, o filho imberbe nutre pelo progenitor o típico ódiozinho que qualquer filho desenvolve, na puberdade, pelos pais. É enternecedor assistir ao modo como nós adoramos, por exemplo, odiar os políticos, mais precisamente, os primeiros-ministros. Não se trata (só) de oposição ou de discordância com as políticas do governo. Trata-se, por e simplesmente, de ódio pessoal. Cavaco era verdadeiramente odiado no final da sua década. Guterres, que era um pai mais porreiraço, sempre pronto a dar uma playstation ao filho, era-o em menor grau. Durão Barroso e o seu famigerado sucessor também não escaparam à ira nacional. Pinto de Sousa, finalmente, foi tão longe que consegue já ser tão odiado como Cavaco. E depois é ver os comentários, o asco com que o filho olha e fala do pai. É ver – e isto é o mais hilariante – aquelas pessoas que sublimam as frustrações pessoais inventando e/ou fazendo passar torrentes de emails com piadas, geralmente fracas, sobre “o nosso primeiro”.

No meio disto, reina o nacional-porreirismo. O mérito não existe e qualquer tipo de punição não passa de uma miragem. É uma mistura fatal em termos económicos. O país pouco progride e beneficia apenas de estar colado à Europa.

Mas, sejamos honestos, é dramático? Não temos nem teremos nunca a riqueza dos países nórdicos, é certo, e viveremos sempre a contar os tostões. Mas temos sol, temos bom tempo, boa comida e segurança, podemos ir à praia durante o Verão e beber minis ao ar livre durante quase todo o ano! Alguém deseja, verdadeiramente, trocar com um islandês? (ou, melhor dizendo, desejava). Sinceramente, não me parece.

Mas…e quanto a trocar com um espanhol? Talvez aqui a resposta seja diferente. De um modo assumida e radicalmente simplista, há uma coisa que devemos e podemos melhorar. Basta olhar para o nosso país vizinho, terra natal de João Torgal. Falta-nos, algo crucial que os espanhóis têm: patriotismo (não nacionalismo). Em Portugal o interesse pessoal está sempre à frente, bem à frente, do país. É assim na política, é assim nas empresas, é assim, até, nas escolas! Portugal interessa-nos pouco, à parte de futebóis. O que é, de certo modo, compreensível. O futebol é o único campo em nos vemos, de algum modo, ameaçados. Quanto ao resto, estamos longe da Europa, já não há guerras, a pessoa sofre um pouco mas “vai andando” (típica expressão tuga, aliás).

“Um dia a seguir ao outro, uma semana a seguir à outra, um mês a seguir ao outro, um ano…” como discorria uma telespectadora intervindo num destes programas de opinião pública, antes de ser oportunamente travada pelo locutor.

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6 respostas a Pensar Portugal. Desorganizadamente, claro!

  1. João Torgal diz:

    “No meio disto, reina o nacional-porreirismo. O mérito não existe e qualquer tipo de punição não passa de uma miragem”

    Não haverá melhor área profissional que melhor confirme esta ideia do que… a política. Basta ver o curriculum profissional dos nossos governantes, para percebermos que a mediocridade está verdadeiramente implementada no poder político.

  2. José Maria Pimentel diz:

    Evidentemente.

    Outra coisa que me aflige é a brutal passividade. Que é, em parte, consequência da relação pai-filho com o Estado. Há uma cultura instalada e nunca contradita de ficar sentado à espera que o Estado faça e, quando este não age, ir para a televisão protestar. Ainda hoje via uma daquelas reportagens em que o povo se queixa dos salários baixos e só me perguntava quantas daquelas pessoas já tinham sido pro-activas alguma vez na vida! O português acha que o Estado é que tem obrigação de fazer algo, nós apenas devemos procurar um empregozinho e criticar caso o nosso pai não nos dê o que achamos merecer. Nada de fazer algo por conta própria. Isso ajuda a explicar a nossa paixão pelo Euromilhões. Parece tão fácil…

  3. Miguel Pessoa Vaz diz:

    “Patriotismo é o sentimento de amor e devoção à pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino, brasão). Através de atitudes de devoção para com a sua pátria, pode-se identificar um patriota.”

    As atitudes de devoção deve ser quando assobiam o hino do seu país ou quando põem bombas no seu proprio país e querem separar o país todo. São mesmo patriotas.

  4. José Maria Pimentel diz:

    Minorias, como bem sabes. (devias achar q n esperava essa…)

  5. João Torgal diz:

    Zé, é evidente que haverá muito boa gente que se queixa sem fazer nenhum (o país é pródigo nisso), mas cuidado com as generalizações. Háverá seguramente também muitos que se esforçam e lutam efectivamente por uma vida melhor e que são alvo da grande injustiça de terem condições de vida difíceis e que vêem outros que pouco fazem, muito ganham e têm um poder inacreditável. Contra estes últimos é que deve ir a nossa principal indignação.

    Bastante pior foi o que assisti hoje, caso paradigmático de uma certa mentalidade que abunda nos dias de hoje. Estava na fila de uma repartição pública e, enquanto esperava, sou obrigado a ouvir uma conversa entre três pessoas que estavam à minha frente (diria que entre os 35 e os 50 anos, não tenho bem a ideia), funcionários num serviço ao público. Eis que, entre bocas a alguns colegas (”não fazem nada”, “ganham mais do que eu e ainda se queixam” – imagino que na frente seja só sorrisos, típico de um certo cinismo transversal a todos os sectores da sociedade), se saem com o chavão da ordem com uma forma parecida com esta: “o Salazar era um grande senhor”, “pena que ele não esteja cá hoje para meter tudo na ordem, “viveríamos bem melhor”. É certo que há muita culpa de uma parte considerável da classe política actual, que, com a sua postura oportunista e hipócrita, com o grau zero de idealismo, com as estruturas de carneiragem e com o único objectivo de se servir do país e não de o servir, criou nas pessoas uma sensação de total desconfiança no seu trabalho. Mas, apesar disso, não deixa de ser revoltante ouvir este tipo de coisas de pessoas que seguramente já têm idade para juízo (muito me arrependo de não lhes ter dito isso).

  6. José Maria Pimentel diz:

    É evidente que há. Isto era uma explícita generalização. Aliás, o problema é mesmo que essas pessoas serão cada vez menos porque não ganham nada em ser assim.

    A culpada disso é a falta de desenvolvimento do país. Um país rico será sempre um país democrático. Olhemos, de novo, para o teu país. Em Espanha, à excepção de um ou outro lunático, ninguém deseja o regresso do Franco.

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