E se o Irão fosse a Somália?

Muito se tem falado ultimamente da eleição no Irão e no clima de profunda agitação política que ela proporcionou. Não consigo ter uma opinião totalmente formada sobre a existência ou não de fraude ou se o candidato da oposição era verdadeiramente mais democrata do que Ahmadinejad (um certo sector do Ocidente bem se esforça por dar a entender que sim, embora me soe sempre a argumento  falso para justificar a defesa de alguém que sirva os seus interesses). Uma coisa é certa: a reacção do regime às manifestações populares, sejam elas mais pacíficas ou não (outro facto que efectivamente desconheço), proibindo a cobertura jornalística e respondendo com violência extrema, mostra o inegável espírito ditatorial que marca o regikme iraniano.

No entanto, a questão que destaco, neste texto, é a análise por outro prisma. O que aconteceria se, em vez do Irão, tudo isto estivesse a acontecer na Somália, na Etiópia ou no Mali? Eu digo-vos: NADA. Ou seja, nem se falava e a comunidade internacional estava-se verdadeiramente nas tintas para o que aí sucedia (basta ver o que aconteceu durante anos e anos no Darfur). Porquê? Porque os motivos que justificam a preocupação com o Irão são frequentemente de  puro interesse económico e de poder político à escala mundial e não há esse tipo de interesses em jogo nos países referenciados. Neste contexto, com tanto cinismo, mentira e oportunismo, como é que as populações do Irão e dos restantes países do Médio Oriente podem gostar do Ocidente e dos Estados Unidos em particular? Verdadeiramente impossível.

Para tudo isso muito contribuiu o discurso e a política externa do sanguinário e criminoso de guerra Geroge W. Bush (só uma justiça internacional com as suas ambiguidades e os seus desígnios pró-ocidente, pôde deixá-lo impune), em que as ideias eram basicamente as seguintes:

1. È uma ditadura inimiga e contrária aos interesses dos EUA – invadimos unilateralmente o país ou colocamos-lhes entraves de diversa ordem,de forma a incrementar o nosso controlo económico na região. A ideia de democratização e libertação da população não passa de areia para os olhos da  comunidade internacional

2. É uma ditadura amiga e próxima do regime americano – ignoramos e estabelecemos cooperação internacional se necessário;

Há, no entanto, uma mudança de paradigma desde que Obama tomou posse, nomeadamente no que se refere ao Irão. Em vez da ameaça militar, o discurso tem sido sempre na lógica de reconhecer a legitimidade dos estados respectivos, referindo que, mesmo que haja ajuda da comunidade internacional, as mudanças revolucionárias de regime têm de partir de dentro, da vontade popular dos países em questão e não de um modo invasivo e imposto pelo Ocidente. Para além de ser louvável enquanto base, este discurso tem também tido o mérito de desarmar o espírito anti-americano destes grandes ditadores do  médio oriente que antes aproveitavam esse alvo externo para unir as pessoas em defesa do seu projecto ultra-conservador, fundamentalista e castrador das liberdades individuais. Basta ver o incómodo que provocou em Ahmadinejad, que tem hoje muito mais dificuldade em fazer passar a sua mensagem. Poderá não ser suficiente para mudar muita coisa, dada a importância que têm historicamente os sectores mais conservadores e ultra-nacionalistas americanos, mas é pelo menos um esforço significativo de Obama em promover a aproximação entre os dois lados do Mundo.

P.S. Com este texto e aquele sobre o filme do Chaplin e o álbum dos Oi Va Voi, acho que já dá para compensar a minha parcial ausência de colonista da semana passada 🙂

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4 respostas a E se o Irão fosse a Somália?

  1. Bruno Paiva diz:

    De aqui salta à vista a importancia do trabalho realizado por senhores como Bono Vox e Bob Geldof e respectivas ONGs (One por exemplo), que lutam diariamente por paises como Somalia, Etiopia e Mali de forma desinteressada.

  2. José Maria Pimentel diz:

    1. Parece-me inegável que houve fraude. Basta analisar o grau de participação sem precedentes e a estrutura demográfica (concentrada nas zonas urbanas) e etária (maioritariamente jovem) do país. Aliás, as reacções dos próprios elementos do regime provam-no.

    2. Isso é parcialmente verdade. É-o até certo ponto. Mas não completamente. Lembro-me das eleições no Quénia (outro país do corno de África), onde houve um caso parecidíssimo com o caso Mugabe/Tsanguirai e que recebeu a devida atenção dos media internacionais (embora, admito, menos que o caso do Zimbábue).
    Os EUA têm, sem dúvida, muitas culpas no cartório. Mas o restante Ocidente tem-se refugiado numa posição muito fácil, dando, desde a IIGM, o protagonismo aos americanos. Estes agem racionalmente e fazem apenas o que lhes interessa. Segundo julgo saber, não são pagos para agir como guardiões do mundo.

    3. Segundo tenho lido, a popularidade do presidente iraniano junto dos sectores anti-americanos no exterior contrasta bastante com a sua popularidade interna. À custa da sua política, o Irão tem perdido bastante investimento directo estrangeiro.

  3. Paulo Pereira diz:

    Temos que nos preocupar mais com um país com capacidade nuclear do que com um país sem ela. Sejamos claros: a minha segurança está em causa por um país como o irão , não por um país como a somália (pelo menos em intensidade…). Pode-se criticar um país que só tarbalha para os seus objectivos? Pode-se. Como também nos criticariam a nós os tivéssemos!
    Concordo totalmente com a “não ingerência”, excepto para nos defendermos, sabendo que, ás vezes, é necessário atacar primeiro,…e quem não concordar, que se lembre que vivemos num país com os direitos e as condições que temos, porque delegamos nos EUA essa função, isto desde a IIGM.

  4. Ninguém pediu aos E.U.A. para serem os guardiões do Mundo. Mas então não sejam hipócritas e não finjam que estão muito preocupados com os direitos humanos e com o sofrimento das populações. Mais vale admitirem que só se preocupam por puro interesse.

    Quanto à defesa na forma de ataque, viu-se o que aconteceu com a política invasiva de Bush: um verdadeiro desastre a todos os níveis.

    Em Obama há pelo menos uma atitude mais humanista que vale pelo menos um voto de confiança.

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