Sobre as Europeias

Estas eleições europeias, que conseguiram a previsível proeza de registarem os níveis de abstenção mais altos de sempre são bem reveladoras de duas evidências: a primeira é que os portugueses estão fartos de eleições. A segunda é que estão fartos da Europa. A Europa passa-nos, até, um bocado ao lado. Bem vistas as coisas, o programa das Europeias passou praticamente em rodapé, assumindo destaque apenas os ataques que os candidatos deferiam uns aos outros (o que não é de espantar, já que é, obviamente, isso que vende, e não questões aborrecidas de Direito Constitucional e Comunitário).

Há quem afirme de boca cheia que a vitória destas eleições é de Manuela Ferreira Leite. Não podia estar mais em desacordo. Ao contrário do “seu” candidato, que até parece ter umas ideias, e um perfil mais ou menos ajustado, a sua participação foi, quanto a mim, desastrosa, tanto mais que ausente. Repare-se que das poucas vezes que a ouvimos discursar e acompanhar Paulo Rangel foi num comício praticamente vazio (penso que em Abrantes), o que não se compreende, já que, estando afastada do governo, uma das coisas a que MFL se deveria dedicar devia ser precisamente… a fazer campanha. Como tal, não considero esta vitória “do PSD”, e muito menos de MFL; considero-a antes um significativo voto de protesto conta Sócrates. O que não significa, por outro lado, que não seja uma vitória, se quisermos analisar as coisas objectivamente, como um jornal – que não o “Público” – deveria fazer, aliás. O diário de José Manuel Fernandes informava-nos no dia seguinte às eleições de um “Colapso Rosa”, quase que menosprezando a vitória do PSD e atacando o PS, o que por mera coincidência é apenas e só um dos desportos favoritos deste director (a manipulação da informação está tão enraizada que é prática comum: na RTP 1 , segundo informa Pacheco Pereira, as eleições foram “despachadas”, tendo sido a notícia de abertura o despedimento de Quique Flores)

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Vitória manifesta é a do Bloco de Esquerda. Apesar de continuar o seu caminho esquerda loja de gomas, não deixa de ser incrível como é que um partido destes se consegue impor desta forma no panorama político português. Muitos dirão que para esta vitória contribui o descontentamento com o governo e todo um conjunto de factores, mas se assim é, ou se este factor releva tanto, porque não é o PCP a crescer? Creio que as pessoas começam a ver no Bloco uma alternativa de governo credível, mas não sei até que ponto está este partido preparado para levar tal tarefa adiante (exemplo:  ideias de nacionalizar a Galp, etc.?).

Para concluir, recomendo que assistam ao discurso de Obama no Cairo. Assisti apenas a parte, mas parece-me ser uma boa alternativa ao discurso populista/ PNR/ extrema-direita/ certos democratas-cristãos do medo. E manifesto a minha solidariedade para com o ancião deste blog: os cânticos de claque são bem reveladores daquilo em que vamos votar daqui a uns anos. Ao contrário do que se pensa, não são dois mundos diametralmente opostos.

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Uma resposta a Sobre as Europeias

  1. José Maria Pimentel diz:

    1. A Europa é, para nós, algo pouco importante. Por enquanto. Não é que não gostemos, achamos simplesmente um assunto menor. Se não gostássemos, faríamos como os conservadores no RU ou o partido radical de direita aqui na Holanda e protestávamos veementemente. Ou decidíamos que a Turquia não deveria entrar na UE. Mas não, ficamos, simplesmente, passivamente a olhar, e aproveitamos as Europeias para discutir outros assuntos.

    2. A minha opinião é simples. A MFL tem uma vitória apenas numa linha, a táctica. MAs essa é uma vitória retumbante, pois lançou alguém como líder parlamentar, e depois, quando ninguém se lembraria e contra a oposição do conselho todo do partido, escolheu-o como candidato às europeias. Maior vitória táctica é impossível. Mas, como disse, foi apenas táctica. Não esteve no campo, por isso não pode ter uma vitória na mesma dimensão da derrota de Sócrates. As suas deficiências à frente do PSD foram atenuadas, sim, mas não eliminadas. Ainda assim, não concordo que tenha feito mal em não se envolver na campanha. Fez muito bem. PR era o candidato, ele que aparecesse (não quer dizer isto que se MFL tivesse aparecido houvesse algum problema). E tanto fez bem que as urnas o provaram.

    3. O Bloco é um caso curioso. Divido-me entre a simpatia e o medo em relação a este partido. Se tenho medo de Louçã – de longe a principal figura -, que continua com o seu discurso altamente moralista; não posso deixar de simpatizar com uma outra falange que nada, mas nada, tem a ver com o PC. Para além disso, há muitos “simpatizantes”, como o recém-eleito Rui Tavares, que fazem o BE estar a anos luz do PC. Acho, sobretudo, que é uma alternativa útil e consistente (como descobri ao “analisar a análise” aos programas políticos dos partidos, que aqui “linkei”). Mas a verdade é que o BE é um partido com uma profunda aversão ao poder. E enquanto não for poder vai beneficiar desse efeito junto das urnas e sofrer dele junto de…mim.

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