Orgulho e Preconceito

Não é todos os dias que se lê um livro. No meu caso, não o é, de facto.. Confesso aqui à puridade que já não o fazia desde Agosto. Gosto de pensar que me falta tempo, mas não é totalmente verdade, infelizmente. Não há, portanto, grande concorrência para o livro que apresento. Ainda assim,  creio que mesmo dispondo de quantidade suficiente para formar um ranking,  Orgulho e Preconceito figuraria entre os melhores.

“It is a truth universally acknowledged that a single man in possession of a large fortune must be in want of a wife”.

Assim começa a obra maior de Jane Austin.

Esta é uma obra de características únicas. Não é um livro que prime pela descrição exaustiva do espaço Não é uma daquelas peças literárias, como os livros do Eça, que nos dão a impressão de estar realmente no lugar descrito (ou, no caso daquelas descrições incrivelmente maçadoras, sono). As descrições espaciais de Jane Austin são sempre sumárias e simplistas, o suficiente para marcar a transição de lugar para lugar. A casa de Elizabeth – a personagem principal –, por exemplo, aparece repetidamente ao longo do livro. No entanto, chegamos ao fim com uma parca descrição, capaz de deixar desesperado um qualquer leitor ávido de pormenores. Mas esse não é o propósito do livro. O que a autora pretende descrever não são sítios, casas ou mobílias. São a sociedade, as pessoas e a sua interacção. É nisso que Jane Austin é magistral. Para esse fim, serve-se da personagem principal, Elizabeth. Elizabeth, membro de uma família rural de classe média, possui uma invulgar capacidade para analisar o modo de ser de todos os que a rodeiam, percebendo as motivações e os sentimentos que estão por trás de cada comportamento dos que com ela convivem.

É esta capacidade de Elizabeth, ou melhor, a súbita falha dela em relação a uma das personagens, que dá origem à trama central. Darcy (“Mr Darcy”), membro de uma das famílias mais nobres de Inglaterra, é visto por todos como um ser profundamente orgulhoso, que despreza toda a humanidade abaixo de si, à excepção de alguns seus semelhantes a quem dá a honra da sua companhia. Elizabeth não só partilha desta opinião, como o faz exacerbadamente, julgando-o “o pior homem à face da terra”. O desenrolar dos acontecimentos ao longo do livro, porém, traz á trama uma série de coincidências que forçam Elizabeth a inverter completamente a sua posição inicial e a renegar o preconceito com que havia julgado aquele que viria a ser o seu futuro marido.

Onde é que eu já vi isto, perguntarão? Claro, foi a precursora das actuais comédias românticas. No entanto, embora a visão romântica do casamento que Elizabeth defendia à época fosse encarada com cepticismo e condescendência, esta era, ainda assim, um pouco distante da ideia actual do amor que hoje se vê neste tipo de filmes, do tipo “tudo perfeito”.

Há no livro duas outras personagens, laterais, dignas de registo. Uma é o pai de Elizabeth. A ideia que eu tinha em relação a esta figura vinha do filme, onde o seu sarcasmo e ironia aguçada (qual é a diferença?) são bastante explorados. No livro (que, afinal de contas, é o original) a sua personagem não é tão explorada, nem o seu sentido de humor tão perspicaz. Ainda assim, há algumas passagens deliciosas (sim, sei que descontextualizadas não têm metade da graça, mas ainda assim…):

(para a filha mais velha, Jane, que se vai casar com um “bom tipo”)

“You are a good girl;” he replied, “and I have great pleasure in thinking you will be so happily settled. I have not a doubt of your doing very well together. Your tempers are by no means unlike. You are each of you so complying, that nothing will ever be resolved on; so easy, that every servant will cheat you; and so generous, that you will always exceed your income.”

(depois de casar três filhas, referindo-se às restantes duas)

“If any young men come for Mary or Kitty, send them in, for I am quite at leisure.”

(referindo-se ao marido da filha mais nova – Wichham-, cuja aldrabice é conhecida de toda a família)

“I admire all my three sons-in-law highly,” said he. “Wickham, perhaps, is my favourite; but I think I shall like your husband quite as well as Jane’s.”

A outra personagem deste universo único que merece relevo é Mr Collins. Este clérigo é uma hilariante caricatura daquela típica pessoa chatíssima e ultra-atenciosa que se desdobra em cortesias inúteis sem nunca se aperceber do desdém com que é observada. A isto, junta o conservadorismo bacoco (mesmo para a época) de um clérigo de província. Entre as suas pérolas (e são muitas), inclui-se:

(sobre o casamento da filha mais nova, Lydia, em circunstâncias particulares para a época)

“I am truly rejoiced that my cousin Lydia’s sad business has been so well hushed up, and am only concerned that their living together before the marriage took place should be so generally known. I must not, however, neglect the duties of my station, or refrain from declaring my amazement at hearing that you received the young couple into your house as soon as they were married. It was an encouragement of vice; and had I been the rector of Longbourn, I should very strenuously have opposed it. You ought certainly to forgive them as a Christian, but never to admit them in your sight, or allow their names to be mentioned in your hearing.”

Em suma, Jane Austin é um dos poucos escritores da história da literatura que se pode orgulhar de ter feito algo totalmente diferente dos predecessores. Usando uma ironia certeira e uma capacidade única para descrever a sociedade da sua época, a autora produziu aquilo que é bem mais que uma simples comédia romântica.

*Por razões de agenda, post trocado com o Zé Bandeirinha (cujo post fica, portanto, para Segunda-Feira).

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5 respostas a Orgulho e Preconceito

  1. Ainda não li o livro (também já não leio nenhum desde Dezembro…), mas ando a ver a série da BBC que o adaptou com uma amiga alemã que é grande fã e ma recomendou! Pelas descrições que fazes até me parece estar bastante realista.

  2. José Maria Pimentel diz:

    Há quem diga que é melhor que o filme (e é bem capaz de ser…). Agora, com conhecimento de causa, tenho de rever o filme. Aliás, pensando bem…acho que vou fazê-lo agora! 😉

  3. João Torgal diz:

    Muito bem, fica a sugestão.
    Até porque, relativamente ao filme, já ando há algum tempo para o ver, pois é do mesmo realizador que o “Expiação”, que referenciei num post há uns dias atrás

  4. José Maria Pimentel diz:

    “pois”

    eheh

  5. Ken-Iti Yamato diz:

    Tanto o filme como o livro é apaixonante. Pena que só o li traduzido, gostaria muito de ler em sua versão original, coisa que teria feito se não fosse a minha ignorancia quanto ao idioma.

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