Cá vai mais um título…

Interessante livro o de Christopher Catherwood – “A loucura de Churchill” (Relógio D’Água) – o qual se centra na actuação de Churchill no Médio Oriente – e concretamente, no Iraque – , de 1917 a 1922, enquanto foi ministro da guerra e das colónias. Em 1918, com o fim da 1.ª grande guerra, os aliados derrubaram o império Otomano, cuja esfera de influência na Europa e na Ásia abrangia, entre outros territórios, dois dos maiores focos de guerras e conflitos étnicos do mundo actual: os Balcãs e Médio Oriente. O Iraque é uma criação britânica datada de 1922: foram os ingleses que definiram as fronteiras do novo estado, foram eles que escolheram o “rei” que haveria de o governar, e, por último, foram eles que lhe atribuíram a sua denominação actual – “Iraque” ( a antiga Mesopotâmia). O que Catherwood tenta mostrar é que Churchill e os britânicos, se derrubaram um império mais ou menos coeso (pelo menos até dada altura) como o otomano – que, apesar de juntar turcos e árabes, tinha como elemento homogeneizador a religião maometana – , foram incapazes de elaborar um juízo de prognose sobre as repercussões que o fim daquele império agregador poderia ter na região. O autor mostra impressivamente que, desde 1922, o Iraque, um território de maioria xiita, tem tido sempre governantes sunitas (o próprio Saddam Hussein). Mostra que, em 1922,  Churchill levantara a questão da criação do “Curdistão”, como estado dos curdos na parte norte do Iraque (e tanto jeito este lhes teria dado…), onde se encontra o cerne das reservas petrolíferas do território. A ideia de impulso à autodeterminação dos curdos talvez tenha sido, de entre toda a actuação de Churchill nesta questão, o ponto mais positivo. Isso e a clarividência para recusar a eleição de Ibn Saud – o “pai” da Arábia Saudita – como rei do Iraque, pois, como explica Catherwood, isso teria implicado uma “fusão” entre dois territórios que, pelas suas reservas de petróleo, poderiam exercer, hoje, um controlo total sobre o resto do mundo.

Confesso que o que me espantou mais neste relato foi  a constatação de que Churchill, um homem como é costume dizer-se “avant la lettre” – que nos avisou sobre a importância de tomar Gallipoli (uma operação totalmente falhada mas que, hoje, muitos historiadores consideram estrategicamente irrepreensível), que nos alertou para Hitler, que nos alertou (ou criou?)  para a “cortina de ferro”, que criou, no primeiro quartel do século XX, a BP (British Petrol), que impulsionou a força aérea britânica (o “brinquedo” da 2.ª grande guerra)… – não estaria minimamente ciente da importância do petróleo, ou melhor, não ponderou a vitalidade deste para os interesses britânicos em praticamente nenhuma das opções tomadas em relação ao Iraque.

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2 respostas a Cá vai mais um título…

  1. José Maria Pimentel diz:

    Ora aí está um belo livro!

    Acho que agora é a primeira vez que o Iraque é governado por xiitas. E, ainda assim, há oposição intra-chiita.

    O Curdistão é um caso interessante. Abrange 3 ou 4 países (ou por outra, parte destes, na fronteira entre a Turquia, o Iraque, etc..). Mas confesso que nunca percebi muito bem: quão válida é a pretensão deles à auto-determinação?

    P.S. Um dia destes ganho coragem para ler aquele calhamaço da biografia!

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