Ser professor na actualidade: uma aposta ousada?

Ao longo deste texto, tentarei fazer uma análise simples e genérica da condição de ser professor na actualidade. Tratando-se de um texto relativamente curto e pelo facto de ainda estar a realizar o estágio, será necessariamente uma abordagem superficial em que, mais do que dar respostas concretas, farei uma reflexão muito pessoal, sincera e directa.

A actividade docente tem sido nos últimos anos uma profissão particularmente mediática, embora muitas vezes por outros motivos que não aqueles que deveriam ser os mais prementes, os que dizem efectivamente respeito ao ensino e à aprendizagem. Assim sendo, agudizando de modo assinalável um caminho já traçado pelos seus antecessores, tem havido uma preocupação da parte do ministério da educação em, com objectivos obscuros ou predominantemente economicistas, culpabilizar e humilhar os professores pelo que de mal se vai passando nos terrenos educativos, incutir-lhes um papel burocrático e administrativo que em nada beneficia o ensino e a formação dos alunos e afastar pessoas válidas e com vocação para a docência. Não é difícil enumerar um conjunto de medidas que mostram isso mesmo:

– fim do consensual sistema de estágio anterior (um estagiário com turma própria) a dois meses do início do ano lectivo seguinte e com o único objectivo de estes deixarem de ser remunerados

– a colocação de profundos entraves à formação de professores, num processo de aprovação dos mestrados e dos respectivos numerus clausus pouco transparente e extraordinariamente desorganizado, revelando incompetência, irresponsabilidade ou má-fé.

– a tão defendida avaliação de desempenho docente que, ao invés de contribuir para a melhoria da qualidade de ensino, só enche a escola de burocracia claustrofóbica e tem como único objectivo a poupança de fundos estatais.

– a cultura da pura propaganda, com “Magalhães”, quadros interactivos, aulas de substituição e toda uma panóplia de ideias aparentemente milagrosas, que pouco ou nada contribuem para a melhoria do ensino;

– uma lógica onde impera o facilitismo, onde os exames são cada vez mais simplificados e onde há uma preocupação maior com as estatísticas do que com o real mérito e com a qualidade de ensino, fabricando-se um sucesso ilusório e não real;

– um estilo e um discurso arrogantes e autistas, que só contribuem para o descrédito dos professores e para a sua perda de respeito e autoridade perante os alunos, na sala de aula ou na escola;

A acompanhar tudo isto, há também que realçar o estrangulamento do sistema educativo, com poucas vagas, mesmo em Matemática, o que, com o fantasma do desemprego iminente, começou progressivamente a afastar potenciais professores da via de ensino.

Em todo o caso, apesar de todo este espectro relativamente negro, continuo a acreditar nas virtudes de ser professor. Eis alguns dos motivos:

– a educação é e será sempre uma das chaves mestras de uma sociedade próspera e desenvolvida e um professor um pilar essencial de todo o sistema, pelo que, mais tarde ou mais cedo, a sua reputação e importância serão novamente reconhecidos;

– é incrivelmente estimulante sentirmos a responsabilidade de transmitirmos os nossos conhecimentos às gerações vindouras. Não só no que se refere à disciplina que leccionamos, mas em termos de formação humana, de potenciar as capacidades dos alunos em termos de expressão, de capacidade de argumentação e do seu interesse cultural;

– tratando-se de uma actividade que envolve de forma declarada o processo de relações humanas e o consequente contacto com colegas, alunos e funcionários muito diferentes, muito heterogéneos, estamos também nós constantemente a aprender;

– há estabelecimentos de ensino com um bom ambiente de trabalho, inconformados e que recusam ceder a todo este processo de transformação nociva da escola e/ou que pragmaticamente fomentam a sua parte essencial: a melhoria das condições de ensino e de formação individual dos alunos.

– há algumas razões para estarmos optimistas num futuro melhor. Nomeadamente em termos de emprego, a necessidade crescente de professores de Matemática, em virtude de certas alterações vigentes, o reduzido número de pessoas formadas nos últimos anos na via de ensino e, pelo contrário, o elevado conjunto de pedidos de reforma, fazem antever um futuro em que, não só não haverá desemprego nesta área, como haverá falta de professores para corresponder às exigências;

Ser professor na actualidade – Uma aposta ousada? Seguramente. Mas, tal como em todas as apostas, se acreditamos firmemente que é isto realmente que queremos fazer, se estamos convictos que é este o nosso destino ou vocação, então só temos de seguir em frente, fazer tudo para atingir o nosso objectivo e ter esperança na mudança da conjuntura docente e, claro, no aparecimento de dirigentes políticos mais conscientes, que proporcionem aos professores condições de trabalho mais atractivas e que considerem, eles também e sem demagogias, o ensino e todo o sistema educativo uma verdadeira aposta para o futuro. Em suma, devemos seguir o nosso sonho profissional, qualquer que ele seja e quaisquer que sejam as dificuldades. Porque, como nos canta Manuel Freire na maravilhosa interpretação do óptimo poema “Pedra Filosofal” de António Gedeão:

“(…)Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança”

 

P.S. 1: Este texto foi originalmente publicado no jornal O Ábaco do Núcleo de Estudantes de Matemática da AAC, incluindo em alguns momentos excertos já aqui colocados num post anterior.

P.S. 2: Este texto surge num timing lógico. Ontem, apesar de muitos aspectos desmobilizadores (desgaste, desânimo, período de testes e avaliações e até o profundo calor que se fez sentir), muitos milhares de professores voltaram ontem a comparecer na manifestação nacional, mostrando de forma clara os motivos do seu descontentamento, a “Força da razão”.

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