Uma crise diferente

A realidade e o jargão económicos são sempre bastante confusos. Parece, por vezes, haver quase uma separação entre o que se lê nos escaparates e o que de facto acontece. Para além disso, tudo é confuso Por exemplo, inflação (que já de si é uma palavra curiosa, pois deveria ser inflacção) é má, e deflação…também. O cidadão comum é confrontado ciclicamente com este mundo paralelo. De vez em quando – em média, uma vez por década – lá vem a malfadada crise. O cidadão sente-a. Porém, raramente, tanto como é noticiado nos jornais. Sente-a no preço do combustível, como nos anos 70. Sente-a no emprego. Sente-a quando vai ao banco e vê as suas opções reduzidas. Mas, no fundo, as crises raramente têm o impacto “prometido”. Esta crise é, todavia, diferente. De causas e consequências só comparáveis à de 29. O grande problema é que, se as últimas são, de facto, comparáveis, as causas não o são. Pelo menos totalmente.

Este défice de ponto de comparação torna o resultado desta crise, para o mundo em geral e o Ocidente em particular, imprevisível. Não se trata, como em 2001, da reestruturação dum sector. Hoje lida-se, fundamentalmente, com três problemas – peculiaridades -, que tornam o futuro imprevisível.

Primeiro, descobrimos que o crescimento da última década se baseou na chamada alavancagem. Bancos, empresas, individuais investiram usando recursos que não tinham. O resultado foi um crescimento falso, porque não tinha em conta os custos. Custos esses que só foram descobertos quando a coisa correu mal e alguém decidiu começar a levantar o tapete. Foi como se o mundo de repente descobrisse que aquela mala cheia notas que tinha debaixo da cama – na qual nunca se tinha dado ao trabalho de vasculhar – não estava, afinal, completa. Tem a aparência condizente mas parte do volume corresponde apenas a papéis sem valor. Para aumentar o desastre, ninguém sabe quantas daquelas notas correspondem aos ditos papéis e quantas têm efectivamente valor. O que isto significa é que ninguém – ninguém mesmo – sabe quanto vai restar quando a tempestade passar. Ninguém sabe qual será a dimensão dos mercados financeiros daqui a 2/3 anos. Ninguém pode adivinhar quando e, sobretudo, como será a recuperação. Como bem chama a atenção o “arauto da crise” – Nouriel Roubini, o fundo, mesmo nos EUA, parece não ter ainda ter sido tocado. E, mesmo depois de tocar no fundo, nada nos garante que evitemos saltos em falso ou que nademos muito devagarinho em direcção a tona. Talvez – e aí está o problema – devagar demais.

Em segundo lugar, há ainda outro problema, estrutural, que diferencia esta crise da de 29: a dimensão do sector bancário. Já todos terão, provavelmente, ouvido falar dos bancos ‘too big to fail’, aqueles grandes bancos que, simplesmente, não podem falir, sob pena de por em questão o futuro de muitas famílias que lá têm o dinheiro. O problema é que isto cria incentivos perversos. Muitíssimo perversos, mesmo. É o chamado risco moral. Se um banco tem a garantia de ser sempre salvo pela mão amiga do Estado, deixará de ter em conta riscos. Ou por outra, estes deixam, por e simplesmente, de existir. Tendo em conta que a falta de aversão ao risco foi a grande causa desta crise, não é preciso dizer muito para dar a entender a as consequências terríveis caso se continue a ter bancos ‘too big to fail‘ ou, pior ainda, ‘too big to save’. É, pois, fundamental que os governos tenham em conta que a principal reestruturação a sair desta crise é a correcção deste paradoxo. Os bancos, como qualquer empresa, têm que poder falir. É essa a base do capitalismo. Se os bancos actuais pudessem falir, não teríamos metade dos problemas. Tinha havido uma crise? Sim. Mas os bancos endividados e com má gestão teriam falido. Simplesmente. Teria havido perda de empregos, claro, mas na dimensão de uma crise como a dos anos 80, nada mais. O sector bancário é um sector peculiar e tem que ser tratado como tal. Não pode, simplesmente, haver mega-bancos como há mega-empresas.

Por fim, há hoje uma crise de confiança na economia que deita por terra qualquer laivo de recuperação. Ninguém compra, ninguém vende, ninguém empresta, ninguém investe. E por aí em diante, num ciclo vicioso.

Esta crise poderá, portanto, comparar-se à crise dos anos 30. Basta reflectir sobre o facto de termos, hoje, países inteiros a salvar um único sector, o financeiro. Sector esse que, por vezes, excede (brutalmente, no caso da Islândia) o PIB. Será que vai haver dinheiro?

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2 respostas a Uma crise diferente

  1. AE diz:

    Caro José Maria Pimentel,
    Permita-me que discorde quase inteiramente consigo. As similaridades com a crise de ’29 observam-se principamente nos mercados financeiros. Felizmente ainda não temos racionamentos de pão, nem centenas de desempregados a deambular pelas ruas. Acho no minimo, abusivo, atribuir o crescimento dos “PIBs” mundais ao leverage. Este aparece como uma consequência do excesso de confiança dos intervenientes na economia, tanto dos que estão dispostos a emprestar como dos que procuram fundos para investir. O leverage só veio agravar uma crise que surgiu no ínicio como consequência de mercados imobiliários sobre-valorizados e da implosão dos mercados financeiros que transaccionavam produtos que tinham como subjacente este “overheated” market.
    No que respeita o sector bancário, é um facto que as principais instituições financeiras se tornaram colossos mundias, algumas delas com book values superiores ao do PIB dos seus paises – criando as tais instuituicoes “too big to save”. A reestruturacao das instituicoes financeiras, a meu ver, não passará pela redução do seu tamanho visto que este surge por inerência a uma economia mais global e com cada vez menos instituiçoes financeiras. As que existem teem de ser players globais, e logo a comparacao com PIBs nacionais torna-se oportunistica. A reestruturacao passara sim pela responsabilizacao dos banqueiros internacionais, atraves da interiorizacao do tipo de riscos que uma instituicao deste tamanho pode tomar,. de modo que numa situacao de quebra de confianca estas instituicoes continuem bem capitalizadas para fazer face aos desafios que teem de enfrentar.
    Ainda em relacao ao sector bancário, e talvez o meu maior ponto de discórdia, se esta crise já nos ensinou qualquer coisa foi que um banco nao pode ir à falência. O racional económico dir-nos-à que como qualquer outra empresa, “os bancos endividados e com má gestão teriam falido”. O que o racional económico se esquece, quase sempre, é da confiança dos agentes que integram os sistemas que estao a ser modelados. A meu ver um banco/ instituicao financeira é uma pedra basilar na confianca da economia. Se se perde a confianca num banco, todo o sistema financeiro treme e como consequência toda a economia fica mais frágil. Como exemplo basta observar os casos da Bear Sterns e Lehman Brothers nos EUA. A falência do segundo levou a um caos tal nos mercados financeiros que só veio agravar a crise. Finalmente, a segunda lição que talvez se possa tirar desta crise, os mercados financeiros não devem ser vistos como os maus da fita, onde os especuladores fazem dinheiro, devem ser visto como parte intragada e fulcral do sistema económico mundial. Como consequência, supervisão dos mesmos tem de ser feita de forma muito mais efectiva do que na última década.
    Por último, resta –me concordar que esta crise assenta numa enorme falta de confiança que levou ao desaparecimento de mercados e mecanismos de mercado que até hoje não se pensava possível. Isto levou ao bloqueio do ciclo económico que parece estar a dar os primeiros sinais de re-animacao.

  2. José Maria Pimentel diz:

    Ora aí está porque a economia é uma ciência social: não há dois mais dois.

    Bem vindo!

    1. Como sabes, acho q a economia real está bem melhor, apesar de tudo, que nos anos 30. O pior é a recuperação. Ou seja, a crise em si é menos má. Mas as consequências no médio prazo podem não ser. Para no curto prazo não cair tanto, estão-se a tomar medidas que podem comprometer o crescimento futuro a níveis elevados. Uma espécie de recta com pouca inclinação.

    2. Em parte – não sei em quanto, confesso – está relacionado. Reconheço, porém, que é exagerado atribuí-lo todo a à leverage. Mas se as instituições financeiras alavancadas cresceram mais, tal reflectiu-se, parcialmente, no PIB dos respectivos países. Principalmente nos países tipo UK. E aí o problema é: se parte do crescimento foi fictício, a quanto ascende essa parte? Mas estou convencido que, no total do período (pós IIGM, pós crise petrolífera?) o saldo é, ainda, claramente positivo.

    3. Ah, “leverage só veio agravar”. Sim, tornou uma crise cíclica (que era, de facto), numa crise sem precedentes (sem demagogias).

    4. Atenção, os bancos actuais são, de facto, demasiado grandes para falhar. É inegável. O exemplo da Lehman é categórico. Mas no futuro não podem, no meu entender, sê-lo. Como fazer para que tal realidade seja possível? É difícil. Muito. Eu não tenho a resposta. O Martin Wolf tem reunido uma pândega no blog dele a sugerir soluções. Teria que passar por uma maior supervisão e, sobretudo, transparência. Um banco pode correr riscos, tem é que se saber que este os corre. Um sistema com bancos que não podem falhar é que seria, a meu ver, perigosíssimo. Era a cereja em cima do bolo de uma resposta que – em parte, bem – foge à disciplina do mercado*.

    5. A grande questão, para mim, é: quando e como vai ser a recuperação?

    *o que dá depois lugar a situações paradoxais, com aqueles que são apelidados de culpados (leia-se, P.Republicano) a defender as medidas mais ferozes.

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