Post-Rock is alive

Por definição (algo sempre bastante subjectivo, ainda para mais tratando-se do estilo em questão), o post-rock foi um termo criado pelo mago britânico Simon Reynolds (foto) para definir um determinado movimento musical surgido nos anos 90. Com alguma influência no experimentalismo electrónico germânico do kraut-rock,  num ambientalismo denso e no ruído motivado do shoegaze, este movimento surgiu inconscientemente como uma reacção contra uma certa frieza de  um determinado estilo de sonoridade  rock mais técnico e/ou visceral. Em alternativa, os grupos apostavam numa sonoridade com texturas hipnóticas e complexas, com destaque para os ambientes criados pela presença forte dos sintetizadores, pelo peso da distorção da guitarra e pela usual ausência da voz, mas em que, longe da frieza referida anteriormente, prevaleciam os ideais da emoção, da melancolia, da intensidade…

Numa primeira fase, destacaram-se grupos como os norte-americanos Bark Psychosis (cujo álbum “Hex” de 1994 esteve na origem da designação pos-rock dada por Simon Reynolds) e Tortoise, os canadianos Godspeed! You Black Emperor ou os escoceses Mogwai. Dos míticos Godspeed You! Black Emperor fica, de seguida, o clássico “Moya”.

Desde aí, com maior ou menor sentido melódico, com maior ou menor peso e distorção, com maior ou menor perspectiva ambiental e  contemplativa, com o destaque para este ou aquele elemento sonoro, com a introdução deste ou daquele instrumento,  o post-rock foi proliferando, surgindo diversas bandas que prolongaram a atitude e os ideais anteriormente referidos. Neste contexto, bandas como os americanos Explosions in the Sky, os canadianos A Silver Mt. Zion (com raízes nos Godspeed),  os irlandeses God is an Astronaut, os islandeses For a Minor Reflection (fizeram a primeira parte no maravilhoso concerto de Novembro passado dos Sigur Ros – eles próprios que também têm alguns elementos pós-rock na sua música) ou os portugueses All Star Project deram uma nova vida a este estilo musical.

Hoje, no final da primeira década do século XXI, há quem apregoe que o pós-rock está morto. Os dois concertos que vi este ano (e perdi recentemente A Silver Mt. Zion), de que falarei de seguida, mostram que, não só não está morto, como está mais vivo que nunca.

MOGWAI – 5 de Fevereiro, Aula Magna

Surgidos em meados nos anos 90, os Mogwai criaram em 1997 o seu mítico disco de estreia Young Team (apesar de conhecer algumas músicas, só agora o estou a ouvir na íntegra), um disco aparentemente mais  negro, pesado e ruidoso do que grande parte do material seguinte da banda. Daí em diante, com álbuns como Happy Songs for Happy People ou Mr. Beast os Mogwai foram fortalecendo o seu estatuto de banda de culto, construindo um som mais polido, em que alternam momentos de distorção verdadeiramente explosivos, com espaços de puro deleite melódico, com particular destaque para a presença sublime do piano. O último trabalho da banda, The Hawk is Hawling, foi uma vez mais um grande disco. Já na altura quando fiz o meu balanço musical de 2008, coloquei o álbum na lista dos melhores do ano, mas é daqueles discos que ainda cresce muito mais com o tempo e com as audições sucessivas. Com pedaços sonoros muito diferentes,   como, por exemplo, a mistura perfeita entre as potencialidades da guitarra e do piano em “I’m Jim Morrison I’m Dead”, o verdadeiro assalto aos sentidos que é “Batcat”, o fabuloso épico em crescendo “Scotland’s Shame”, a melancolia intimista e arrepiante de “Kings Meadow” ou até uma maior aproximação à pop de “The Sun Smells Too Loud”,  é sem dúvida um dos melhores discos da carreira dos Mogwai e do pós-rock em geral.

Foi este último disco que os Mogwai vieram apresentar à Aula Magna, num concerto absolutamente brutal.  O local escolhido para o concerto mostra bem que, apesar da música dos Mogwai e genericamente das bandas pos-rock ser por vezes bastante pesado, está ainda assim bem longe do metal. Tratando-se de um espaço com lugares sentados, apela-se, em vez do moche, à contemplação e a um desfrutar mais cerebral da música que se ouve, algo que por vezes se torna difícil, nomeadamente nos momentos mais explosivos. Algumas palavras desde já para a qualidade da acústica do espaço, absolutamente perfeita, e para a relação entre luz e som no concerto: notável.

A primeira parte do concerto esteve a cargo dos também escoceses Errors. Uma aposta profunda na presença de elementos electrónicos torna a música destes escoceses bastante diferente das demais bandas do estilo, mas nem por isso com grandes notas de elogio. Louvores, contudo, para o óptimo primeiro tema interpretado (não sei o título). Curiosamente (ou talvez não), um dos temas em que o destaque foi todo para as guitarras e para a bateria (um dos pontos altos da banda).

Com incidência ligeiramente maior no último disco, mas com passagens por quase todos os 6 albuns de originais (só Come on die Young ficou de fora), os Mogwai deram um espectáculo verdadeiramente eclético, não só entre temas, mas mesmo dentro de cada tema, com alterações súbitas de ritmo e variações entre momentos mais intimistas e outros mais fortes em termos sonoros. Destaque para a brutal interpretação de “Scotland’s Shame, em que o crescendo referido anteriormente ainda se fez sentir de modo mais intenso e hipnótico. Já depois de uma dedicatória dos Mogwai ao recentemente falecido Lux Interior dos Cramps, deu-se a primeira saída de palco ao som do explosivo “Batcat”, um final possível para o concerto. Mas os Mowgai surpreenderam no encore. Já depois de “Precipice”, é com o aparente anti-climax de “2 Rights Make 1 Wrong”, um tema onde se destacam os extractos vocais “vocoderizados” do teclista, que se dá o desenlace. Um final em total comunhão com o público, verdadeiramente rendido ao talento dos Mogwai. Grande concerto, grande banda. Por aqui, ficam do último disco os temas “Scotland’s Shame” e “I’m Jim Morrison I’m Dead”:

ALL-STAR PROJECT e GOD IS AN ASTRONAUT, 22 de Maio, Leiria

Decorreu na passada 6ª feira mais um episódio da edição 2009 do Festival Fade In de Leiria, desta feita dedicada ao pós-rock. Tratando-se de um espaço pequeno (pouco mais de 200 lugares), foi com naturalidade que a sala estava completamente esgotada.  Na primeira parte deste espectáculo, tivemos então os portugueses All-Star Project. Com alguns EP’s editados e um disco de originais, Your Reward…Bullet, a banda surpreendeu pela intensidade, pela alma na interpretação das suas músicas. Na linhagem de bandas pós-rock mais pesadas, os All-Star Project apostam numa fortíssima secção de cordas , constituída por 3 guitarras e um baixo. Foram cerca de 40 minutos de concerto que, embora estando esta banda perto de ser demasiado pesada para o meu gosto e nunca os tendo ouvido anteriormente , despertaram a vontade de conhecer melhor  a música desta banda de Leiria. Fica o vídeo de “V5″´.

A parte principal deste espectáculo foi dedicada aos irlandeses God is An Astronaut. Não tinha grandes expectativas para o concerto, nem boas nem más, pelo simples facto que só conhecia relativamente o último disco, o homónimo dos finais de 2008, e mais alguns temas soltos dos restantes 3 albuns. Tinha gostado do que tinha ouvido, especialmente das músicas mais calmas, mas sem grande deslumbramento.

O concerto seguiu a mesma medida, ou seja, foi bom, mas sem ser brilhante. Com uma dimensão mais pesada do que aparenta em disco, o trio deu um espectáculo demasiado prejudicado, na medida inversa do que sucedeu com os Mogwai, por uma certa falta de ecletismo. Neste contexto, o segundo plano para que foram remetidos os teclados, deixando o destaque quase todo para o baixo, bateria e guitarra, e a ausência no alinhamento de alguns dos temas mais contemplativos da banda, como são “First Day of the Sun” ou ” Remaining Light” do último disco, tornaram o concerto um pouco claustrofóbico e repetetivo, pontuado contudo com uma aura negra e misteriosa, em termos de sintetizadores, muito interessante. Em todo o caso, os maiores elogios para dois aspectos. Em primeiro lugar, para a óptima interpretação de dois grandiosos temas como são “Fragile” e “All is Violent all is bright”. Por outro, para a projecção de imagens que, quais video-clips, acompanhou todos os temas do concerto (algo que já tinha sucedido com os All-Star Project) e em que sentíamos os diferentes ritmos presentes na música a serem acompanhados de modo perfeito pelo profundo potencial da imagem. Esses e outros aspectos menores contribuiram para que, apesar das críticas efectuadas anteriormente, este tenha sido, sem dúvida, um bom concerto. Os God is An Astronaut terminaram com dois encores, fechando com uma versão absolutamente explosiva do tema título para o album “The End of the Beggining” de 2007, que contou com o reforço na bateria de um amigo da banda vindo de Chicago. Mas o melhor terá vindo depois do concerto… Tendo reconhecido um ou outro dos melhores temas ao vivo como sendo provenientes do disco All is Bright all is Violent de 2004, resolvi comprá-lo no final. Ao ouvi-lo deparei-me com uma verdadeira obra-prima, um dos melhores discos do género que já ouvi, bastante mais calmo do que o último disco e possuidor de uma beleza, de uma harmonia e de uma emoção verdadeiramente arrebatadoras. Ficam aqui os dois temas referidos anteriormente presentes neste disco que, para além de duas maravilhosas músicas , valem também pelos óptimos vídeos. Em “Fragile, vemos uma perturbadora análise aos abusos verificados aos animais. Em “All is Violent All is Bright”, um irónico retrato da hipocrisia do poder americano no pós-11 de Setembro.

Por tudo isto, não tenho dúvidas em terminar este meu longo texto sobre este extraordinário estilo musical com o título do post, ou seja, POST-ROCK IS ALIVE.

P.S. Embora só amanhã comece oficialmente o sistema dos cronistas, julgo que este texto pode ser já uma espécie de ante-estreia da minha parte 🙂

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4 respostas a Post-Rock is alive

  1. José Maria Pimentel diz:

    Sim senhor. Com uma ante-estreia destas a estreia até perde brilho! 😛

  2. José Maria Pimentel diz:

    Agora sim, depois de ler.

    Os sirgur-ros tem, de facto, pela descrição que fazes e pelos exemplos que pões, algo disto. Principalmente, tanto quanto posso dizer, no referido “crescendo”. Aliás, diria que essa é uma constante nas músicas deles, principalmente nas mais longas.

    Disto tudo, portanto, recomendarias Mogwai?

    Embora esteja 90% certo de que não vou gostar do estilo (pela descrição), estou disposto a tentar! 😛

  3. João Torgal diz:

    Zé:

    Tendo tu algumas reservas em relação ao género, recomendava-te que pelo menos visses os dois vídeos dos God is an Astronaut (porque, de facto, são muito mais do que as músicas propriamente ditas). E, já agora, que ouvisses um dos temas dos Mogwai. Depois logo vês se gostas ou não.

  4. Ricardo Loiola diz:

    Escutei uma banda brasileira que segue esta linha, são os wake up, killer!
    http://www.myspace.com/wakeupk

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