Justiça Divina

Vou começar por dizer algo horrivelmente xenófobo: não acredito em fronteiras nem em nacionalidades: acredito em boas e más pessoas. No entanto, a imagem que vamos moldando de um povo fica inevitavelmente alterada à medida que vamos conhecendo nacionais desse país. Uma vez, calhei à mesa de umas brasileiras. Tendo tido a desfaçatez de perguntar o que achavam de Portugal, e de partilhar informação (irrelevante) como o facto de a minha família que vive no Brasil precisar de contratar uma família de “figurantes” para ocupar a casa em que vive (admito que não seja a melhor conversa de engate) para não correr o risco de já não a ter quando lá chegar (prática corrente na zona) levei com uma indignação fria de quem toca na ferida por sarar:

“Pô, sempre a mesma conversa quando a gente senta na mesa de portugueses!”

(Qualquer coisa como) “Peço desculpa, não quis ofender, estava apenas a tentar obter alguma informação de alguém que efectivamente vive no Brasil!”

“Sabe que mais? A gente é feliz e não fica fazendo comparação, nem com Portugal nem com nenhum outro povo”

“Hum… Será que os brasileiros do Vidigal são assim tão felizes? (Pensei) Não te esqueças que se estás aqui em Portugal a pagar 900€ de propinas é porque não deves vir de lá…”

“Essa necessidade de vocês, de ficar comparando…”

And son on…

Nesse dia fiquei a matutar sobre o assunto. Será que tinha, de facto, cruzado a linha? Deveria guardar para mim o que sei (família que lá vive, dados organizações internacionais)? Apesar de ser para mim inconcebível viver descansado num país em que 1/3 da população corre o risco de não acordar no dia seguinte, a não ser que viva num condomínio com muros altos e segurança 24h/ dia, fiquei convencido que se calhar nós, portugueses, ligamos demasiado a este tipo de assuntos e que se calhar sim, fazemos demasiadas comparações (“Vocês, portugueses!”). Fiquei a saber de que assuntos não devo falar com um brasileiro, e isso foi tão útil como desagradável, porque nunca tinha tido uma experiência semelhante, e posso assegurar que já mantive interessantes diálogos com pessoas de todas as partes do mundo (italianos, espanhois, americanos, ingleses, franceses…)

Já me tinha conformado com a minha falta de tacto (quem é que puxa este tipo de assuntos numa festa de carnaval, anyway), até ao dia em que recebi um email fantástico, com dez razões para vivermos em todas as partes do mundo, em português do Brasil (foi claramente algum português mal intencionado que o redigiu). Ficam aqui algumas passagens:

“DEZ MOTIVOS PARA SER ALEMÃO:

(…)

8- Não ter que aprender alemão como segunda língua;

9- Achar joelho de porco uma delícia;

10-Poder ser um fumante inverterado sem ninguém notar que está  pigarreando.

(…)

DEZ MOTIVOS PARA SER FRANCÊS:

(…)

3- Conseguir ser mal-humorado, mesmo morando na cidade mais linda do mundo;

(…)

8- Não precisar tomar muitos banhos;

(…)

DEZ MOTIVOS PARA SER INGLÊS

(…)

7- Viver no passado e achar que ainda é uma potência mundial;

(…)

9- Ser gentil e tolerante com os povos “inferiores” que os visitam;

(…)

DEZ MOTIVOS PARA SER ITALIANO:

1- Conhecer profundamente os mais bizarros formatos de massas;

2- Ficar mexendo com todas as mulheres que passam na rua;

3- Chamar o próprio carro de “la mia macchina”, mesmo que seja uma lata velha;

4- Ser pacífico: as últimas glórias militares datam da antigüidade;

5- Saber falar com as mãos; (?)

(…)

DEZ MOTIVOS PARA SER AMERICANO (a melhor parte do mail):

1- Adorar “música brasileira”, como merengue, salsa e rumba;

2- Usar as roupas mais estranhas do mundo e ninguém ligar;

3- Poder tomar cerveja dizendo apenas “gimme a Bud”;

4- Saber que a capital do Brasil é Buenos Aires;

5- Poder estudar de graça em Yale, desde que saiba jogar futebol americano;

6- Ser Texano, falar como caipira, se vestir como caipira, e orgulhar-se de ser “cowboy”;

7- Assistir novelas como qualquer brasileiro, mas chamá-las de “soap opera”;

8- Entender as regras do baseball e do futebol americano e divertir-se com isso;

9- Achar que qualquer passeiozinho meia-boca foi “unbeliveble, amazing, wonderful”;

(…)

DEZ MOTIVOS PARA SER ARGENTINO (Ainda melhor):

1- Nenhum;

2- Ser resultado do cruzamento de índio com italiano, mas pensar que é inglês;

3- Nenhum1;

4- Achar que o vinho de Mendoza é melhor que o de Bordeaux;

5- Nenhum;

6- Acreditar que são os melhores no futebol (na verdade, acreditar que são bons em tudo!);

7- Nenhum;

8- Ser vizinho do Brasil;

9- Nenhum;”

Escusado será dizer que o mail termina com “10 motivos para ser brasileiro”. Ficamos a saber que o Brasil é o melhor país do mundo: “bom mesmo é ser brasileiro” (acaba assim).

Com que então “a gente não fica fazendo comparação”. Se calhar não teria sido levado a mal se fundasse a minha opinião sobre o Brasil não em dados concretos mas em estereótipos estúpidos e infundados. É certo que é apenas um email escrito por um brasileiro tão burro como xenófobo, mas serviu para uma coisa: para me reconciliar com o mundo. E servirá para que continue a massacrá-los: ao contrário de todos os brasileiros que conheço, eu “não adoro o Brasil” (todos “adoram Portugal”). E se este for o caminho para que parem de “sambar” e assobiar para o lado como nada se passasse (salvaguardando sempre o T6 com videovigilância no “Leblon”) e  acordarem para os problemas que têm – e tentarem fazer alguma coisa para os resolver (nessa noite fiquei a saber que os governantes tratam de tudo) – prefiro ficar sempre com o papel do xenófobo e do infeliz que “fica fazendo comparação”. Porque é apenas “fazendo comparação” que os povos aprendem uns com os outros. Sem medo de as fazer. E mais nada.

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2 respostas a Justiça Divina

  1. José Maria Pimentel diz:

    Não sei qual é o nome técnico – mas deve haver algum – disso, mas essa associação da pobre da ‘moça’ com mais um exemplo de mails imbecis que circulam na net (em todas as línguas) é obra!

    É sempre perigoso generalizar sobre um povo. Claro que a rapariga foi irascível, e claro que os brasileiros têm muitas qualidades mas, e cá estou eu a generalizar, encaixam, de facto, perfeitamente naquela descrição típica.*

    Mas esse tipo de conversa, francamente, é, para dizer o mínimo, redutora. Então esta parte, homem:

    “E se este for o caminho para que parem de “sambar” e assobiar para o lado como nada se passasse (salvaguardando sempre o T6 com videovigilância no “Leblon”) e acordarem para os problemas que têm – e tentarem fazer alguma coisa para os resolver (nessa noite fiquei a saber que os governantes tratam de tudo) – prefiro ficar sempre com o papel do xenófobo e do infeliz que “fica fazendo comparação”. Porque é apenas “fazendo comparação” que os povos aprendem uns com os outros. Sem medo de as fazer. E mais nada.”

    Até porque nós – se é essa a tua concepção de país mau – temos muito que falar! (não em relação à segurança, felizmente, mas em relação aos problemas).

    A propósito, problemas esses que parecem muito menores vistos de fora.

    * algo como: “os brasileiros recebem sempre de braços abertos, mas…raramente os fecham.”

  2. António P. Neto diz:

    Sempre a mesma, esta “Manela”.

    Não sei se percebeste que a intenção do texto não foi bem a de escrever uma tese de sociologia (algo que cabe a um membro deste blog que em boa verdade serve, neste momento, mais de apêndice) mas sim um desabafo, e o email que transcrevi uma coisa que gostava de ter nas mãos quando fui quase apelidado de xenófobo.

    Lá está, as generalizações são tão perigosas quanto difíceis de não se fazerem. Devia ter incluído no texto, mas uma das pérolas dessa conversa foi: “Porque a gente é pobre, mas é feliz na mesma, e vocês (sic) estão sempre reclamando”. Isto para dizer que é difícil não optar pela generalização, porque mesmo recorrendo a ela é possível provar o quão falsas eram as afirmações.

    Se queres que te diga, prefiro o “modus vivendi” português (lá estou eu a generalizar outra vez). Não somos felizes com uma barraca, um pandeiro e uma galinha, mas pelo menos temos consciência dos nossos problemas (a parte de não fazermos absolutamente nada para os resolver é outra conversa, eheh). Não consigo dar-me bem com essa “alegria na miséria”. Mas pronto. Eu e os taxistas de Alfama devemos ser os únicos com esta imagem dos brasileiros (generalização, outra vez). Estou à espera de conhecer um que me prove errado. Acredito que exista.

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