A análise profunda ao amor de Kundera

“Era um erro de raciocínio abstrair a mulher amada do conjunto das circunstâncias em que se conheceu e frequentou e aplicar-se, à custa de uma obstinada concentração mental, a depurá-la de tudo o que não fosse ela própria, e portanto da história que se vivia com ela e que dava a sua forma ao amor.
    De facto, eu amo na mulher não o que ela é em si mesma, mas aquilo que nela se me dirige, o que ela representa para mim. Amo-a como uma personagem da nossa história comum”

                                     Milan Kundera, A Brincadeira

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6 respostas a A análise profunda ao amor de Kundera

  1. Paulo Jorge Pereira diz:

    O amor, como todas os sentimentos, é sempre algo egoista. É sempre “a nós” que dirigimos os sentimentos porque somos nós que sentimos o que algo/alguém nos provoca.
    (José Luis Peixoto escreveu um livro, fabuloso, sobre a morte de seu pai que se chama:”MORRESTE-ME”)
    É o ME que nos define
    Livro( a brincadeira), realmente, excelente!

  2. José Maria Pimentel diz:

    É com grande satisfação que vejo o nosso crítico musical dar passos seguros em relação à crítica literária.

    Já é a segunda vez que citas o Kundera. E é também a segunda vez que o fazes a propósito da mulher/amor.

    Não sei qual deles foi pretexto para o outro… Se tiver sido a mulher/amor (sem desprimor para o Kundera), dou-te os parabéns.

    Já era tempo de o nosso blog ter um manifesto destes!

    😛

  3. Anelar diz:

    “Será que o amor absoluto não significa que devemos amar o outro com tudo que há nele e sobre ele, inclusive as suas sombras?”

    Valsa do Adeus, 1976

    Milan Kundera

  4. Rita, a frase que citaste é uma espécie de contradição com a que coloquei no post. Mas, na mesma onda da frase que referiste, pode-se, numa fase posterior d’”A Brincadeira”, ler o seguinte:

    “Kostka significava mais para ela. fazia mais por ela, conhecia-a mais do que eu, e tinha-a sabido amar melhor (…) E, no entanto, para conseguir nessa altura esse corpo desejado até ao desespero, tinha bastado uma coisa tão simples: comprendê-la, orientar-me nela, amá-la não só por essa parte da sua personalidade que se dirigia a mim, mas também por tudo aquilo que não me dizia respeito directamente, pelo que ela era em si mesma e para ela.”

    Logo, no mesmo livro, Kundera coloca em confronto duas reflexões bem distintas e adversas sobre a percepção do amor. Mas, pergunto eu, não serão as suas próprias contradições, os sentimentos indefiníveis ou a alma recheada de emoções e dúvidas em conflito, a essencia grandiosa do amor e que o torna tão especial?

  5. Anelar diz:

    Sem dúvida é esta contradição de ideias que me apaixona pela escrita de Kundera. Não estou, contudo, a falar da contradição entre a citação de “A Bricandeira” e a que pertence à “Valsa do Adeus”. Estou sim a referir-me à contradição entre a tua interpretação da segunda citação e a minha.
    Quando li o excerto de “A Brincadeira”, veio-me à memória esta citação da “Valsa do Adeus”, que achei que estava na mesma linha. Ou seja, tal como Kundera afirmou na primeira citação “Era um erro de raciocínio abstrair a mulher amada do conjunto das circunstâncias em que se conheceu…depurá-la de tudo o que não fosse ela própria”, penso que a ideia se repete na “Valsa do Adeus”, quando afirma “…devemos amar o outro com tudo que há nele e sobre ele, inclusive as suas sombras?”. Com ambas as afirmações fiquei, à priori, com a ideia de que o amor não deve ser decantado daquilo que o rodeia, caso contrário, penso que nenhum de nós saberia o que é o amor, assim como nenhum de nós vai alguma vez conhecer a verdade absoluta (isto se ela existir).
    Contudo, percebo a tua ideia, João. Ou seja, que amar o outro pelo que representa para nós pode ser incompatível com o amor por tudo o que o outro é, para além da parte que se dirige a nós.
    Depois desta reflexão penso que ambas as interpretações estão correctas. E é esta plasticidade, que o Kundera nos confere com a sua obra -a capacidade de nos colocarmos na perspectiva do outro- ,que torna a sua obra tão especial.

    “Se queremos compreender o mundo temos de abarcá-lo em toda a sua complexidade, na sua essencial ambiguidade”Milan Kundera

    Espero que este debate filosófico todo, tenha servido, pelo menos, para te cativar para leres também a Valsa do Adeus 🙂

  6. João Torgal diz:

    “Se queremos compreender o mundo temos de abarcá-lo em toda a sua complexidade, na sua essencial ambiguidade” Milan Kundera

    Essa frase que usaste diz muito do que é a obra do Kundera e do fascínio que os seus livros nos proporcionam. Mais do que contraditórias, as interpretações podem ser complementares, o que só contribui para alargar os horizontes dos livros e para aumentar ainda mais a profunda riqueza destas obras-primas.

    É claro, Rita, que lerei “A Valsa do Adeus”, mas não de imediato. Os livros do Kundera são demasiado marcantes, introspectivos e existencialistas, mexem demasiado comigo para que os consiga ler consecutivamente.

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