O futuro de Manuel Alegre

 

Pegando nas palavras do meu caro amigo Zé Pimentel no post anterior, já por diversas vezes referi que um dos maiores paradoxos da democracia é o facto das principais estruturas deste regime, os partidos políticos, não serem, por si só, democráticos. As pessoas podem votar nos seus representantes, mas depois a partir daí têm de seguir cegamente a posição oficial do partido. No caso de não o fazerem, duas coisas podem acontecer: serem suspensos ou definitvamente afastados do partido ou, no caso disso não acontecer, ficam pelo menos totalmente afastados dos focos de decisão. Fala-se muito da falta de democacia interna do PC, mas, de facto, isso é claramente uma situação que se alastra aos outros partidos.

O caso de Manuel Alegre é, no entanto, um pouco diferente. Quem deveria fundar um novo partido (ou pelo menos mudar o nome actual) seria Sócrates, Vara, Coelho, Santos Silva e companhia. No meu ponto de vista, o sentido da existência de um partido é haver uma matriz ideológica forte e comum, que depois poderá então ser interpretada à sua maneira por cada um, com as respectivas ideias e convicções pessoais. O que se passa no PS (Partido do Sócrates) é que a matriz ideológica fundadora do PS (Partido Socialista), de partido de esquerda moderado, social e progressista, simplesmente já não existe. Assim sendo, Manuel Alegre tem várias opções e nenhuma delas é fácil e óbvia:

      1. Permanecer no PS, um partido em que não se revê minimamente e que está hoje entregue a uma cambada de oportunistas e aos respectivos carneiros que pretendem tomar no futuro o seu lugar.

     2. Sair do PS e entrar no Bloco de Esquerda, o que acho não fazer qualquer tipo de sentido. Apesar de Alegre estar bastante mais próximo do BE do que do PS actual, ainda há uma clivagem de discurso entre ambas as partes que não será fácil de eliminar.

    3. Sair do PS e fundar um novo partido. Criar um partido novo à sua imagem, tendo como adversário o PS, que lhe diz tanto e do qual deveria ser uma grande referência, é de certeza uma decisão difícil e que lhe deve dar um profundo aperto na alma.

      4. Sair do PS e manter-se relativamente à margem, o que, mesmo efectivando um apoio político nas próximas eleições ao BE, ao PC (bastante mais improvável) ou a uma outra convergência de esquerda, o fará provavelmente perder muito do espaço mediático que felizmente ainda conserva.

Qualquer que seja a sua decisão, espero que Alegre permaneça fiel aos seus princípios, continuando a ser uma das minhas grandes referências pessoais. Coerentemente, ainda julgo que, para contariar a iliteracia, a demagogia, o cinismo, a falsidade e a ambição desmedida de poder de Sócrates e companhia (prolongado, à sua maneira, por Cavaco na presidência), para confrontar o pragmatismo cego da sociedade actual, Manuel Alegre teria sido  a escolha certa para presidente, com o seu humanismo e idealismo, a cultura e a poesia, o sonho e a utopia.

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16 respostas a O futuro de Manuel Alegre

  1. José Maria Pimentel diz:

    1. Chama-me tudo o que quiseres, menos “Zé Pimentel”!!!

    2. Não estou inteiramente de acordo com a mudança de nome do PS. O actual PS é resultado de duas tendências diferentes. Uma, estrutural, corresponde à evolução que alastrou a toda a Europa e que tornou os Partidos socialistas (ou dos trabalhadores, ou sociais democratas) algo diferentes. Sem julgar a qualidade dessa mudança, parece-me, tendo em conta que e um fenómeno à escala europeia, que fará pouco sentido todos os partidos mudarem o nome. Como se o significado do nome fosse estanque. Por outro lado, há uma tendência conjuntural, a nível nacional, de enfraquecimento provisório da direita que leva o PS a “chegar-se” à esquerda. Ora, sendo, como disse, algo conjuntural, não concordo que também isto aconselhe uma mudança de nome.

    3. Eu simpatizo com o Alegre, mas o homem é um “bon vivant”…e mais não digo.

  2. 1.Não te sabia tão melindroso com o nome, meu caro José Maria Pimentel:)

    2. A “evolução” é um factor relativo e não tenho certezas que esta seja feita da mesma maneira nos outros países europeus. Independentemente disso, se da génese do partido já não resta nada, não faz qualquer tipo de sentido manter o nome. Que lógica tem que um partido socialista não seja socialista?

    3. O Alegre é um dos símbolos de luta pela democracia e um dos poucos da nossa classe política que ainda preserva algum idealismo. Pode-se achar muita coisa dele, mas isso é inquestionável.

  3. A “chegar-se” à direita, querias tu dizer…

  4. José Maria Pimentel diz:

    A.S. sim, exacto. Quanto ao nome, é uma questão de credibilidade! 😛

    1. Atenção que eu não digo que discordo completamente dessa possibilidade de alteração do nome. Mas parece-me muito arriscado embarcar por essa via. Por uma razão ligada a uma pergunta muito simples:

    Qual é o verdadeiro PS?

    O PS que descreves (“partido de esquerda moderado, social e progressista”), creio que estás ciente disso, não é bem o PS de 74, que se afirmava marxista. Será provavelmente um PS posterior. Não é, claro, o PS de agora.

    Cingindo-nos a estes três, explicar-me-ás o porquê de escolher a matriz do meio? Na verdade, vejo argumentação mais válida para cada uma das outras duas hipóteses. Quanto à última, já expus as razões. Em relação à primeira, bem…basta pensar no nome: socialista.

    2. Como disse, aprecio o Manuel Alegre. E é verdade o que dizes. Mas, como disse (aliás, sugeri), não me parece indicado para a política.

  5. José Maria Pimentel diz:

    (quando digo: do meio, baseio-me na ordem cronológica)

  6. paulo jorge pereira diz:

    Nestes dias que correm, não interesa tanto o nome mas sim a imagem/propaganda associada a cada oligocracia(que é o que são os partidos e que depois executam quando estão no poder).O P.S. não é socialista mas propagandeia(com grande eficiência) que aumenta abonos e outros apoios sociais, mas só não diz é que esses chegam a muito poucos, porque à maioria que perde direitos e oportunidades não chega nada( o bolo vai quase todo para sustentar os amigos das obras publicas e banca); não diz que corta nos apoios ás IPSS que são quem faz o que o estado devia fazer; não controla as empresas monopolistas(combustiveis e energia) porque ganha nos impostos e garante empregos para depois da governação. Manuel Alegre, concordando-se ou não com ele, mantém uma cultura democrática que não se adapta aos tempos da imagem propagandista herdada de 1936 que faz efeito hoje em dia(infelizmente, porque sempre era um mal menor, essa democracia de Alegre).

  7. Fico naquela margem muito usual nas nossas eleições que é a abstenção. Se comento isto, corro o risco de ser banida deste blog… E mais não digo.

  8. José Maria Pimentel diz:

    “Tempos da imagem propagandista herdada de 1936 que faz efeito hoje em dia.” Ui, essa é forte! (e talvez exagerada. Esses exageros são sempre perigosos).

    Coccinellidae (este nome obriga.me sempre a copy/paste):

    Pode(s) comentar à vontade, acho que não há esse risco.

    Aproveito, porém, para deitar mais uma acha para a fogueira. Considero que a abstenção equivale à manifestação de um não interesse na escolha democrática (ao contrário do voto em branco). Tendo em conta as expressivas abstenções que vamos tendo, acho que não é preciso explicar onde me leva este raciocínio…

  9. Anelar diz:

    Os meandros políticos são algo em que não me sinto muito à vontade para tecer comentários…Mesmo assim parece-me que de todas as opções que expuseste, infelizmente, penso que o Manuel Alegre escolherá a última…Como homem de princípios que é, julgo que o mediatismo será o menos importante perante outros valores, que infelizmente vão escasseando cada vez mais na política nacional…Se assim for, pode ser que dê uma lição a muitos aspirantes-a-políticos-que-pensam-que-já-são..Duvido contudo que esses aspirantes-a-políticos-que-pensam-que-já-são consigam apreender a mensagem, porque os piores cegos são aqueles que não querem ver…
    Contudo tudo isto se trata de um cenário hipotético,e apesar de não ser religiosa, pode ser que se dê um milagre na vida política portuguesa,e o Manuel Alegre não se veja obrigado a tomar nenhuma destas opções…

  10. Tanto comentário interessante…

    1. Paulo, subscrevo quase tudo o que dizes. Em vez de uma estrutura ideológica concreta, de agregação de pessoas com visões políticas diferenciadas, mas com princípios em comum, o PS não é mais do que uma máquina imparável de propaganda e de controlo de informação. Nada aparenta ser feito ou dito com base em qualquer tipo de convicção, mas apenas com objectivos oportunistas, eleitoralistas, de poder e de satisfação dos “boys” do partido, aqueles que não se destacaram de outra maneira que não fosse a lamber botas dentro da juventude partidária (os sucedâneos da linhagem Sócrates). E, seja herdada de 1936 ou não, nessa área da aparência, da imagem e da fachada, este governo de Sócrates é exemplar na forma como consegue transmitir apenas e só o que quer e quando quer.

    2. Joaninha, Joaninha, neste blog tens toda a liberdade para dizeres o que te vai na alma. Ao contrário dos partidos políticos da actualidade, o sentido democrático e o respeito pela diferença são, neste espaço, do mais genuíno e verdadeiro possível 🙂

    3. Zé, é lógico que há uma diferença gigantesca entre quem se abstém e vota em branco, pois esta última situação demonstra tendencialmente uma crítica à classe política, enquanto isso já não é notório relativamente a quem simplesmente não se desloca até ao local de voto. Pena é que este nosso sistema política não reconheça essa diferença. Na eleição em que os votos brancos mais importância podiam ter, as presidenciais, foi o que se viu: Cavaco não teve a maioria absoluta dos votos válidos, mas como os brancos são vergonhosamente considerados da mesma maneira que os nulos e as abstenções, acabou por vencer na primeira volta. Veio-me à cabeça a obra-prima “Ensaio sobre a Lucidez” de Saramago, que aborda precismante a questão dois votos em branco e é brilhante retrato da podridão, do corrompimento e do cinismo do poder político e de que a democracia só lhes agrada quando serve os seus interesses pessoais (talvez faça um post sobre o livro daqui a uns dias).

    4. Rita, embora tenha muitas dúvidas de qual a melhor opção de Alegre, também me parece que a última será a solução mais lógica e mais coerente com a sua forma de estar na política. Ainda assim, no caso de se concretizar a perda de mediatismo das suas posições, vai ser uma grande perda para a democracia portuguesa, já tão pobre nos tempos que correm. Em vez da frase que usaste (“O pior cego é aquele que não quer ver”) prefiro esta adaptada do “Ensaio sobre a Cegueira”:
    “Penso que estão cegos; cegos que vêem; cegos que vendo, não vêem”

  11. José Maria Pimentel diz:

    Essa falha do sistema, meu caro – e já adivinhava que a salientasses – é uma total imbecilidade! Não percebo, sinceramente, como pode ser assim…

    P.S. Já sei porque livro do Saramago começo…

  12. Conversa de café

    Quebra-Costas, 11 de Janeiro de 2009, 02h34:


    Joana (uma qualquer) – (…) Mas diz-me, achas que se o PS, na altura das Presidênciais o tivesse escolhido como candidato, ele, com tais príncipios que tu achas que tem vincados, teria recusado?

    João Torgal – Isso, infelizmente causa-me algumas dúvidas…”

  13. João Torgal diz:

    Zé, começa antes pelo “Ensaio sobre a Cegueira”, que o “Ensaio sobre a Lucidez” tem alguma vertente de continuidade do primeiro livro.

    Joana, a dúvida e a reflexão são características fundamentais da Natureza e da condição humana 🙂

  14. Paulo Jorge Pereira diz:

    José: “e talvez exagerada. Esses exageros são sempre perigosos”__há uns anos(por volta de 1936) muitos dizeram algo muito parecido…e foi o que foi! O perigo está, precisamente, em não falar e chamar as coisas pelos nomes (até está na moda a “inverdade” em vez da “mentira”!). Concordo com M.Alegre quando diz que agora estamos num período de perigo para o surgimento de totalitarismos (principalmente camuflados) apesar de eu achar que já estamos numa clara oligocracia que nõ é mais que uma forma polida e camuflada de ditadura.
    Quanto á “falha do sistema” relativamente aos votos brancos, só se formos ingénuos é que lhe chamamos “”falha”:é apenas uma forma de aprofundar a referida oligocracia.
    Por falar em lucidez:O banqueiro anarquista – Fernando Pessoa

  15. Paulo Jorge Pereira diz:

    ..esquecime do fabuloso “Triunfo dos porcos” que completa “1984” e que adapta muito bem á nossa pequenez

  16. Pingback: A perversa candidatura presidencial de Alegre « A Mesa de Café

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