Curiosa diferença

No sistema político americano há apenas dois Partidos. No sistema europeu há…vários Partidos.

Neste último, o Partido funciona como unidade agregadora, consciência comum a todos os seus membros. Ou seja, um político é sempre e quase unicamente classificado pela estrutura a que pertence. Já nos EUA, os políticos, mais do que pelo Partido que os une, são classificados com base nas relações que têm, nas posições tomadas, etc. Ou seja, num dos sistemas os políticos confundem-se quase em absoluto com os Partidos que os agregam, de tal modo que é altamente raro assistir-se a uma votação em que um Partido não vote em uníssono, no outro, os políticos valem quase por si e é extremamente comum assistir-se a votações em que cada congressista vota individualmente (veja-se as recentes votações dos dois planos de bail-out).

Conclusão, visões globais semelhantes mas com algumas divergências ficam, nos EUA, no mesmo Partido. Na Europa – e, particularmente, em Portugal – passa-se o oposto. Acredita-se que um partido corresponde a uma determinada visão, a um ponto de vista muito particular. Isto é, na minha opinião, o contrário do que devia ser. Este “ponto de vista muito particular” é, normalmente, característica de cada pessoa e nunca deveria ser entendido como de um partido. Caso contrário, como acontece com os partidos mais afastados do eixo, sobram poucas pessoas que partilhem – ou pensem partilhar – esse ponto de vista.

O que acontece em Portugal, consequentemente, é que, se alguém não tiver “bem bem” “aquela” opinião, faz melhor em sair, pois no Partido apenas há espaço para aquela visão precisa e mais nenhuma. Foi esse, aliás, quase sempre, o caminho daqueles que ousaram discordar activamente das linhas políticas dos seus partidos (quando não tinham propósitos de tomarem eles próprios a liderança, claro).

Hoje assistimos a isto à esquerda. Manuel Alegre sai do PS, pois não partilha das políticas do Governo. Certo. Mas não vai para o PC nem para o BE. Não, prefere criar um novo partido, porque aqueles, apesar de tudo, não são “exactamente” o que ele quer. Não é bem aquilo, pronto, deixem-no lá!

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6 respostas a Curiosa diferença

  1. André Amado Belo diz:

    Excelente ponto de vista. Subscrevo totalmente.

  2. José Maria Pimentel diz:

    Obrigado! Não diga(s) essa palavra, “subscrevo” tende facilmente a espoletar um abaixo assinado (ou, como se diz agora, uma petição)! 😛

  3. João Gil diz:

    Deixa-me só acrescentar algo que julgo relevante. Sendo certo que há uma tendência maior para a “individualidade” nas câmaras políticas americanas, não vejo que isso esteja (sobretudo) relacionado com uma dicotomia entre um sistema de bipartidarismo ou de fragmentação partidária. Repara que as câmaras americanas acolhem membros eleitos como representantes estatais. Esta situação não é comparável aos círculos distritais para o parlamento Português (que até se pode considerar um caso de bipartidarismo imperfeito) nem com, por exemplo, as constituencies inglesas (outro caso de bipartidarismo). Os estados americanos representam não raras vezes interesses antagónicos e sensibilidades políticas muito diversificadas. Isto reflecte-se naturalmente na heterogeinidade das posições defendidas no Congresso/Senado.
    Assim sendo, acabo por concordar contigo no que diz respeito à descrição da situação: os políticos americanos têm efectivamente muito mais liberdade em relação a directórios partidários. Apenas não concordo que isso seja uma “curiosa diferença” da excentricidade indígena americana. É uma inevitabilidade inerente à organização federal que não tem paralelo nos sistemas políticos europeus.

  4. José Maria Pimentel diz:

    Por acaso acho que isso que descreves encaixa na descrição (devia tê-lo referido). É outra das manifestações do fenómeno que descrevo. Os representantes das localidades – sim, também os temos – não “funcionam”, digamos assim.

    Claro que isto tudo não é assim tão simples, mas não deixa de ser interessante reflectir sobre a situação.

  5. Acho que comparar o nosso, ainda que fraco, sistema democrático com o dos Estados Unidos, com uma opinião perigosamente tendenciosa para o último, merece desde já o meu comentário.
    Em relação ao que dizes sobre os partidos… Não sei se pertences/já pertenceste a algum partido, mas a tua opinião, para mim, assemelha-se muito àquela dos que criticam o governo e não foram votar.Não me parece que fales com grande conhecimento de causa.
    Os partidos têm de ser claramente uma visão comum que unifica as massas e com a qual se traça um caminho, caminho esse, que, nalguns partidos, ao contrário do que dizes, vai-se escrevendo e alterando com a discussão colectiva e a participação totalmente democrática dos seus militantes.

  6. José Maria Pimentel diz:

    1. Não sei sinceramente que conhecimento de causa será preciso…algo que rebaterá a evidência clara nas votações da Assembleia da República?

    2. Não me lembro de ter criticado o governo ou de ter sequer, soltado, alguma observação mais demagógica. Aliás, disse – e repito – “Claro que isto tudo não é assim tão simples, mas não deixa de ser interessante reflectir sobre a situação”.

    É evidente que os partidos têm uma visão comum. Não estou aqui a expor uma situação de 8 e 80. Agora, a verdade é que, na minha opinião, funciona bastante pior que nos EUA. Embora claro – admito-o – isto esteja longe de ser linear…

    Sobretudo dá-me ideia que pensas que estou a criticar o nosso sistema por falta de democraticidade…não é bem isso.

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