EUA – uma reflexão

Aproveitei o rescaldo da eleição norte-americana para voltar a ver (desta vez integralmente) o discurso de Barack Obama à convenção democrata de 2004. Numa espaço destinado a aclamar o candidato à presidência, John Kerry, e o seu vice-presidente, um candidato a Senador do Illinois, praticamente desconhecido, levanta-se e faz um discurso de mão cheia, ofuscando tudo e todos. Sem qualquer tipo de auxiliar, Obama dirige-se à plateia e, sem hesitar numa única palavra, “agarra” a multidão. Não exagero quando faço esta descrição, aconteceu de facto. Não havia um ecrã invisível como nos discursos de Socrates, havia pura eloquência. Na plateia, divisavam-se já sinais da onda que hoje vemos, consequência da sua arrebatadora campanha para o Senado e uma amostra do que vimos nos últimos 2 anos. No público viam-se – as imagens não mentem – pessoas a chorar, faces imóveis, verdadeiramente hipnotizadas. Naquele momento, embora ninguém então de tal se apercebesse, dava-se o primeiro passo de um longo caminho, perfeitamente planeado, em que todas as peças encaixam com a que se segue. Um caminho que passou por um livro – best seller – The audacity of hope – no qual o conteúdo deste discurso era desenvolvido, para se tornar na pedra de toque da campanha a que assistimos e da filosofia Obama.

Houve coisas verdadeiramente impressionantes nesta campanha. Uma delas foi o sentimento de profunda inevitabilidade que se criou, um quase determinismo hegeliano. Uma inevitabilidade espelhada no discurso de McCain na noite da derrota, no apoio comovido de Collin Powel, no entusiasmo da republicana Condoleeza Rice e, finalmente, nas declarações de Bush. O sentimento é comum: há uma hipótese única de se fazer história, não será desperdiçada.

As pessoas foram confrontadas com uma campanha extremada, opondo um homem brilhante, um cativador de massas sem igual, a alguém que o sentimento comum tinha como “velhote”, de carácter imaculado é certo, mas que pouco oferecia ao país e, sobretudo, ao mundo. A isto acresce o facto de o candidato brilhante oferecer aos EUA a hipótese de eleger, pela primeira vez, um preto como Presidente, num acto cujo significado vai muito para além daquele que primeira vista transparece. Não se trata só de o facto do homem que usa o fato presidencial ser preto, nem sequer do facto do peso da história que rodeia a comunidade afro-americana. É um fenómeno que – pela primeira vez desde a 2ª GM – extravasa as fronteiras norte-americanas. Não é por acaso que este fenómento se estendeu a todo o mundo. E não é, ainda, por acaso que os EUA radquiriram a consciência do mundo que os rodeia.

Para além de preto e de uma das mais brilhantes figuras políticas da história mundial, Obama representa algo novo, e foi este facto o grande responsável pela sua eleição: a nova consciência dos EUA. A nova consciência de um país que chegou ao topo e que começa a ver a sua posição ameaçada. Um país que percebe que não pode manter-se numa posição isolacionista e que precisa, agora, do resto do mundo. Ao mesmo tempo, quando todos já os tínhamos como parte do passado, os EUA dão uma lição ao mundo, fazendo algo sem precedentes. Esta eleição não se teria talvez concretizado se não houvesse este sentimento por parte dos americanos. O mundo, estou certo, pesou – e muito – na decisão. Tal como tinha pesado em 1944. Mais uma vez, e quando já todos vaticinavam o seu desfalecimento, a nação americana olha para o que a rodeia e decide mostrar o que sabe fazer.

Em último caso, meu caro Torgal, é esta a mudança que Obama traz. E essa é já clara. Os EUA já não são o país de Reagan, Bush ou Clinton, são de novo um país do Mundo. E para que, apesar disso, não percam a liderança, é preciso uma administração consciente. Algo que Bush não oferecia e que McCain, homem que aprecio, dificilmente faria. Obama é, desde há muitas décadas, o primeiro Presidente com consciência do mundo. E isso, Torgal, é o que os EUA e o mundo precisam.

P.S. Um dado curioso e que acho oportuno acrescentar é o facto de McCain ter uma filha preta. Ao que parece, adoptou-a no Bangladesh há uns anos. Não deixa de ser de louvar o carácter do homem ao não usar este potencial trunfo na campanha. Bush, estou certo, não hesitaria! Esta “peculiaridade” da família McCain já tinha sido alias, notícia, aquando das primárias em que McCain defrontou Bush. Na altura, Karl Rove, homem da família Bush para o trabalho sujo, ventilou discretamente a notícia de que McCain tinha uma filha preta e ilegítima. Crê-se que este foi um dos principais motivos para o afastamento de McCain e consequente eleição de Bush.

P.S.2. Não deixa de me espantar a coesão dum país que não é mais que um conjunto de estados .

P.S.3 Simplesmente brilhante o modo como Obama encaixa o seu discurso na promoção da campanha de Kerry.

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Uma resposta a EUA – uma reflexão

  1. João Torgal diz:

    Zé, quero deixar claro que tudo o que disseste sobre o Obama eu concordo. Aliás, eu valorizei o sonho do Obama, as suas convições, o seu idealismo consciente, o seu estilo mobilizador e a sua vontade de mudar o Mundo e de abrir um novo rumo na relação com os parceiros externos.
    O meu cepticismo prende-se com o facto de, na minha opinião, isso não ser suficiente para mudar radicalmente a tão enraizada sociedade americana, quanto mais a sociedade mundial

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