Participação Olímpica Portuguesa – O outro lado da questão I

A tragicomédia olímpica

 

2008 annus horribilis em Pequim é o título provável com que ficará na história a odisseia dos atletas portugueses nestes Jogos Olímpicos. Foi toda uma tragicomédia olímpica que se instalou no país, indignado com as poucas medalhas, a escassez de brio e a inconveniência oratória de alguns atletas. Logo o moralismo lusitano se elevou! Chorando os milhões gastos pela comitiva olímpica e condenando os desportistas e as desportistas que não declaram sofrer intensamente pela bandeira, quais Martins Moniz e Padeiras de Aljubarrota do desporto moderno.


Tínhamos direito a pedir-lhes mais? Sim, porque o Comité Olímpico Português conseguiu a proeza de assinar com o Governo um contrato estipulando previamente o número de medalhas a alcançar. No espírito dos dirigentes olímpicos portugueses a vitória não é uma probabilidade, mas uma certeza contratualizada. Pensávamos nós que o espírito olímpico significa que participar é mais importante do que vencer. Na versão portuguesa, ganha-se antes de participar.


Não admira que as expectativas fossem tão altas à partida. A muitos atletas, eventualmente ciosos de agradar aos patrocinadores, faltou prudência nas palavras. Não se deve esfolar a pele do urso antes de o caçar, aprendi eu com o druida do Astérix. As televisões levaram para Pequim o discurso do futebol, cuja chave é o verbo sonhar. Os atletas sonham, o jornalista sonha, o povo sonha, Portugal inteiro sonha com as medalhas. Vanessa ganhou a prata? Pois agora sonha com o ouro em Londres. O cavalheiro do remo passou a eliminatória? Pois Portugal volta a sonhar com a medalha. A palavra sonho devia ser banida do jornalismo televisivo português.

E tal como no futebol, depois de muito sonhar, sofre-se e castiga-se. Uma irracionalidade dá lugar a outra. Horror, há atletas que recebem mil euros ao mês, diz-se. Lá se foram 14 milhões de euros dos contribuintes, ouve-se. Que grande desperdício, chora-se. Até Obikwelu pediu desculpa pelo dinheiro gasto: mas o atleta a quem se exigia o ouro é pior pago do que um defesa-esquerdo de uma equipa da Liga de Honra de futebol. E 14 milhões é um terço do que custou em média cada estádio do Euro 2008, incluindo o prodigioso elefante branco construído no Algarve, que só abre quando o rei faz anos.


O país que pede aos atletas olímpicos que curem a nossa eterna depressão nacional é o mesmo que, ao longo de quatro anos, basicamente não liga pevide a qualquer desporto que não seja o futebol. É costume ver-se um campeonato nacional de atletismo na RTP1, na SIC ou na TVI? Ou de basquetebol? Ou de vela? Não, para além do chuto na canela só chegam aos grandes canais sucedâneos como… o futebol de salão ou o futebol de praia. Excepto se estiver envolvido o Porto, o Benfica ou o Sporting, aí o voleibol ou o andebol servem para desenjoar um bocadinho do prato principal. Os portugueses não gostam de desporto. Gostam de clubes de futebol.


E agora exige-se até que os atletas olímpicos estejam preparados para falar com a comunicação social… Para quê, se ninguém fala com eles o ano inteiro? Mas o mais grave é as declarações de três ou quatro atletas estarem a servir para transformá-los em bodes expiatórios, camuflando o evidente disparate de um comité olímpico que deu por garantidas medalhas que não podia prometer. E colocando em cima dos atletas uma pressão pouco recomendável.


Estou pois de acordo com Marco Fortes, o primeiro lançador do peso português a competir nuns Jogos Olímpicos, quando diz que a manhã é para ficar na caminha. Ele, ao menos, sonha a dormir. Tem mais juízo do que um país que passa o dia a sonhar acordado.

Miguel Gaspar, in Publico de 21 de Agosto

 

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