Festivais de Verão – Andanças 2008

 

Nunca sei bem que expectativas levar para um festival de Verão. Como em tudo, se as levo demasiado elevadas é quase certo que me vou desiludir. É por isso que vou sempre reticente. Vou tentar deixar aqui uma crítica alargada do que foi a minha experiência pessoal neste surpreendente festival.

 

 

Cartaz 2008

Cartaz 2008

 

 

 

O Cartaz

Imagine um festival em que os músicos chegam da mesma maneira que o resto das pessoas, acampam no meio delas e metem conversa com elas. Pois bem, isto é o Andanças. Não se surpreenda se ao andar pelo recinto for abordado por várias pessoas que identifica como pertencendo a bandas que actuam no festival. A ausência de backstage dá uma ideia bem clara do espírito que se vive.

As bandas são do que melhor se faz em Portugal, seguramente. Tendo algumas delas já CD’s lançados (e esgotados) é surpreendente como continuam a viver no meio da total obscuridade. Posso referir-me aos “Uxukalhus”, aos “Pé na Terra”, aos “Monte Lunai”, aos “Mu”, aos “Tor”, aos “Olive Tree Dance” etc. Provavelmente nunca ouviu falar em nenhuma delas. Eu também não teria, certamente, se não fossem os posts do João Torgal aqui n’ A Mesa (ele poderá contar-vos como foi fácil conseguir entrevistas).

Não há muito mais a dizer. São essencialmente bandas folk, jovens e de muita qualidade, na maior parte dos casos. Ninguém entende como não passam nas rádios. Não se trata de nada experimental ou de difícil ouvido. A maior parte é, até, bastante dançável (sendo esse um objectivo das bandas que vão ao Andanças, já que para alem da música popular também se pretende divulgar a dança).

 

Os Concertos

Imagine agora que aterrou no meio de um baile popular ou numa festa de aldeia (ranchos e grupos do género de todo o mundo actuam no Andanças), em que tem à sua volta dezenas de pessoas impecavelmente coreografadas a dançar. À tarde aprendem-se as danças, à noite dança-se. As bandas explicam com toda a paciência como dançar, as pessoas aprendem e aplicam os conhecimentos adquiridos à noite. É a melhor maneira de conhecer gente nova, caso tenha coragem (nascido não com um, mas com dois pés de chumbo, achei por bem deixar para quem sabe). É isto que torna os concertos tão diferentes neste festival (aparte da enorme empatia que as bandas criam com a audiência, em cima e fora do palco – algumas delas acabam os concertos a tocar no meio da público; o que não constitui nenhum problema, já que também não existem seguranças, nem grades): o espírito contagiante com que se assiste aos concertos: quem vê de fora não vê uma multidão esfusiante, mas um grupo coordenado de dezenas de pessoas a divertir-se. Diferente de tudo o que vi até hoje.

 

As Instalações

Não se compreende como é que num festival que tem, provavelmente, 1/3 do orçamento que a maior parte dos grandes festivais de Verão têm (basta dizer que é organizado por uma Associação cultural sem fins lucrativos) as condições são tão… boas. Existem dezenas de casas de banho montadas no recinto (casas de banho a sério, não casas de banho de plástico), bem como chuveiros (quentes e frios) e torneiras com água proveniente da Serra, sempre fresca e de óptimo sabor. Existem dois campings: um calmo, em que o barulho cessa às 21h, e um geral, em que o barulho cessa às 24h. Primeiro ponto negativo: tratando-se de um festival de Verão, não se percebe a obsessão em acabar com o barulho às 24h. Por outras palavras, é proibido qualquer ajuntamento a partir destas horas no interior do parque de campismo. No entanto, ao contrário do que acontece, por exemplo, no Sudoeste, há espaço de sobra para acampar. Sobre as refeições falo no ponto a seguir.

 

As Refeições

Não me compete a mim julgar o destino que a Associação Pedexumbo dá aos lucros do festival. Devo dizer, no entanto, que a maior parte dos produtos e serviços comercializados no interior do recinto estão a preços perfeitamente razoáveis. Na maior parte dos casos estão aos mesmos preços a que se encontram fora do festival. As refeições na cantina são bem servidas e completas, e custam 5€. Exactamente o mesmo que se paga nos restaurantes fora do recinto, que não incluem sopa e fruta. Tendo como termo de comparação as cantinas universitárias de Coimbra, parecem caras. Mas se compararmos com os preços praticados noutras cantinas (ex: Lisboa) os preços correspondem à realidade. E esta é uma excelente oportunidade de fazer refeições equilibradas, havendo até um menu vegetariano.

Existem, também, mais 3 restaurantes dentro e ao pé do recinto: um vegetariano e outros dois de fast food. Igualmente a preços razoáveis, à excepção do vegetariano, que pode sair caro, caso se pretenda sobremesa ou sumos naturais.

A organização montou, ainda um mini-mercado na zona do parque de campismo. Ideal para tomar o pequeno-almoço a preços razoáveis (por 2€ compramos pão, queijo, fiambre e iogurtes, por exemplo).

Como se pode concluir facilmente, não há falta de alternativas para comer no festival.

 

O Conceito

No andanças a ecologia é levada a sério. E não se trata apenas de incluir pontos de separação de lixo em todo o festival. Tudo é pensado para gastar e sujar o mínimo. Não há copos, nem pratos, nem talheres de plástico (política de “descartáveis zero”). No início do festival compra-se (ou aluga-se, solução pensada para os mais frugais) uma caneca de lata que é onde são servidas todas as bebidas que se consomem no festival. Isto significa que não há toneladas de copos de plástico no chão, nem para reciclar. Caso se traga prato e talheres de casa usufruímos, ainda, de um desconto de 0,50€ em cada refeição. Quem não traz é obrigado a alugar, sendo devolvida no fim a caução.

© Manan Xuxudi

A única maneira que existe de aceder a um computador é pedalando numa bicicleta (parece óbvio que isto já é um bocado exagerado – nem área de imprensa existe). Há, no entanto, uma zona para carregar telemóveis e dezenas de tomadas para outras necessidades, já que os headquarters do festival são numa escola.

Escusado será dizer que este cuidado torna as pessoas conscientes, razão pela qual é raro o lixo que se vê no chão. Esta estratégia merece, definitivamente, um aplauso.

 

As Actividades

O Andanças é um acontecimento surpreendente, onde se encontra todo o tipo de pessoas: músicos, construtores de instrumentos, contadores de histórias, pintores, etc. As actividades estão a cargo deles. Há fogueiras e histórias, workshops de construção de instrumentos, aulas de instrumentos, actividades de pintura, etc. Como se já não bastasse, o festival localiza-se ao pé da Serra. O rio que a atravessa vai formando pequenos lagos no seu leito, que na região são denominados como “poços”. Enchem facilmente, mas há vários, basta procurar um que esteja mais vazio. A água é gelada, mas sabe bem, tendo em conta o calor que se faz sentir.  Existem ainda as piscinas do Pisão, e autocarros para transportar as pessoas para lá. Fazem-se ainda caminhadas pela Serra. Enfim, há tanta coisa para fazer que é impossível estar parado. Note-se que estas actividades servem, por exemplo, para quem não está muito interessado em dançar, já que é à tarde que se aprende. Para relaxar, pode fazer yoga, terapias do abraço e do riso ou o que bem lhe apetecer, já que tudo é mais ou menos tolerado e permitido (garantimos que não é difícil arranjar quem o acompanhe, seja em que actividade for).  

 © Blue.Trek 

As Pessoas

O Andanças é, para alem de um festival multicultural, um festival em que se juntam muitas pessoas diferentes (desde banqueiros a artistas de rua). Mas há uma coisa notória: todas estão lá para o mesmo, que é… diversão. Não há pessoas hostis; há apenas uma dose de tranquilidade que parece afectar todas as pessoas que estão no festival. Durante uma semana tudo é feito com boa disposição, disponibilidade e vontade de ajudar. Mesmo que não se ganhe nada com isso. No entanto, é óbvio que as coisas funcionam e correm melhor. Durante uma semana conhecemos dezenas de pessoas, e essas dezenas de pessoas conhecem-nos a nós. Conversa-se sobre música, sobre o festival, sobre política (é óbvio que o Berloque tinha que aproveitar a ocasião para alguma propaganda), sobre o que era antes e o que é hoje.

Se se procura paz, este é o sítio certo. Não se espante se ao caminhar pelo recinto receber abraços de pessoas desconhecidas (a desvantagem é que tanto pode calhar uma mulher sensual como um obeso de higiene duvidosa).

 ©Ruddrud

Pontos Negativos

Não há muito a apontar, honestamente. A única coisa que talvez pudesse ser revista é a obsessão de controlo dos seguranças (quase que arrancam as pulseiras à entrada e não permitem o mínimo ruído fora de horas, nem que se esteja a 500m das tendas. Num festival em que dezenas de pessoas andam com instrumentos atrás, isto é difícil de cumprir, ainda mais porque estes parecem ser os únicos que se importam). Pessoas que foram nas edições anteriores dizem que este ano o controlo foi exagerado e, na minha opinião, desproporcionado, já que não se parece justificar. A organização deve ter as suas razões, penso eu.

 

A minha única preocupação com este festival é que se torne um Sudoeste, com o pior que isto trás: multidões, confusão, filas e problemas. Enquanto se mantiver como está, é sem dúvida uma experiência a repetir.

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10 respostas a Festivais de Verão – Andanças 2008

  1. Matusalem diz:

    Este ano fui lá por 3 dias e realmente a unica coisa que tenho a apontar negativamente é mesmo esse excesso de zelo relativamente às pulseiras…..mas se se trouxerem uma t-shirt a dizer Festival Intercéltico de Sendim – Organização, à 2ª e 3ªs passagem já ninguem chateia, dentro desse turno de 4 horas, eheheheheeh. De resto 5 estrelas, boa camaradagem, está toda a gente para o mesmo!
    É pena as televisões e as rádios só darem atenção a esse entulho sonoro de musicas pop e hip-hop e rap que têm aparecido neste país, pessoas com péssima voz e que são bastante limitadas a nivel musical e instrumental. O que é mau e é lixo, através de doses maciças de publicidade falaciosa, passou a ser óptimo, e as pessoas comem. Era bom que dessem mais atenção a estas bandas de musica tradicional e folk que têm excelentes músicos e as músicas são bem melhores que as porcarias que as telenovelas nos impingem.
    O concerto dos Pé na Terra foi qualquer coisa de fenomenal. levantei e comi muita terra lá à frente, junto ao palco. Simplesmente Brutal!
    MU e Uxu-Calhos por exemplo, devem ter dos melhores executantes a nível instrumental do país (e sei do que falo já que quase todos são multifacetados e polivalentes com outros projectos e fazem fusões na música que não lembra o diabo).
    Para o ano há mais!

  2. João Torgal diz:

    Pedro:

    Antes de mais e acima de tudo, os meus muitos parabéns pelo teu post. Extraordinariamente completo e descrevendo no essencial os principais aspectos do festival.
    Apenas alguns comentários extra:

    1. Relativamente às entrevistas, foi de facto incrivelmente fácil consegui-las. Ao contrário de outros festivais, não é preciso nem contactar promotores ou responsáveis pela imprensa, nem agendar as entrevistas. Basta falar directamente com os músicos no início ou no final dos espectáculos ou até durante o dia. E a simpatia e a receptividade destes é genericamente mais que muita (já agora se as quiserem ouvir, podem ouvir o programa Artesanato Sonoro nos dias 23 e 30 de Agosto, entre as 17h e as 18h, ou através do blog http://www.artesanatosonororuc.blogspot.com)

    2. Apesar do tal sistema de internet através da bicicleta, existia, valha a verdade, mais uma forma de acesso à internet: pagando 1,20 € por cada meia hora. Em todo o caso, faltava de facto uma zona de imprensa mínima. Dado o conceito do festival, percebia-se que não fosse uma coisa muito composta. Mas não custava nada ter uns computadores disponíveis para nós e só enriquecia a divulgação do festival. Eu tencionava escrever crónicas diárias do Andanças para o blog nos dias em que lá estive (o dia 0 e os primeros 3 dias oficiais) e assim não foi possível.

    3. Assino por baixo tudo o que disseste sobre as virtudes do festival: o espírito de camaradagem e de partilha de vivências, a ausência de barreiras entre músicos e restantes participantes, algumas das preocupações ecológicas (quando não de forma excessiva), a enorme variedade de oferta ao nível de actividades e workshops, etc.

    4. Também concordo contigo no que se refere ao excesso de zelo no controlo sobre as pulseiras e o barulho no acampamento geral. Tratando-se de um festival que defende um espírito de boa onda e comunhão e sendo a Associação Pé de Chumbo uma entidade sem fins lucrativos, não me parece nada coerente esse tipo de rigor.

    P.S. 1: Depois deste retrato fiel do Andanças, o que é que achas, Pedro, de no ano que vem te juntares à família RUC, fazendo o curso de programação?

    P.S. 2: Também concordo em absoluto com o teu comentário, Matusalem. Quer na análise à divulgação musical que se faz em Portugal, quer nos comentários que fizeste sobre os Mu, os Uxukalhus e os Pé na Terra (deixo para um futuro post algumas ideias mais específicas sobre os concertos que vi).

  3. António P. Neto diz:

    Bem, fico contente por se terem dado ao trabalho de ler o post e comentar.

    Matusalem: se estiveste a “comer pó lá à frente”, devemos ter estado a escassos metros. Foi, de facto, um concerto excepcional. De resto, obrigado pelo comentário.

    Torgal: estando já metido nas “actividades” em que estou até aos dentes (asseguro-te que me ocupam extensas horas por semana) não garanto que tenha tempo, mas é sem dúvida uma proposta a considerar. Falaremos depois melhor sobre isto!

  4. Joana diz:

    Olá!
    Sou uma “andançeira” aficionada e como tal fico sempre contente por ouvir falar bem deste festival incrivel.
    Pequenos apontamentos: também há workshops de dança de manhã. Quanto a uma zona de imprensa…bem há uma sala de computadores que era utilizada pela equipa do jornal Andanças. Na barraquinha das Informações havia uma caixa de sugestões…mas não sei até que ponto é que é mesmo necessária uma “sala de imprensa” (até agora têm-se consiguido fazer reportagens…), mas as sugestões são sempre muito bem vindas! escreve à Pedexumbo.
    Quanto às criticas negativas…tenho a dizer que não concordo inteiramente. De facto, o controlo exagerado foi uma critica recorrente. Pessoalmente não tenho razões de queixa, mas posso ser uma exepção ( até porque conhecia algumas dos voluntários que faziam o controle de entradas…).
    Quanto aos campings, aí é que estamos em desacordo. Primeiro uma rectificação: no camping calmo não se pode fazer baulho a partir das 22H( e não a partir das 21H, apesar de o silêncio, ). Além disso uma das queixas mais recorrentes foi precisamente o barulho nos campings!

    “tratando-se de um festival de Verão, não se percebe a obsessão em acabar com o barulho às 24h. Por outras palavras, é proibido qualquer ajuntamento a partir destas horas no interior do parque de campismo.”

    Para mim uma das coisas que torna o Andanças diferente e fantástico é o respeito e a igualdade que há enre todas as pessoas. Para mim, em parte, esse respeito implica não estar a tocar jambeg de manhã à noite no campismo, e não gritar MADRUGADA às 6:00 da manhã só porque se está acordado… como diz a máxima ” a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade dos outros” . Para ser sincera uma das minhas únicas queixas prende-se precisamente com o barulho no campismo (e eu acampo no calmo). Quanto a ajuntamentos desculpa lá mas é treta! Por alguma razão é que o recinto do festival e os campings não são lado a lado! Quem se quiser ajuntar que se ajunte! Não seja por isso! (e eu geralmente vou para a tenda depois do pequeno almoço, por isso, não deixo de conviver e de me “ajuntar” noite e madrugada adentro, muito pelo contrário!). Mas estou no recinto! O Andanças tem espaços pensados para tudo! para as actividades, para comer, para cozinhar, etc., e também para dormir! O propósito dos campings é dormir e descançar. Além disso, o camping calmo, por exemplo, é pensado para as famílias com as crianças. (em quantos festivais de verão há famílias com crianças, hem?).
    “e não permitem o mínimo ruído fora de horas, nem que se esteja a 500m das tendas. Num festival em que dezenas de pessoas andam com instrumentos atrás, isto é difícil de cumprir, ainda mais porque estes parecem ser os únicos que se importam”
    É claro que haverá sempre algum ruído, senão sem sequer se poderia abrir o fecho das tendas! Mas também que quem se estiver a marimbar para os outros, (nomedamente para as criançinhas), muito sinceramente é parvo (já para não chamar nomes piores!). Acho que não é pedir muito fazer um esforço… Quanto a músicos, nunca ouvi nenhum ( e conheço bastantes) a queixarem-se… já vou ao Andanças desde 2001 e nunca me lembro de músicos a tocar no campismo de noite e muito menos a horas tardias… e de qualquer modo o caçifo de insrumentos é no recinto…mesmo os “músicos amadores” é aí que costumam guardar os instrumentos e não na tenda!

  5. António P. Neto diz:

    Joana:

    Obrigado pelos esclarecimentos. De facto, enganei-me a escrever a hora a que cessa o braulho no camping calmo. Por acaso até sabia que era às 22h (nem sequer fazia sentido ser às 21h) mas não sei porquê escrevi 21h. Foi um lapso, mas agradeço a correcção.

    Deixa-me apenas precisar melhor o sentido das minhas críticas. Acho que não entendeste bem onde se pretendeu chegar…

    Apesar de ser o meu primeiro ano no Andanças, também conhecia algumas pessoas na organização/ voluntariado, e não é obviamente dessas que me queixo. Algumas delas até davam abraços em vez de apertar a pulseira (lol). Falo mesmo dos seguranças (e de um ou dois voluntários) que basicamente tentavam arrancar a pulseira do pulso (é óbvio que estou a exagerar, mas dá para perceber a ideia). Supostamente seria para que “caso estivesse danificada se pudesse avisar as pessoas e proceder à troca”; ora, uma das pessoas que estava comigo tinha a pulseira danificada, em virtude desses “puxanços” e recusaram-se a trocá-a, o que me pareceu um absurdo, já que era só substitui-la… por outra, na hora, sem mais complicações. Disseram, basicamente, para voltar caso rebentasse. Teria piada caso isso acontecesse num poço, no meio de um concerto ou em qualquer outro lugar onde não desse para nos apercebermos…

    A parte em que “estás verdadeiramente em desacordo” é a parte que com toda a certeza entendeste pior. Eu compreendo perfeitamente a tua posição e até partilho dela, de certo modo, mas acho um bocado fundamentalista a forma como as coisas são feitas. Passo a explicar: agarrando na guitarra, eu e mais uns amigos decidimos sentar-mo-nos ao pé da zona dos W.C.’s numa roda, no chão. Estávamos a tocar guitarra (só duas guitarras) e começou a juntar-se mais gente, com “kazus”, flautas, etc. Era impossível ouvir o barulho que estávamos fazer na zona das tendas. Tanto o era que fizemos isso na primeira noite e não recebemos queixas, nem sequer me parece que alguém tenha reparado. Ora, numa das noites seguintes, voltámos a fazer o mesmo… até que o segurança viu. Começou por nos “aconselhar a parar”. Nessa altura éramos uma roda de cerca de 15 pessoas desconhecidas, mas que pareciam concordar, basicamente, no mesmo: aquilo era fundamentalismo puro. Continuámos a tocar (ou melhor, a sussurrar), desta vez a “Canção de Embalar” de Zeca Afonso. Inaudível a quem estivesse a mais de 10m. Passado 1mn volta o chefe da equipa de segurança que nos ameaça com expulsões do parque de campismo. O seu subordinado remata com um “não sei quem é o Zeca Afonso, nem me interessa” que, diga-se de passagem, também foi esclarecedor. Repara que isto não é o mesmo que tocar jambé no meio das tendas. De resto, e se te deitas “a seguir ao pequeno almoço”, é natural que ouças barulho, já que é a essas horas que é suposto fazê-lo. Eu, pessoalmente, não tenho razão de queixa: achei as pessoas respeitadoras e dormi todas as noites descansado…
    E certamente não me queixaria caso ouvisse alguém a cantar e a tocar ao longe (que era o que se ouviria). Isso parece-me implicar por implicar: se é sossego que se procura não me parece que um festival de Verão seja o local mais indicado… Depois, e como em tudo, há que ser razoável…

    Como já disse, havia muitos músicos com os instrumentos atrás (tanto que se juntaram a nós) e que os guardavam… nas tendas. É uma novidade para mim saber que os podes guardar nos cacifos sem pertenceres a alguma banda. Tens a certeza que isso é possível?

    Ao contrário do que se possa pensar, o Andanças não é o único festival a que vão famílias. Vi-as no Sudoeste, e há-as no Boom (conheço muita gente que vai lá há anos), por exemplo.

    Isso dos “espaços para tudo” é muito bonito, e resulta bem na maior parte dos casos, mas compreenderás que é completamente diferente estar à conversa, a beber um copo de vinho e a “confraternizar” longe da barganheira em que se tornava o recinto nalgumas noites (até uma das vocalistas dos MU se referiu a isso numa entrevista). Deixa-me apenas concluir dizendo que, como é fácil perceber, 80% dos pontos negativos (que são quase nulos, diga-se) do Andanças resolviam-se dando instruções aos seguranças para não exagerarem na sua “missão”…

  6. Joana diz:

    Olá António
    Antes de mais quero pedir desculpa porque se calhar fui um pouco brusca sem estar completamente ao corrente da situação. Por norma faço o possível por cumprir regras, o que talvez me torne um pouco intransigente com os outros. O meu post foi uma reacção a “(…)não se percebe a obsessão em acabar com o barulho às 24h (…) ”
    Quanto ao controlo de entradas, acredito no dizes e espero sinceramente que não se volte a repetir. Só não sobre-escrevo porque, pessoalmente a sério que não tive razões de queixa ( lá está, devo ser uma excepção), porque foi de facto foi das criticas mais recorrentes! O excesso de zelo nem sempre é a melhor maneira de resolver problemas…(aliás por aquilo que contam os seguranças devem ter sido responsáveis por muitas pulseiras danificadas!)
    Voltando à questão dos campings e à situação concreta que descreveste … não vou escolher nenhum dos lados porque acho que nenhum está completamente certo, e sobretudo porque não a presenciei. Mas posso tentar comentar… para já uma das falhas da organização, na minha opinião, é dizer, “não haver barulho a partir de…” quando o mais lógico seria se estabelecer um período de silêncio. Quanto à situação em si, independentemente da hora a que isso aconteceu, acho muito mais grave o segurança não saber quem era o Zeca Afonso do que a situação em si… Afinal uma das coisas bonitas do Andanças é a espontaneidade com que se juntam músicos a tocar… além disso, pelo que percebi, se estavam perto das casas-de-banho estariam na zona do “camping-geral” certo? Enfim…por outro lado também há mais zonas para além do recinto onde se poderiam ter juntado…na relva em frente à escola, na relva ao pé da igreja, na tenda da cantina… a hora a que aconteceu também seria um factor a considerar, tal como eu disse há sempre de haver algum ruído:um fecho de uma tenda a abrir ou a fechar, alguém a ressonar, uma torneira…é que a sensibilidade/irritabilidade das pessoas em relação ao ruído” é diferente em função da hora da noite e daquilo que se estiver a fazer. De qualquer modo, pessoalmente prefiro uns vizinhos a tocarem Zeca Afonso baixinho do que uns vizinhos a ressonar, independentemente da hora!

    Pessoalmente acho bem que exista uma regra deste género nos campings. Mas também acho que a gestão dessa questão depende sobretudo do bom-senso e da sensibilidade das pessoas… Acho eu que “Silêncio a partir das 22H” não significa que se possa fazer todo o barulho que se quiser (sei lá, tipo estar a tocar percussão com tachos! para dar um exemplo extremista!) até às 21:59! Posso também contar o que me aconteceu numa das noites. Fui à tenda e já eram quase 22h e eu ia ter com amigas à fila da cantina, estava super cansada e um pouco em baixo, pelo que o meu nível de irritabilidade estava bastante acima do que costuma estar no Andanças (e obviamente ninguém tem culpa disso). Já ouviste falar na “Hora da Quinta”? Havia um grupinho de adolescentes no camping calmo que achava que só porque eram tipo 21:55 podia andar a uivar e a fazer vozinhas de animais…eu apercebi-me de um deles e descarreguei nele o meu mau humor ” se era preciso eu chamar o segurança, que já eram quase 22h e que não podiam estar a fazer ali aquele barulho só porque “21:55″, que era um falta de respeito e que quisessem fazer esse tipo de coisas que fossem para o camping geral!” ele respondeu cheio de nove horas e que de qualquer modo já se iam embora… ( eu continuo a achar que tinha razão mas também sou a primeira a admitir que o miúdo não tinha culpa do meu mau-humor)

    Relativamente ao cumprimento de regras é imprescindível que os seguranças terem uma conduta exemplar – sem excesso nem falta de zelo.
    (E aliás, tendo em conta a questão do silêncio e até da próprio mote de ecologia de que vive o festival, não fazia sentido que os seguranças circulassem pelos campings de moto4! como diria o Fernando Pessa. ” E esta , hem?!)

  7. nox diz:

    Alguém já está a pensar ir ao Andanças 2009? Estou com uma vontade imensa de conhecer o festival e de experimentar tudo o que visto e lido até agora… Deve ser muito bom mesmo… Se alguém estiver a pensar ir, que me avise, pois ainda não tenho companhia!!

  8. Liliana diz:

    Boas,
    Estou a realizar um projecto sobre o andanças no âmbito da disciplina de organização e gestão de eventos…
    Nunca participei neste evento, com muita pena minha, contudo escolhi o Andanças por ser um evento inovador, interessante, e diferente dos restantes festivais com que nos deparamos no decorrer do verão.
    Mas falta-me informação quanto ao plano promocional. Será que alguém me sabe informar em que meios de comunicação social é divulgado o evento? Na tv, rtp1, rtp2 e sic sei que é divulgado como notícia. Mas gostaría de saber em que jornais e rádios é divulgado o andanças.
    Agradeço qualquer informação que me possam disponibilizar o mais breve possivel (hoje se possivel)
    Cumprimentos

  9. João Torgal diz:

    Liliana:

    Na RUC (Rádio Universidade de Coimbra) damos um grande destaque ao festival. Por exemplo, fizemos no ano passado uma antevisão do festival no “Artesanato Sonoro” (programa de músicas do Mundo), fiz durante o Andanças uma série de entrevistas a músicos, efectuámos posteriormente duas emissões de balanço e escrevi no blog (www.artesanatosonororuc.blogspot.com) um texto mais sistematizado sobre a edição de 2008 e sobre a essência do festival.

    Foi óptima a minha experiência no Andanças no ano passado, pelo que deve ser para repetir este ano. Melhor só mesmo o brutal Festival de Músicas do Mundo de Sines. Ao FMM é que não tenciono mesmo faltar.

  10. Pingback: O “Conceito” Andanças | A Mesa de Café

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