Orais na FDUC

Um relato curioso daquilo que infelizmente se pode passar – e que se passa – nas orais da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Lembra-nos que enquanto não se alterar o paradigma vigente (“até ao final do secundário a culpa das coisas correrem mal é sempre dos professores, nunca dos alunos, e no ensino superior é sempre dos alunos, nunca dos professores (ou Exmos. Srs. Profs. Drs.))” não se separam os alunos promissores dos que não trabalham, nem os professores incompetentes (que em muitos casos relegam, flagrantemente, a docência para… 4º plano) dos que realmente se dedicam ao ensino, nas universidades. Por outro lado, o estatuto de divindade que estes títulos académicos parecem conceder é algo de verdadeiramente anacrónico. Fica o excerto:

“(…) Lembro-me do tempo em que trabalhava na faculdade e fazia parte do júri das orais e da reputação de arrogante e insensível que ganhei à custa disso.

Como devem imaginar (eu imagino, pois lembro-me bem do que sentia quando estava do lado de lá), quando se faz uma oral num sítio como a FDUC, a última coisa que queremos ver/ouvir é a pessoa que está no júri começar a rir quando se erra uma pergunta (bem, há que ser preciso, não era só errar, tal seria um eufemismo, a frase correcta é “quando se erra uma pergunta e se diz um tremendo disparate”). Pois, eu sou desse tipo de pessoas… acreditem que bem me esforçava por evitar, mas a minha mente humorística é mesmo retorcida (ou nem tanto. Será que alguém pode ficar indiferente à seguinte sequência pergunta/resposta: “onde podemos encontrar o capital social de uma sociedade comercial? Na Caixa Geral de Depósitos!”). O pior era a injustiça (na minha perspectiva) de os alunos pensarem que eu estava a gozar com a desgraça alheia.. quando simplesmente tenho uma vontade incontrolável de rir. O cúmulo da ironia (algo também frequente nos dias que correm…) era um professor com quem eu fazia orais, que era considerado “um querido e um amor” pelas alunas e “um gajo porreiro” pelos alunos e que, na verdade, era o maior cab*** com quem eu fazia orais… mas claro, enquanto o proveito era dele, a fama era toda para mim. Pegando no exemplo anterior, ele partia da resposta e desenvolvia sadicamente: “a sim? em que agência da CGD? Tem a certeza que não pode estar noutro banco? E não se pode transferir o capital social para outro banco? Ora pense lá. Isso não levantaria problemas de concorrência?” .. como já devem estar a imaginar, para ele o aluno já estava chumbado no primeiro disparate! 

E conseguia manter-se sério durante todo o processo de tortura. Não só resistia ao riso do disparate, como, entretanto (isto é, enquanto o aluno desesperava com a sequência de perguntas sem sentido), me segredava entre os dentes: “este tipo vai mas é limpar casas de banho para a CGD, só diz m****!”. Mas não ficava por aqui, depois da tortura, ainda tinha o discurso nutrido do mais requintado companheirismo do mundo, do género: “Vi que estava nervoso, sei que estudou. É um aluno para mais altos voos. Não sei se vai dar para passar, mas fique descansado que ponderarei muito bem o seu esforço”. Claro que, entretanto, ele já tinha escrito “reprovado” na ficha de avaliação! Para a posteridade ficava: “aquele cab*** do gajo que se pôs a rir é que me tramou”. E por aí fora… “

Compreensivelmente, o autor não revela a sua identidade.

Via A Ilha do Dia Antes. Um obrigado à Mariana, por descobrir estas pérolas.

Resta-me apenas mencionar o que se passou numa, deste ano: o regente da cadeira fala ao telemóvel durante uma oral, pelas 11 da manhã: “(…) 3 quartos? Sim, sim! Marcamos agora para o final da manhã…“. Orais interrompidas até às 14h30. Porque é quase um insulto verificar se sua excelência cumpre com o seu trabalho. Isto é real, passou-se com colegas meus. Felizmente, nunca me calharam destes na rifa.

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4 respostas a Orais na FDUC

  1. Eu imagino este tipo de orais a acontecer sabes a quem? Sarcastic Way 😀 é que é o alvo perfeito para este tipo de professores eheh.
    Quando li o post até me pus a rever mentalmente as orais que fiz para ver se já me tinham dito algo do género, sem eu perceber que me estavam a gozar na cara, mas acho que felizmente não… embora essa das orais interrompidas para o professor ir ver casas, sim, aconteceu comigo. Mas aí quem fez figura de palhaço foi ele e não nós 😉

  2. bia diz:

    melhor mesmo…. mt melhor, para os nervos… e propicio a ataques cardiacos é começarem por fazer uma pergunta extremamente basica e depois olharem com ar de gozo e dizerem: “tem a certeza” e como se tem a certeza e nao se pode fazer frente ao doutor sai um: “nao é??????” e ouve-se aquele tom de voz que ja irrita a dizer: “ah eu nao sei, nao se esqueça que tou ca para lhe dificultar a vida”

    GGRRRR

    que curso escolhi eu? decicidamente da vontade de correr dali!!

  3. Sr. Doutor Bela de(a) Cunha diz:

    Pois é, são as elites podres que temos em Portugal. Mania dos Doutores. Com o feudalismo de gerações que temos na fduc percebe-se bem o desprestígio que se vai associando àquela faculdade. Mas abstraindo-me da fduc, logo penso quantos professores universitários gostam de ensinar? Lidar com alunos? Realmente se esforçarem para os transformar em melhores alunos e cidadãos? Confunde-se o brilhantismo académico (e muitas e demais vezes a cunha) que propriamente a capacidade de transmitir conteúdos. Talvez uma distinção entre docentes de investigação e de pedagogia seria uma boa solução. Voltemos aos distintos professores da FDUC que demonstraram a capacidade de se adaptar ao regime político vigente de modo a não lhes retirarem do poleiro: José “Canotas”, Vital Moreira, Santos Justo : até 1974, política não é com eles, a partir de 1974, ora pois tempo do PREC, PCP “all the way”, depois do “Dr” Soares tomar as rédeas do poder rumo à destruição, Partido Socialista claro… Enfim, para mais não falar de Doutores que são autênticos Snobs. Esquecem-se de que quem aprovou o plano de estudos deste curso foi o conselho cientifico, e não os alunos que com ele sofrem atrocidades de bolonha mas são criticados por o frequentarem… Alguns desse ilustres como Pinto Bronze e “Canotas” tiraram o curso em 10 anos… Lol… qualquer menino bem educado e inteligente, que tivesse capacidade financeira para se sustentar durante tanto tempo nessa instituição conseguiria ser docente. Cuidem-se. Deviam ser os primeiro a primar pela humildade!

  4. Dr. Castanheira Chuva Miudinha diz:

    É com algum prazer e satisfação que posso escrever estas breves palavras… Não critico e não irei criticar o mecanismo de funcionamento daquela casa… A FDUC está podre… E como qualquer podridão estrutural, cairá por si!!! E lamento desiludir os menos atentos… Mas não são os verdadeiros e antigos mestres e doutores daquela casa que são os “maus da fita”… Os alunos estudam pouco e têm, na cidade de Coimbra, muitas coisas muito mais interessantes para fazer… Portanto se estudarem mais um pouco pode ser que ajude… Sim… Custa mas é verdade… E além disso o estudo vai permitir eliminar algumas pontas de ignorância que não são admissíveis a este nível académico…. Se assim for esta parte está resolvida… Mas quanto aos docentes… Meus amigos… Como qualquer aprendiz… Vem para a lide com mais requinte, algumas e alguns parece que com requintes de malvadez… mais polido, com necessidade de se afirmar… E a nova geração de professores daquela casa é algo de deplorável até a nível de pedagogia! Já dizia o meu querido e saudoso Dr Castanheira Neves a uma pessoa de família… ” Minha filha se não serves para trabalhar, se não sabes advogar, dedica-te à docência!!”

    Dissabores à parte, simpatias e trocas de galhardetes dispensadas uma coisa é certa… Quem vencer naquele circo de feras… não tem medo de nada! A vida prática não assusta!

    Para quem lida com essa realidade fica uma dica… Podem dizer e fazer o que eles quiserem… Não se deixem abater… Quanto mais determinação e empenho existir, maior será por vós o respeito!

    E no fim disto.. Quid iuris?

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